Primeiros parágrafos

«Bill is gone.
What is the sound of an eighty-nine-year-old heart breaking? It might not be much more than silence, and certainly a small slight sound.
When I was four I owned a porcelain doll given me by a strange agency. My mother’s sister, who lived down in Wicklow, had kept it from her own childhood and that of her sister, and gave it to me as a sort of keepsake of my mother. At four such a doll may be precious for other reasons, not least her beauty. I can still see the painted face, calm and oriental, and the blue silk dress she wore. My father much to my puzzlement was worried by such a gift. It troubled him in a way I had no means to understand. He said it was too much for a little girl, even though the same little girl he himself loved with a complete worship.»

[in On Canaan’s Side, de Sebastian Barry, Faber and Faber, 2011]

Diários cruzados

Escritos Secretos
Autor: Sebastian Barry
Título original: The Secret Scripture
Tradução: Patrícia Xavier
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 300
ISBN: 978-978-25-1833-8
Ano de publicação: 2009

«O mundo começa de novo com cada nascimento, dizia o meu pai. Esquecia-se de dizer que, com cada morte, o mundo acaba. Ou talvez achasse que não era preciso dizê-lo. Porque durante grande parte da sua vida trabalhou num cemitério.»

Lapidar, este primeiro parágrafo de Escritos Secretos sinaliza desde logo alguns aspectos essenciais da escrita de Sebastian Barry: a eloquência do estilo, a precisão verbal e a capacidade rara de submeter o leitor a uma espécie de encantamento poético.
A voz que fala do pai coveiro, na Irlanda em convulsão dos anos 20, pertence a Roseanne McNulty, uma mulher quase centenária que tenta organizar as suas recordações mais antigas num diário («Testemunho de Roseanne a seu respeito»), escrito às escondidas e guardado debaixo do soalho do seu quarto, num hospital psiquiátrico perto de Sligo.
Acontece que este vetusto asilo está prestes a ser demolido e cabe ao Dr. William Grene, psiquiatra, decidir que doentes transitarão para o novo edifício (com menos camas) e que doentes terão que procurar outro lugar para viver. Devastado pela morte recente da mulher, com quem nunca se entendeu durante o casamento, o médico acumula notas sobre os últimos dias do hospital («livro de banalidades» é como lhe chama), procurando na escrita uma saída para o luto sufocante.
Ao alternar as entradas dos dois diários, Barry traça pouco a pouco o perfil de duas pessoas à beira da desintegração. Roseanne, vítima há várias décadas de uma história de vingança familiar que levou ao seu internamento à força, a pretexto de uma loucura inexistente, agarra-se ao passado com unhas e dentes, tentando resgatar uma versão dos factos que a memória – falível – pode ter entretanto distorcido. A Irlanda que emerge deste relato é escura, brutal, sangrenta, com o ódio entre católicos e protestantes a envenenar tudo, mas há também momentos de um lirismo luminoso, como se o negrume e a mais pura beleza fossem duas faces da mesma moeda.
Quanto a Grene, procura orientar-se num deserto existencial aparentemente sem saída. A forma como o seu desamparo vai procurando um ponto de apoio na fragilidade (até identitária) de Roseanne é um dos pontos fortes do romance. Infelizmente, esta progressiva aproximação entre dois solitários, com muito mais em comum do que se poderia pensar de início, acaba boicotada por um desenlace inverosímil, que torna explícito o que era preferível ter ficado apenas sugerido.
Ainda assim, este é um belíssimo romance de um autor, também poeta e dramaturgo, cujas obras merecem ser conhecidas pelo público português.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no n.º 79 da revista Ler]

Livro premiado de Sebastian Barry em Abril

O romance The Secret Scripture, do escritor irlandês Sebastian Barry, vencedor do Costa Book of the Year e finalista do Man Booker Prize, vai ser editado pela Bertrand em Abril (segundo o blogue da Ler). Ainda não há título português.

Costa Book of the Year para Sebastian Barry

O Costa Book of the Year, antigo Prémio Whitbread, vai este ano para The Secret Scripture, de Sebastian Barry, um belo romance sobre o qual escrevi aqui e aqui. A edição portuguesa está prevista ainda para este ano, na Bertrand.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges