Cinco poemas de Tiago Gomes

DIRTY REALISM

Todos os dias
Todos os dias
Todos os dias
Todos os dias
O último de todos os dias.
Luta livre.
Arrumar o dia.
As mochilas dos miúdos
o jantar e a Tv.
Todos arrumados
com socos na barriga.

***

Rasurar a razão.
Jogá-la ao ar
Atirá-la contra a parede
Bater-lhe. Perdoar-lhe
Reflectir sobre ela
Aplicá-la

***

APRENDERÁS COM A MORTE

Daqui de cima consigo ver
que o quintal das traseiras
está cheio de gatos pretos
à noite a morte também é parda.

Que o dissessem aqueles dois
o da faca e o da pistola
e o peito rasgado do insubmisso
(como anda cruel o mundo).

Afinal o outro, o da pistola
quis pôr fim a um tormento
por viver só. E mais não disse
começou a chorar sem perceber

o amigo morto.

***

PUB

Mãos vazias
fogo cruzado
remoinho urbano
suor frio
dor e destroço
parte-se a coluna cervical
ao tentar passar a meta
pub. Teleflash. Perfume da flor decadente do hash.
Acordo e oiço o boletim metafísico
que anuncia para hoje
zona de altas depressões.

***

SAÍDA DAS FÁBRICAS

Lá vamos os dois
com a multidão
ao cair da tarde
saindo das fábricas
a caminho de casa
até ao fim do nosso pedaço de terra
onde começa o abismo
que nos corrói a pele.

[in Auto-ajuda, Mariposa Azual, 2009]

Lembrete

cartaz da homenagem a Kerouack

Os 50 anos de On the Road, de Jack Kerouac, são evocados logo à noite, a partir das 23h30, no Maxime (Lisboa). Tiago Gomes, director da revista Bíblia, lê excertos. Tó Trips, músico dos Dead Combo, improvisa à guitarra.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges