Sophia na Assírio

O Grupo Porto Editora escolheu o Dia Internacional da Poesia para anunciar que a Assírio & Alvim, depois de Eugénio de Andrade, vai também passar a editar a obra poética completa de Sophia de Mello Breyner Andresen. Os primeiros títulos a recuperar, ainda este ano, são Poesia (1944), Coral (1950), No Tempo Dividido (1954) e Mar Novo (1958). Recorde-se que em 2012 a Porto Editora já assegurara os direitos para reeditar a obra em prosa de Sophia.

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Dois dias para Sophia

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Lançamento da ‘Obra Poética’ de Sophia

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Um jardim para Sophia

Evocação de Sophia
Autor: Alberto Vaz da Silva
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 102
ISBN: 978-972-37-1453-1
Ano de publicação: 2009

Das muitas formas possíveis de evocar Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Alberto Vaz da Silva (AVS) escolheu uma das menos ortodoxas, ao acrescentar às previsíveis recordações pessoais uma abordagem astrológica e grafológica da homenageada. Discreto por natureza, o autor mantém uma distância de segurança face ao objecto do discurso, como que para respeitar a essência do mistério de Sophia. Amigo próximo da escritora, AVS nunza faz alarde dessa amizade, nem do facto de a ter acompanhado em alguns dos melhores e piores momentos da sua vida.
Se menciona, por exemplo, uma viagem que os dois fizeram à Sicília, em 1990, com a mulher de Alberto (Helena Vaz da Silva) e João Bénard da Costa, é para recuperar a felicidade desse mergulho nas raízes da nossa civilização e sublinhar a certeza de que «ela pertencia às colunas gregas que se erguem como hieróglifos secretos na luz mediterrânica». E se relembra os interrogatórios da PIDE, a que ambos foram sujeitos por terem subscrito o «Documento dos 101», é apenas para revelar a têmpera e coragem de quem nunca se resignou com o estado das coisas: «Esta Sophia dos tempos duros da resistência ao salazarismo, da luta pela liberdade e pela justiça, constitui o núcleo da minha memória.» Uma memória singular e à sua maneira poética, porque sempre amparada, na sua trajectória, pelas palavras de Sophia: versos escolhidos, excertos de cartas a Jorge de Sena, dedicatórias em livros, prosas da escritora sobre as casas onde viveu. No posfácio, José Tolentino Mendonça aponta em AVS uma «sabedoria de jardineiro» e esta Evocação pode realmente ser vista como um jardim, a que os canteiros dedicados ao perfil astrológico e à análise da caligrafia, actividades caras ao autor, em minha opinião nada acrescentam de relevante.
Essencial é o prefácio de Maria Velho da Costa, Sophia: Vozes, 17 páginas belíssimas com «cenas vivas» da intimidade das duas escritoras, que diziam os respectivos nomes em francês e se deixavam ficar à noite a falar no alpendre, depois da praia, brilhando «na meia obscuridade como as estrelas que se viam no céu limpo». Dezassete páginas magníficas que de certa forma eclipsam, mesmo se involuntariamente, o resto do livro.

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado no número 89 da revista Ler]

Sophia e Maria

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Fotogramas do filme ‘Sophia de Mello Breyner Andresen’, de João César Monteiro (1969)

«Eu saía da água junto aos joelhos dela, a sentir-me translúcida, levíssima como o cefalópode com muitos braços, uma galáxia de braços. Não era para ela, era com ela. Poucas coisas são tão alegres como o egoísmo de duas crianças síntonas no seu brinquedo, que era o mar.
– A partir de certa idade, Maria, o mar rejeita-nos.
– Ora, Sophia, é só a água na cara que a enerva, isso há-de passar.
Não era caridade, era compaixão. Compaixão com ela do que um dia havia de me esperar. O mar hostil.
Íamos já a caminho de casa, do delicioso spaghetti frio que ela temperava com ervas e azeite virgem, alcaparras ou anchovas, do peixe frio marinado em calda, como se come no mar, comido no alpendre, debaixo da renda de heras. E da noite, que já avermelhava no horizonte marinho do almoço tardio.
Da noite, em que vestidas de lavado, cabelo desamarrado, o dela uma sedinha solta, o meu afrodionisíaco, como ela o dizia, roupas longas, soltas e largas, falávamos de tudo e de nada, até às mais altas horas, que lhe convinham, a ela e a mim. Bebíamos vinho branco gelado, não havia retsina, pena para ela, bom para mim, que não gosto de quase nada do que vem da Grécia, excepto a comida e as azeitonas talhadas com alho e tomilho, o que a chocava, mas não tanto quanto seria de esperar.
– Ruínas, por mais belas, amarguram-me, Sophia.
Falávamos na noite, no alpendre quase morno, sem tom nem som. Nenhuma das duas era desesperadamente musical. Não havia música nem nos fazia preciso. Falávamos mais de todos do que de tudo; do tudo eram a arte e a poesia – nem política, nem mundos a mudar. Não era a prudência de pertencermos a facções políticas diferentes. Era a força de indiferenciação da noite, quando as mulheres falam. Falávamos de amores, de filhos, de amigos e desamigados. Desse mundo ginecêutico e caótico, onde tínhamos ambas de manter aparências. Brilhávamos na meia obscuridade como as estrelas que se viam no céu limpo, mortais e imortais, passe a solenidade.
Porque não éramos solenes.»

[in Sophia: Vozes, de Maria Velho da Costa, prefácio ao livro Evocação de Sophia, de Alberto Vaz da Silva, Assírio & Alvim, 2009]

Esboço biográfico (em menos de dez palavras)

Sophia viveu entre a Graça e a Grécia.

Um miradouro para Sophia

Ao fim da manhã, algumas dezenas de pessoas assistiram, no adro da igreja da Graça, à cerimónia de atribuição do nome de Sophia de Mello Breyner Andresen a um dos mais belos miradouros da cidade de Lisboa, no dia em que passam cinco anos sobre a morte da maior poeta portuguesa do século XX.


Antes do discurso protocolar de António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, José Sá Fernandes (vereador do Ambiente e Espaços Públicos) e Manuela Júdice (vereadora sem pelouro), descerraram uma placa com o poema Lisboa, parte de um projecto arquitectónico assinado por Gonçalo Ribeiro Telles (que já desenhara o jardim da casa de Sophia, na Travessa das Mónicas):

LISBOA

Digo:
«Lisboa»
Quando atravesso – vinda do sul – o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas –
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
– Digo para ver

A homenagem prosseguiu com a leitura do poema por um dos filhos de Sophia, Miguel Sousa Tavares:

Falou depois uma das filhas:

Também poeta, Maria Andresen explicou como foram feitos os primeiros contactos com Manuela Júdice, antiga directora da Casa Fernando Pessoa. «Explicámos-lhe que tínhamos pena de não haver em Lisboa um único lugar a que estivesse associado o nome da nossa mãe. Começámos por sugerir o jardim da Graça, de cuja forma em hélice ela gostava muito, mas afinal já tinha nome [Augusto Gil].» A escolha acabou por recair no miradouro, que pertence à câmara, estava sem designação e abre para um panorama da cidade que Sophia também contemplava com prazer. Referindo-se à hora a que a cerimónia começou, poucos minutos para lá do meio-dia, Maria Andresen recordou ainda uma frase da mãe: «Certa vez, eu disse-lhe que preferia a luz do nascer do dia à do crepúsculo e ela respondeu: “Eu gosto é do sol a pino”».

Assistiram à homenagem vários amigos da família, escritores e editores, entre os quais Manuel Alegre, António Osório, Pilar del Río, Teresa Belo, Zeferino Coelho, Lídia Jorge, Inês Pedrosa, Jerónimo Pizarro, Maria Teresa Horta e um grupo de senhoras octogenárias, que ao deixar o miradouro se queixavam: «Só é pena que o senhor presidente, no seu discurso, se tenha esquecido de nos agradecer, a nós, vizinhas da Dona Sophia, que aqui viemos para a lembrar.»
Foi ainda inaugurado um busto de António Duarte, réplica de um original em bronze, esculpido nos anos 50:

O rosto de Sophia olha de frente para a cidade «oscilando como uma grande barca», para o castelo, para o «corpo amontoado de colinas», para o rio ao fundo. E o que vê é isto:

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges