Sexo, mentiras e cumulonimbos

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A Teoria das Nuvens
Autor: Stéphane Audeguy
Título original: La Théorie des Nuages
Tradução:
Carlos Correia Monteiro de Oliveira
Editora: Teorema
N.º de páginas: 275
ISBN: 978-972-695-761-4
Ano de publicação: 2008

Akira Kumo é um mestre japonês da alta-costura que preza, acima de tudo, a sua nova colecção de objectos raros. Depois de “espetos de manivela saboianos, saris tradicionais de seda natural, opalas australianas, tapeçarias dos Gobelinos e vasos Ming”, entretém-se agora a reunir, no terceiro andar da sua casa apalaçada (na rua Lamarck, em Paris), a mais completa das bibliotecas privadas de temática exclusivamente meteorológica. Para organizar e catalogar esses livros sobre nuvens (mas também sobre os homens que as estudaram ao longo dos tempos), contrata Virginie Latour, uma jovem bibliotecária.
O principal eixo deste livro, em que os planos narrativos se acumulam e sobrepõem constantemente, assenta na relação entre Kumo e Latour. Numa primeira fase, ainda com as formalidades habituais entre mestre e discípula, o estilista limita-se a contar histórias, às quais “acrescenta elementos” que potenciam o seu impacto dramático. São histórias sobre figuras reais, como Luke Howard (um quaker que inventou a primeira nomenclatura consistente das nuvens, no início do séc. XIX) ou Lewis Fry Richardson (um dos fundadores da meteorologia moderna), mas também sobre personagens ficcionais, como o pintor Carmichael, obcecado pelas paisagens do céu ao ponto de por elas perder a razão e a vida, ou a dupla de rivais que se digladiam no Congresso Mundial de 1889: o sueco William S. Williamsson e o escocês Richard Abercrombie.
Atrás destes fluxos narrativos autónomos, que podem prolongar-se por dezenas de páginas, esconde-se o verdadeiro objectivo de Kumo. Ele partilha conhecimentos enciclopédicos com Latour para a manter perto de si, para ganhar tempo até conseguir contar a história que verdadeiramente lhe interessa: a sua. Sobrevivente do ataque a Hiroxima, este homem bizarro e misantropo, que só se satisfaz com prostitutas, fez tábua rasa da infância vivida no Japão, esquecendo-a tão completamente que se julga com menos 13 anos do que realmente tem.
Se evoca a “obstinação irreflectida” dos homens que aos poucos vai resgatando do passado, esses seres solitários que olhavam para as anfractuosidades das nuvens como para um abismo, “girando na noite eterna da vertigem” com uma propensão para a queda (e, em muitos deles, para o suicídio), é para chegar à sua nuvem primordial: o cogumelo nuclear que devorou tanto a cidade onde habitava como a irmã, Kinoko, transformada em cinza como os judeus de Auschwitz. A culpa por manter-se vivo (estava dentro de água no momento da explosão) abre-lhe um buraco negro na memória que o perseguirá até ao fim dos seus dias.
Todas as mentiras, pequenas e grandes, confluem para essa verdade – tão dura que, ao materializar-se, o destrói. Antes disso, porém, há ainda tempo para orientar Latour na procura duma espécie de Santo Graal da meteorologia (o Protocolo Abercombrie), exemplar único que nunca ninguém leu porque Abigail, filha adoptiva do seu autor (Richard Abercombrie), o manteve diligentemente fora de alcance. À maneira de um livro dentro do livro, a narrativa das deambulações de Abercombrie pelo mundo, registadas no famoso Protocolo (documento inclassificável que Virginie decifra como quem desenreda uma meada), é o registo de uma metamorfose. Na ilha de Bornéu, a meio caminho de uma volta ao mundo, o até então casto Richard transfere a sua obsessão das nuvens para o sexo das mulheres, que passa a fotografar com uma diligência e numa quantidade que fariam D. João Tenório corar de vergonha.
Espantosamente, os muitos fios que Audeguy lança, nas mais variadas direcções, atam-se todos no fim e as tragédias como que convergem, embora de uma forma não linear, deixando o leitor à mercê de uma magnífica tempestade que paira sobre o local perfeito para observar nuvens perto de Londres (como bem sabiam Howard e Carmichael): a charneca de Hampstead, onde Latour cumpre, numa espiral de melancolia, o desígnio de Kumo.
Antes deste belíssimo livro de estreia, majestoso e etéreo como uma nuvem cumulonimbo, a Teorema já editara o segundo romance deste autor, Filho Único, auto-biografia imaginária do esquecido irmão mais velho de Jean-Jacques Rousseau, livro que confirmou Audeguy como um dos nomes mais estimulantes da literatura francesa actual.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges