O peso dos livros

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Jogos Radicais
Autora: Teresa M.G. Jardim
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 45
ISBN: 978-972-37-1500-2
Ano de publicação: 2010

Nas primeiras páginas deste interessante livro de estreia, a autora, Teresa M.G. Jardim, surge numa sequência de três fotografias quase iguais. Na paisagem íngreme, uma mulher avança por entre as ervas altas, segurando uma pilha de livros no ombro esquerdo. São imagens fortes que substituem o prefácio que não há e a inexistente nota biográfica. De Teresa Jardim, o livro só nos revela isto: é uma mulher que atravessa a paisagem sob o peso dos livros. E basta. Até porque, ao entrarmos nos poemas propriamente ditos, esse peso da literatura sente-se em cada verso. Há mesmo um alerta explícito quanto aos seus riscos no poema Acto de ler:

O acto de ler reabre feridas. Nos livros
em que isso acontece, com frequência,
poderia ao menos haver um aviso na capa;
assim como se faz com as carteiras de tabaco,
embora se saiba que poucos deixam
de fumar
por isso.

Esta é uma poesia que assume a passagem do tempo e as «rugas de expressão», é uma poesia que se mostra atenta aos mínimos detalhes, às cenas do quotidiano, aos «bichos pequenos» e aos objectos domésticos (a cadeira, a cama, o televisor). Teresa Jardim domina bem as «estratégias da escrita», sabe ser elíptica e irónica, mas por vezes perde-se em jogos verbais demasiado fáceis ou demasiado crípticos, em que as imagens se sucedem mas não levam a lado nenhum. Além disso, nem sempre se mostra capaz de manter, ao longo do poema, a tensão criada pelos seus versos mais conseguidos. Versos como este: «No céu da boca a língua cola bocados de céu». Ou como estes:

«(…) Gosto da maior parte das tarefas domésticas
Lavar a louça não me custa. Afiar uma faca
é simples; tenho mais medo da memória.

A memória pode avariar inesperadamente (…)»

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Quatro poemas de Teresa M.G. Jardim

NA MINHA IDADE

Vivo ilegalmente
na minha idade: falhei alguns aniversários.
Caminhei até onde o medo permitiu,
à beira das levadas de rega.

O meu primeiro amor foi um gafanhoto
verde, depois outros bichos pequenos.

Nunca me apaixonei no cinema
como as outras raparigas: apaixonei-me
pelo cinema.

***

TELEVISÃO

A televisão é uma fotografia de guerra
que mexe. É um beijo mais largo que a minha cabeça.
É uma caixa de sabão que não se cansa de lavar mais branco.
E faz muita companhia, a mim, aos livros, ao cão.

O arroz está mais caro. A água e a luz também.
Eu estou mais gorda e não passou na televisão:
a minha televisão é sensível, preocupa-se comigo,
é como se fosse uma pessoa; melhor
que as pessoas amigas que me contam as rugas
e os cabelos brancos, resmungam
por tudo e por nada, e calçariam luvas
para apanhar do chão um livro
ou mesmo o meu coração se caísse.

***

PÃO PARA A BOCA

Livros
e doce de amoras – o teu pão
para a boca,
não é o meu:
o meu pão é seco,
soco,
na cara
as palavras
escritas, um pouco antes.

***

POEMA KITSCH

O meu gato é branco e bonito como louça.
Nos dias solarengos rebola-se até adormecer
pesado de terra e pequenas sombras. De resto
é quase sempre branco, o meu gato deitado
glamorosamente sobre o tapete.

Escrevo a propósito do meu gato branco como
louça kitsch: afago entre as mãos um poema de louça.

[in Jogos Radicais, Assírio & Alvim, 2010]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges