Ver desaparecer

Agora e na Hora da Nossa Morte
Autora: Susana Moreira Marques
Editora: Tinta da China/Fundação Calouste Gulbenkian
N.º de páginas: 166
ISBN: 978-989-671-134-4
Ano de publicação: 2012

Acontecimento raríssimo: um livro capaz de criar a sua própria forma, inventando de caminho um novo género literário (ou perto disso). A jornalista Susana Moreira Marques acompanhou, entre Junho e Outubro de 2011, o trabalho de uma equipa de cuidados paliativos no Planalto Mirandês, em Trás-os-Montes. Apoiados pela Fundação Gulbenkian, uma médica, enfermeiros e outros profissionais de saúde andaram de aldeia em aldeia, ajudando dezenas de doentes «a passar o final de vida com o maior conforto possível, e a morrer, acompanhados, em casa». O que SMM narra são as histórias desses pacientes e o impacto avassalador das doenças terminais no espaço da intimidade familiar. A violência da morte próxima, pairando em círculo como as águias sobre as escarpas do rio. A partir deste material – dias inteiros de observação directa, horas e horas de conversas gravadas – a jornalista podia ter feito um conjunto de reportagens fortes, mas decerto semelhantes a outras que já vimos e lemos sobre o tema. Felizmente, preferiu fazer outra coisa. Aqui as pessoas guardam o seu nome mas não têm apelido. Quando aparecem, em poses hirtas, nas fotografias de André Cepeda (guardadas para o final do volume), nunca são identificadas. Não há legendas, nem nada que situe as imagens. A explicação é simples: João, Maria, Paula, Sara e Elisa são seres humanos reais, com sofrimentos reais, mas também personagens que se elevam acima das suas circunstâncias e adquirem uma densidade literária. Nada do que vivem e contam é ficção, mas SMM sabe aproximar-se delas com o olhar, a profundidade e a linguagem de um romancista.
O livro abre com uma sequência de «notas de viagem sobre a morte». Não é fácil entrar na noite escura das agonias, das esperas, da preparação para o luto inevitável, mas estes fragmentos falam disso com infinita delicadeza e um recato que é muito mais do que simples pudor. A autora descreve as estradas, os pequenos rituais de sobrevivência nas aldeias quase desertas («de onde desapareceram as crianças»), a paisagem agreste, as suas dúvidas e inquietações («Se não quiseres saber a resposta não faças a pergunta»). Outras vezes isola vinhetas de um quotidiano assombrado pela morte – essa presença implícita que ninguém nomeia – e inventa mecanismos para se proteger de tanta dor: «Manual de sobrevivência: 1 – Parar. Escutar o bater do coração. Olhar os cerejais selvagens carregados de fruto.» Com definições de dicionário explica, por exemplo, o que é a «conspiração do silêncio» ou a «boa morte». A mesa e as cadeiras de uma sala de jantar, «embrulhadas em plástico», contam só por si o que se passa. A «solidão sobre a terra» surge inteira numa piscina vazia, vista da janela. E há frases que podiam ser versos: «Uma ilha, mas em vez de mar, terra.» SMM escreve «contra as imagens acumuladas», tanto na cabeça como nos cadernos manuscritos, e talvez por isso as palavras aparecem tão nítidas, tão exactas: «Querem apenas um pouco mais de vida, querem um pouco mais de tempo para acreditar que o corpo vence; todos querem, com uma força desproporcionada, talvez delirante, continuar de olhos abertos.»
Na segunda parte do livro, oferece-nos «retratos», casos concretos. E a estrutura volta a ser inesperada, original. Primeiro, SMM entra pé ante pé no dia-a-dia familiar, ganha confiança, habitua-se e habitua-nos àquelas pessoas, participa em almoços de domingo, regressa mais tarde para as vindimas, ouve com a atenção minuciosa de quem sabe que o desaparecimento futuro já se instalou dentro da casa. O «retrato» nasce assim, imperfeito, quase de viés, para depois ser completado pela viva voz das figuras retratadas, um discurso directo (em itálico) tão em bruto que nos esmaga com a sua verdade. Há quem recuse teimosamente a derrota; há quem se sente no alpendre, ao crepúsculo, recordando a vida em Angola; há quem ajuste contas com a memória de um pai muito amado, sentindo que «ele está dentro de mim». São outros de que SMM se apropria através da escrita – e só da escrita. Porque «os outros somos nós».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Há coisas sobre as quais não se pode escrever como sempre se escreveu. Algo muda. Primeiro os olhos, depois o coração – ou os nervos ou aquilo a que os antigos chamavam alma – e finalmente, as mãos.

***

As primeiras notas que tiro são sobre um homem que nasceu, cresceu, trabalhou, casou, teve uma filha, envelheceu e morreu na mesma aldeia. Na verdade, as notas não são sobre o homem ou sobre a sua vida mas sobre a sua morte. Assim:
A vida da casa e da família acontece toda nesta sala térrea, fresca e escura de uma maneira agradável, com uma grande mesa, um escanho – o típico banco corrido de madeira de Trás-os-Montes –, um fogão e uma porta para o armazém onde se guardam os produtos da terra.
Era Abril, a lareira não estava acesa, mas era junto da lareira que o homem costumava contar histórias, e contou nessa noite, subitamente animado. Despediu-se da família – a filha e a neta tinham vindo da cidade –, disse-lhes boa-noite. À mulher com quem esteve casado sessenta anos disse que não se esquecesse de tomar os medicamentos.
A aldeia onde o homem nasceu, cresceu, trabalhou, casou, teve uma filha, envelheceu e morreu é bonita, com as suas casas de pedra recuperadas e um belo cruzeiro talhado. É bem arranjada, limpa. Está quieta, muito vazia. Parece um museu.
A viúva, com o seu lenço preto e o rosto fechado, move-se devagar, curvada pela artrose. Anda pelas ruas como uma sombra. Ela sabe que vive no fim de uma época, de um modo de vida. Quando nos formos todos, diz, querendo dizer os velhos, as sombras, lentamente as casas, desertas, caem, e não haverá mais aldeia.»

[in Agora e na Hora da Nossa Morte, de Susana Moreira Marques, Tinta da China, 2012]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges