Habitar a transparência

A Sala de Vidro
Autor: Simon Mawer
Título original: The Glass Room
Tradução: Helena Lopes
Editora: Civilização
N.º de páginas: 415
ISBN: 978-972-262-771-9
Ano de publicação: 2009

Finalista do Man Booker Prize em 2009, este romance de Simon Mawer parece-se muito com a casa que está no centro da narrativa: um lugar amplo, aberto à luminosidade exterior, de arquitectura geométrica (com predominância de linhas verticais e horizontais) mas algo fria, expressão de um despojamento quase clínico que nem a extravagância de uma parede em ónix consegue atenuar.
Recém-casados, os Landauer (Viktor, um próspero construtor de automóveis; e Liesel, rapariga de impecável ascendência) encontram-se casualmente em Veneza com Rainer von Abt, um arquitecto minimalista que se considera um «poeta da luz e do espaço e da forma», que abomina a construção tradicional (pedra, tijolos) e que sonha desenhar edifícios transparentes, de janelas rasgadas, com muito vidro e muita claridade. Discípulo de Adolf Loos e alérgico a tudo o que seja ornamento, ele pretende «tirar o Homem da caverna e pô-lo a flutuar no ar». Disponíveis, endinheirados, os Landauer são as cobaias perfeitas.
Estamos no final da década de 20, em plena Primeira República Checoslovaca. O projecto avança e a casa faz-se, simultânea com a primeira gravidez de Liesel. A Villa Landauer torna-se então o palco (e por vezes a metáfora) das histórias familiares, atravessadas por segredos e tensões (as infidelidades de Viktor, a atracção lésbica nunca consumada de Liesel por Hana, as ameaças nascidas da perseguição aos judeus). A enorme sala de vidro, coração da casa, não é apenas o locus onde os grandes nós narrativos se criam e resolvem; é também uma câmara de eco da História, que Mawer evoca à medida que o edifício envelhece e atravessa a ocupação nazi (transformado em laboratório de biometria), a II Guerra Mundial, a passagem dos soviéticos e as décadas de regime comunista (durante o qual passa a ser ginásio, anexo de hospital e por fim museu).
A conclusão da história é talvez demasiado redonda, demasiado simétrica, mas não compromete o equilíbrio, arquitectónico e ficcional, de um romance que chega a ser brilhante, sobretudo nas duas primeiras partes.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 87 da revista Ler]

Diário do Booker 2009 (2)

«Rainer von Abt no local de construção: é o final de um dia de Abril com uma chuva fina e irritante a cair. A lama é ainda a característica principal do lugar, lama a colar-se às pernas e a tentar arrastar as pessoas para o buraco. Von Abt, de sapatos de couro grosso enlameados, encontra-se sobre uma passagem de pranchas. Vestido como está, de fato cinzento-escuro, sobretudo preto e chapéu mole de feltro, seria facilmente confundido com o proprietário. A seu lado, de botas de borracha, está o capataz da obra, enlameado, desgrenhado e incomodado. De momento não existe forma concreta na construção para que estão a olhar. Não é mais do que um esboço de traços vigorosos, registado na mente de Von Abt, transferido para folhas de papel, depois revisto, reconsiderado, discutido ao mínimo detalhe, e agora prolongado nas horizontais e verticais vigorosas de aço avermelhado, um labirinto em três dimensões erguido no meio da atmosfera enevoada. No passado, as casas cresceram naturalmente, como plantas, do solo para cima. Mas esta casa é diferente: ela cresce da estrutura para fora, como uma ideia a transformar-se numa obra de arte a partir do âmago central de inspiração para o facto material da realização. As betoneiras agitam-se e vomitam. Os homens andam para a frente e para trás com cochos de pedreiro sobre os ombros. Escadas erguem-se como diagonais pronunciadas face ao esqueleto rectilíneo da estrutura.
O capataz da obra desdobra uma cópia heliográfica e faz um gesto para cima em direcção ao andar do topo onde um trabalhador se equilibra ao longo de uma viga como uma criança pelo rebordo de um passeio.
– O senhor pretende que paredes bem resistentes dêem à obra alguma estabilidade – afirma ele.
– Eu não pretendo nada disso – responde Von Abt com notável bom humor. – A estabilidade é a última coisa que eu quero. Esta casa deve pairar em luz. Deve cintilar e brilhar. Não deve ser estável!
O homem funga.
– Parece mais uma máquina do que uma casa.
– É o que ela é, uma máquina para se viver lá dentro.
O capataz abana a cabeça perante a ideia de uma tal máquina. Ele quer quatro paredes à sua volta, feitas de pedra. Nada deste disparate de estrutura de vigas de aço. Se aquilo serve para alguma coisa é para edifícios de escritórios – estão a construir um edifício semelhante em Jánská, neste mesmo momento, mas vai ser um grande armazém, graças a Deus, não uma casa particular.
– Le Corbusier – diz Von Abt.
– O quê?
– O que eu disse não é original. Não posso colher os louros. Le Corbusier chegou lá primeiro. La machine à habiter.
– O que é isso?
– É francês.
– Quem precisa do francês? Já é suficientemente mau ter de lidar com o alemão e o checo.»

[in A Sala de Vidro, de Simon Mawer, trad. de Helena Lopes, Civilização, Outubro de 2009]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges