Três poemas de Ruy Ventura

iluminação

que mão avança
no negrume dessa tinta
quando a carne brilha,
mesmo oculta nessa sombra?

a tinta não interrompe
a luz intensa
que do olhar
dirige esta viagem.

nem mar, nem vento
– nem essa brancura
que recorta os alicerces
e as paredes –
conseguem melhor voo
nesta tarde.

apenas essa mão,
velha (e perfeita)
segurando-nos
no ouro e na madeira,

esses olhos vigiando
a fortaleza
(pedra e sangue,
carne e tempestade) –

e o segredo de um nome
(o nosso nome)
escorando

nosso fogo
e nossa sede.

***

distância

ao longe, o vidro e a madeira escurecem.
a macieira ilumina o quintal.
apenas pedra – e o comércio da água,
entre as muralhas e o sangue
há muito desaparecido.

a língua surge estranha ao corpo e ao olhar.
a represa recolhe os passos
que desenham a escada.
a fotografia espera-nos – tão perto.
a estela marca o espírito na terra,
o sopro do vento
nas confrontações da alma.

nada resta do palácio
nem do minério.
tudo ficou da longa mansão
onde o anjo resguarda o oiro

e a memória.

***

pedra

há linhas de fogo
atravessando a tela.
serão somente brilho
ou luz que secciona
a noite e as formas –
mas a tinta arde,
mantendo nos olhos
a essência da pedra
que a névoa protege
do vento e da cegueira.

[in Instrumentos de Sopro, Edições Sempre-em-Pé, 2010]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges