Primeiro parágrafo

Há quem tenha o fetichismo das primeiras frases. Eu alinho mais no fetichismo dos primeiros parágrafos. Quando tropeço num que seja particularmente bom, fico parado numa espécie de pasmo, saboreio aquilo frase a frase, volto atrás uma, duas, três vezes, releio uma quarta e só depois prossigo com a leitura.
Querem um exemplo? O início do romance Sempre Vivemos no Castelo, de Shirley Jackson, que a Cavalo de Ferro acaba de editar, com tradução de Maria João Freire de Andrade:

«Chamo-me Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e vivo com a minha irmã Constance. É frequente pensar que se tivesse tido um pouco de sorte poderia ter nascido lobisomem, porque o anular e o dedo médio das minhas mãos têm o mesmo comprimento, mas tive de me contentar com aquilo que tenho. Não gosto de me lavar, nem de cães ou barulho. Gosto da minha irmã Constance, de Ricardo Coração de Leão e do Amanita phalloides, o cogumelo da morte. Todas as outras pessoas da minha família estão mortas.»

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges