Sintomas de poema

Uma Prática para Desconserto
Autora: Sylvia Beirute
Editora: 4Águas
N.º de páginas: 68
ISBN: 978-989-97401-0-5
Ano de publicação: 2011

Sylvia Beirute é uma poeta algarvia de 26 anos que foi revelando o seu trabalho inédito no blogue Uma Casa em Beirute e se estreia em livro com Uma Prática para Desconserto. Os poemas desta autora, quando lidos isoladamente no ecrã, surpreendiam pela força expressiva e um certo desassombro (havia neles a espontaneidade de quem não escreve com um fim à vista), mas grande parte desse efeito perde-se na passagem para o papel. Há poemas que se anulam uns aos outros, ou que vêem subitamente expostas as suas fragilidades – vítimas talvez da luz mais crua da página branca.
Logo a abrir, um «Aviso» compara a poesia a uma doença contagiosa: «se tiver sintomas de poema, aguente». A distância de segurança, porém, nunca é respeitada e a contaminação acontece, trazendo consigo a marca da recusa: «não tenho maneiras puramente estéticas. / não tenho processos literários. / (…) não recuperei emoções com a cabeça. / não coloquei questões delicadas no campo da poesia suprema». A autora propõe-se então escrever a partir de um grau zero, de uma imaginária Beirute em ruínas, onde «o sujeito só deve representar / o que sente».
O resultado é desigual. Quando acompanha «movimentos em colapso», a linguagem torna-se uma máquina voraz, caótica e intuitiva. Mas isto acontece poucas vezes. Na maior parte dos casos, Sylvia Beirute perde-se em metafísicas abstractas, a raiar o pretensioso, e deixa-se cair nas armadilhas da escrita automática (geradora de versos catastróficos, como «a cármica sede / que desflora uma cor difusa»). Se «escrever poemas é errar», falta agora errar de novo e melhor, como diria Beckett.

Avaliação: 4,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Quatro poemas de Sylvia Beirute

CONOSCENZA

{o teu reconhecimento é a tua dependência},
não o deixes passar da fase da costura.
surge. insurge. inespera.
adquire expressões através do
eco difuso dos vegetais, coloca-te
nas ranhuras da madeira.
há uma vida imprópria algures.
pode não ser como aquela que espera
na plumagem de uma memória
por antecipação, mas protege o silêncio
e não deixa coagular o sangue.
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
e quanto mais o memorizares
mais afastado estarás
dos lados obtusos de quem te deseja habitar
e da semêntica temporal
das pessoas que te pedirão um
poema bonito,
e nada pior do que escrever
um poema bonito.

***

DIA DOS NAMORADOS

o amor
passou-se no tempo em que não havia medo.
não havia paredes subidas.
as manhãs eram remotas como rosas.
os ontens uma mitologia condigna.
a pátria era tão labiríntica quanto uma lágrima.
tão imprevisível quanto o ofício de um deus.
o amor passou-se no tempo em que ainda não tinha nome,
em que os segundos eram uma espécie de sangue,
e a tarde podia ser uma só palavra
na órbita de uma outra palavra.
o amor passou-se neste poema para pessoas sós,
passou-se como mera reprodução de um tempo
em que não havia corpos, logo
corações distantes.
mas ainda assim o amor existe: mesmo sendo
um ontem, mesmo sendo uma lágrima,
mesmo sendo uma rosa esquecida
num quarto azul.

***

LEITURA EXPLÍCITA

{talvez um dia regresse à voz do leitor.}
o leitor morre mais depressa que o poeta.
quero os meus poemas a morrerem
daqui a cem anos
no último fio de voz do primeiro leitor imediato
e numa altura em que todos os livros
subirão aos céus.
não quero o prazer de haver sido distante
num tempo distante. quero o prazer
de ser imediata e soberba
num tempo imediato e arrogante.
quero manufacturar tudo o quanto de pescoço há
na representação.
porque o tempo futuro é um encolher de ombros,
e nos meus poemas as razões se limitam
a retirar razões a outras razões.

***

POEMA SIMPLES

escreve um poema muito simples
com ideias vagas, artefactos visuais,
e o azulecer de um castigo pendente,
um poema indietrónico e
sem dissecação possível
onde colocas, por fim, um intensificador
como aquele que deus usou
no começo do mundo.
um dia perguntar-te-ão de que
trata o teu poema,
e para explicares isso ao mundo – um mundo,
digamos, impessoal porque com excesso de gente –
escreverás um outro de alguns versos
encadeados como gotas de água
ou lágrimas da mesma substância.
aí, dirás que escrever poemas é errar
e que interpretar é a mais bela forma de erro.

[in Uma Prática para Desconserto, 4 Águas, 2011]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges