Conseguem imaginar a curvilínea Scarlett Johansson a fazer o papel da escanzelada Lisbeth Salander?

Segundo estes rumores (não muito fiáveis, diga-se), David Fincher, o realizador da adaptação cinematográfica hollywoodesca do primeiro volume da trilogia Millennium, de Stieg Larsson, consegue. Eu não.

Stieg Larsson e a cafeína

Um debate.

Afinal havia outros

Isto é: outros textos de Stieg Larsson, uns inéditos de ficção científica que o autor sueco terá escrito aos 17 anos e enviado para uma revista chamada Júlio Verne. Espero sinceramente que o pai e o irmão, envolvidos numa disputa judicial com a viúva de Larsson (Eva Gabrielsson), não se lembrem de lucrar com estas prosas previsivelmente medíocres. Não há nada pior para um escritor do que haver alguém a desenterrar-lhe as primícias falhadas.

Kepler vs. Larsson

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De Lars Kepler, diz-se que pode ser o sucessor de Stieg Larsson. Uma hipótese a testar muito em breve (20 de Maio).

Stieg Larsson domina no Reino Unido

A tradução inglesa do último volume da trilogia Millennium, de Stieg Larsson (The Girl Who Kicked The Hornets Nest; em português, A Rainha no Palácio das Correntes de Ar), é o livro mais vendido no Reino Unido em 2010 até agora.

Unputdownable

Uma pessoa afasta-se do mundo: não vê mails, não bloga, não liga sequer o computador, quase não fala, quase não come, quase não dorme. Acho que o adjectivo unputdownable foi inventado para descrever os livros deste senhor.

O regresso das amazonas

No entender de Diego López Garrido, Secretário de Estado espanhol «para la Unión Europea», o segredo da trilogia Millennium, de Stieg Larsson, está na recuperação da figura mítica das amazonas; isto é, mulheres fortes que «se han puesto a marcar el rumbo de los acontecimientos» de forma «irreversible».

Último livro de Stieg Larsson vende cinco mil exemplares em dois dias

E ao terceiro volume parece que o fenómeno Millennium chega finalmente a Portugal.

Boas novas para os fãs de Stieg Larsson

1) Na próxima terça-feira, dia 7 de Julho, chega às livrarias portuguesas A Rainha no Palácio das Correntes de Ar (Oceanos), último volume da trilogia Millennium, iniciada com Os Homens que Odeiam as Mulheres e A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo.

2) Ficou hoje a saber-se que a Lusomundo comprou os direitos de exibição em Portugal dos filmes que adaptam os dois primeiros livros da série. Os Homens que Odeiam as Mulheres, de Niels Arden Oplev, estreará a 17 de Setembro; A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo, a 22 de Outubro; enquanto o terceiro filme chegará no próximo ano, em data ainda a definir.

3) Para acompanhar tudo o que diz respeito às obras literárias de Larsson, a LeYa criou o site Millennium-Mania.

Nos bastidores da trilogia ‘Millennium’

A história é conhecida e já ganhou a aura dos mitos literários. Stieg Larsson, um jornalista de investigação famoso pelo seu trabalho de denúncia do racismo e das actividades da extrema-direita escandinava, começou a escrever, aos 47 anos, para se divertir nas poucas horas vagas, o seu primeiro livro de ficção. Um policial. Mas um policial que escapava aos estereótipos do género. Entusiasmado, Larsson avançou logo para outro, com as mesmas personagens centrais. E para um terceiro. Quando finalmente procurou um editor, tinha na cabeça o projecto de uma série de dez romances. Contudo, em Novembro de 2004, ainda antes da publicação do primeiro volume (Os Homens que Odeiam as Mulheres, edição portuguesa da Oceanos) e quando já tinha 200 páginas escritas do quarto livro, Larsson sucumbiu a um ataque cardíaco fulminante. O elevador do edifício em que trabalhava avariou-se e o seu coração, martirizado pelo excesso de nicotina e um colesterol altíssimo, não resistiu ao esforço de subir as escadas até ao sétimo andar.
Seguiu-se um fenómeno editorial que pede meças a O Código Da Vinci e Harry Potter. Primeiro na Escandinávia (só na Suécia venderam-se dois milhões e meio de exemplares, o que dá a extraordinária média de um livro para cada 3,5 habitantes), depois em França (onde a trilogia já ultrapassou a barreira psicológica do milhão de exemplares), por fim em todo o mundo, à medida que as traduções (em 25 línguas) começaram a conquistar tanto os consumidores habituais de best-sellers como os leitores literariamente mais exigentes. O segredo das aventuras de Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander está no seu carácter viciante: quem começa a ler, não consegue parar. Na internet encontram-se relatos das insónias de pessoas que leram os livros (cada um com cerca de 500/600 páginas) de uma só vez, bem como descrições da síndrome de abstinência por que passaram os mais «agarrados», antes da publicação do volume seguinte. Em Portugal, embora tenha chegado a figurar nos tops de vendas, Os Homens que Odeiam as Mulheres ficou um pouco aquém das expectativas (tiragem de 11 mil exemplares), mas é provável que o efeito cumulativo de A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo desperte a propagação viral, através do boca-a-boca, que tem alimentado o sucesso da série em todo o lado.
Para compreender algumas das razões deste sucesso, vale a pena ler a correspondência que Stieg Larsson trocou com Eva Gedin – 22 e-mails publicados pela Actes Sud numa pequena brochura que acompanha a edição especial da trilogia completa, lançada no final de 2008. Foi Eva Gedin quem recebeu Larsson nos escritórios da Norstedts, uma espécie de Gallimard sueca, instalada num palacete gótico de Estocolmo. Estávamos no início de 2004 e ao escritor foi feita logo ali, poucos dias após os ter enviado para avaliação, uma oferta pelos três livros (o último dos quais ainda por terminar). Satisfeito, Larsson assumiu desde logo que encarava a sua produção literária como um PPR, esperando conseguir com os direitos de autor um razoável pé-de-meia para gozar na reforma. Esta humildade reflectia-se igualmente na aceitação de que os seus livros precisavam de ser trabalhados e sujeitos ao escrutínio rigoroso dos editores da Norstedts, um processo que está implícito em quase todos os e-mails agora trazidos a lume.
Na primeira mensagem, enviada às 18h10 de 28 de Abril de 2004, Larsson acusa a recepção dos contratos («sinto que posso confiar em vocês, por isso nem vou perder tempo a analisar os detalhes») e coloca questões práticas, como a de saber se Gedin pretende avançar de imediato com a caneta vermelha sobre o manuscrito incompleto do terceiro volume («faltam-me pouco mais de 40 páginas») ou se prefere esperar pela versão final, que só estaria pronta em Julho-Agosto «porque ainda não burilei os diálogos nem aprimorei os detalhes». A resposta chega um dia depois: «Prefiro ler o volume 3 na versão em bruto. A situação ideal é esta: ter a possibilidade de ler uma série no seu conjunto. Podemos discutir melhor cada um dos volumes e fazer logo as correcções gerais, o que poupa muito trabalho.»
Para descanso de Gedin, conhecedora da dificuldade em fazer cortes nas obras de autores muito ciosos de cada palavra que escrevem, Larsson confessa o seu desprendimento: «Não sou esquisito.» Repórter com experiência de edição jornalística, na revista Expo (inspiradora da Millennium, de que Blomkvist é sócio), ele faz mesmo questão de que lhe apurem a prosa: «Não tenho uma confiança cega na minha capacidade de escrita; em geral, os meus textos ficam bem melhores depois de passarem pelo crivo de um editor e estou tão habituado a intervir eu próprio como a ser corrigido.»
Um dos aspectos mais interessantes desta correspondência prende-se com a reflexão de Larsson sobre «o que quis dizer» com os seus livros. «Em diferentes níveis, a minha intenção foi ir a contra-corrente dos códigos estabelecidos para os romances policiais.» A caracterização das personagens marca logo essa diferença: Mikael Blomkvist «não tem uma úlcera, nem problemas de alcoolismo, nem angústias». Nada de ouvir árias de ópera, nada de passatempos extravagantes («estilo construir maquetas de aviões»). Os lugares-comuns foram banidos. E, já agora, inverteram-se os papéis sexuais: se Blomkvist é um pachola que não faz mal a uma mosca, a personagem feminina (Lisbeth Salander) acumula «os valores e as qualidades geralmente consideradas “masculinas”». Além de abrir o jogo sobre a génese da sua problemática heroína, «uma sociopata com tendências psicopatas», Larsson demora-se ainda na análise das personagens secundárias, «que em vários aspectos acabam por ter tanta importância como as personagens principais». E se algumas delas se impuseram naturalmente, caso de Erika Berger, sócia de Blomkvist na Millennium, outras transformaram-se em dores de cabeça: «Nos livros que aí vêm, tenho um problema com a Miriam Wu [melhor amiga de Lisbeth], não sei muito bem o que fazer dela.»
A troca de e-mails vai registando, com grandes hiatos e silêncios pelo meio, os avanços no trabalho de edição. Há envios de ficheiros, reuniões marcadas, esboços de ideias para as capas, pedidos de sinopses, a preparação da Feira de Frankfurt. A 20 de Outubro, Stieg tenta unir as últimas pontas soltas do volume 2: a autorização do pugilista Paolo Roberto (uma figura real que aparece na história); o endereço do casal Dag Svenson/Mia Bergman («ainda não decidi qual é a rua deles, tenho que verificar na zona, para que os automóveis sigam trajectos possíveis»); um telefonema de Blomkvist à irmã que precisa de ser reformulado, para colar com o livro seguinte; a inserção de um mapa verdadeiro (para substituir um provisório, tirado da internet). Oito dias depois, Larsson escreve o seu último e-mail, agradecendo os elogios de Gedin ao terceiro volume. A 9 de Novembro, acontece a fatal escalada até ao sétimo andar.
Nesta correspondência de trabalho, o que mais impressiona é a meticulosidade com que a editora trata os mínimos detalhes do projecto narrativo de Larsson. A 31 de Agosto, por exemplo, Gedin escreve: «Também discutimos o peso de Salander, que para nós deve andar à volta dos 42 quilos. Com esse peso, é-se claramente magra, mas sem parecer doentia. Ainda assim, vou confirmar. Não me importo de ser indiscreta e perguntarei às miúdas franzinas quanto é que elas pesam.» A 2 de Setembro, Larsson dá o seu aval: «Por duas ou três vezes, estive quase a perguntar o peso a raparigas no metro, mas contive-me a tempo. Podia dar mau aspecto. Mas os 42 quilos parecem-me plausíveis.»

[Texto publicado no n.º 76 da revista Ler]

O último teorema de Salander

A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo
Autor: Stieg Larsson
Título original: Flickan Som Lekte Med Elden
Tradução: Mário Dias Correia
Editora: Oceanos
N.º de páginas: 611
ISBN: 978-989-23-0345-1
Ano de publicação: 2008

Em Os Homens que Odeiam as Mulheres, primeiro romance de Stieg Larsson, a figura central é Mikael Blomkvist, um jornalista caído em desgraça que consegue reabilitar o seu nome, e o da revista que dirige (a Millennium, que dá nome à trilogia), ao desmascarar um corrupto (Wennerström), depois de encontrar o paradeiro de uma mulher desaparecida desde 1966. A ajudá-lo em ambos os casos, com a sua quase infinita capacidade dedutiva e de investigação, está Lisbeth Salander, uma hacker sobredotada, toda ela piercings, tatuagens, paranóias e problemas de integração social, a meio caminho entre Lara Croft e a Pipi das Meias Altas.
A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo é justamente Lisbeth e os papéis entretanto inverteram-se: Blomkvist passa para segundo plano, cabendo-lhe agora reunir provas da inocência dela e salvar-lhe a vida, retribuindo o que ela fez por ele no primeiro volume. No centro do vasto enredo está o duplo homicídio de Dag Svensson (jornalista) e Mia Johansson (criminologista), um casal em vias de denunciar uma rede de tráfico humano, responsável por introduzir e explorar, na Suécia, prostitutas dos países de Leste. Quando uma equipa da polícia, chefiada pelo inspector Bublanski, começa a investigar, as suspeitas recaem logo sobre Salander, cujas impressões digitais estão na arma do crime: um Colt 45 Magnum (semelhante ao que foi usado no assassínio de Olof Palme). O facto de o tutor de Lisbeth, Nils Bjurman, também aparecer morto, com um balázio disparado pelo mesmo revólver, complica ainda mais a situação.
Se excluirmos o empenhamento na denúncia dos vários tipos de violência contra as mulheres, bem como do «descalabro» dos sistemas judicial e de acompanhamento psiquiátrico suecos (temas caros ao autor, enquanto repórter da revista Expo), esta história é um thriller que cumpre as regras do género: muito suspense, muitas cenas de acção e um final extraordinariamente inverosímil. O golpe de génio de Larsson é assumir os estereótipos narrativos e dar-lhes a volta, criando com eles um labirinto que o leitor percorre avidamente, mas sem se sentir perdido. E se há segredos (como a identidade de um certo criminoso chamado Zala, por exemplo) que parecem mais inacessíveis do que o último teorema de Fermat, o mais certo é Lisbeth Salander matar dois coelhos de uma cajadada, chegando a Zala no preciso momento em que resolve o mais famoso dos enigmas matemáticos por si mesma (isto é, sem o auxílio dos computadores a que Andrew Wiles recorreu para chegar à sua solução, em 1993).

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 76 da revista Ler]

‘A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo’ (booktrailer)

Eis o filme promocional do segundo volume da trilogia Millennium, de Stieg Larsson:

A editora Oceanos criou ainda uma página para alimentar o hype em torno deste romance, aqui.

Assassinos de colarinho branco

Os Homens que Odeiam as Mulheres
Autor: Stieg Larsson
Editora: Oceanos
N.º de páginas: 539
ISBN: 978-989-2302-37-9
Ano de publicação: 2008

Por muito que se queira isolar a obra de um autor do contexto biográfico, nem sempre o separar das águas é possível. Menos ainda no caso de Stieg Larsson (1954-2004), cuja carreira literária post-mortem potenciou, com a sua aura romanesca, a criação de um fenómeno editorial: primeiro no Norte da Europa, depois um pouco por todo o mundo. Jornalista de investigação, especializado em grupúsculos de extrema-direita e célebre pela denúncia do racismo escandinavo, Larsson começou a dedicar-se à literatura relativamente tarde, a partir de 2001. Escrevia histórias policiais à noite, apenas por prazer, após o trabalho na revista Expo (de que era chefe de redacção). O desprendimento era tanto que só decidiu procurar uma editora quando já tinha os dois primeiros volumes da trilogia «Millennium» completos e o terceiro quase pronto. Mas não chegou a ver nenhum deles impresso, levado por um ataque cardíaco que o transformou num autor póstumo particularmente bem sucedido, cujo património está de resto no centro de uma disputa legal.
O êxito de Larsson, diga-se, é mais do que justificado. Com uma construção narrativa perfeita e um ritmo febril (que cedo transformam a leitura num vício compulsivo), Os Homens que Odeiam as Mulheres lê-se numa penada, apesar das suas mais de 500 páginas. Começa por ser um «mistério-do-quarto-fechado», mas «à escala de uma ilha»: a ilha de Hedeby, reduto do clã Vanger, uma outrora próspera família industrial, agora decadente, ferida por rivalidades e pela sombra de terríveis segredos. Henrik, o patriarca, obcecado com o nunca esclarecido desaparecimento da sobrinha-neta Harriet, em 1966, contrata Mikael Blomkvist para estudar o caso e resolver o enigma, se tal for possível tanto tempo depois.
Blomkvist, jornalista caído em desgraça por ter denunciado, sem provas concludentes, um poderoso escroque da alta finança (Wennerström), alia-se a Lisbeth Salander, uma jovem hacker cheia de tatuagens e problemas de integração social. A dupla funciona às mil maravilhas, resolve o intrincado puzzle dedutivo – em que cada peça corresponde a um crime mais escabroso do que o anterior – e prossegue depois com um não menos exemplar cerco a Wennerström. Castiga-se o mafioso (por entre críticas implícitas à imprensa económica sueca, conivente com os desvarios capitalistas), salva-se do abismo a ameaçada Millennium, revista de que Blomkvist é sócio, e fecha-se com bravura um vasto arco ficcional que aborda ainda, sem falsos moralismos, o problema dos maus-tratos infligidos às mulheres nas sociedades contemporâneas.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 72 da revista Ler]

À atenção dos muitos fãs de Stieg Larsson

O magnífico romance Os Homens que Odeiam as Mulheres, lançado pela Oceanos em Junho, transformou o escritor sueco Stieg Larsson (1954-2004) num autor de culto também em Portugal, onde o livro tem aparecido regularmente nos tops das maiores livrarias. As minuciosas investigações de crimes (tanto de sangue como económicos) levadas a cabo pelo jornalista Mikael Blomkvist e pela hacker Lisbeth Salander chegaram a criar, nalguns leitores, estados de dependência que poderão ser satisfeitos até ao final do ano. Isto porque, se tudo correr bem, a tradução em curso da segunda parte da trilogia “Millennium” estará nas livrarias no final de Novembro.
Em sueco, o título do volume 2 é Flickan som lekte med elden. No Reino Unido ficou The Girl who Played with Fire. Mas eu prefiro de longe a versão francesa: La Fille qui Rêvait d’un Bidon d’Essence et d’une Allumette.

capa inglesacapa francesa

E já agora, para se ter uma ideia da escala planetária do fenómeno Stieg Larsson, eis a capa da edição sul-coreana do primeiro volume:

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges