Horror e guloseimas

O Autor
Autor: Tim Crouch
Título original: The Author
Tradução: Francisco Frazão
Editora: Livrinhos de Teatro (Cotovia/Artistas Unidos/Culturgest)
N.º de páginas: 57
ISBN: 978-972-8972-39-4
Ano de publicação: 2010

Nesta peça de Tim Crouch, apresentada em Lisboa, na Culturgest, a 23, 24
e 25 de Novembro, não há palco. Ou melhor, o palco são as duas bancadas do público, dispostas frente a frente. O palco é o próprio público, de onde emergem, aos poucos, as quatro personagens: Chris, um espectador obsessivo; Vic e Esther, dois actores; e um dramaturgo chamado Tim Crouch. Pouco a pouco, vão contando a história de um outro espectáculo, uma peça brutal sobre um pai que abusa da filha, em cenário de guerra, história terrível de que ainda não se libertaram.
Estamos então nas entranhas do teatro, das suas estratégias e mecanismos. «A arte funciona no limite”, diz Tim. E é esse limite que vai sendo explorado, à medida que os actores descrevem o modo como se prepararam para a outra peça, entrevistando uma vítima ou expondo-se voluntariamente a imagens de absurda violência (estupros, decapitações). Os espectadores reais são interpelados, desafiados a participar no processo teatral em curso, enquanto lhes vai sendo oferecido, alternadamente, horror e guloseimas (Maltesers).
A Crouch interessa reflectir «sobre o que acontece quando vives com (…) violência à volta o tempo todo» e o modo como ainda somos capazes, ou não, de reagir ao espectáculo da ignomínia (hoje à distância de um clique no computador). O jogo é negro, ambíguo, sem a luz forte das certezas morais. E o «autor» leva-o às últimas consequências, num monólogo final em que se expõe totalmente, aviltando-se numa derradeira provocação ao público: «Vocês, de qualquer modo, não me vão perdoar. Eu conheço-vos. Olhem para vocês. Não vão. Não me vão perdoar.» Depois desaparece, mas o peso fica todo no lado de cá.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Cena 3

«O HIPNOTIZADOR e o PAI estão de pé lado a lado. Lêem os dois de papéis na mão.

HIPNOTIZADOR Aquele fim de tarde. Crepúsculo.

PAI Aquele fim de tarde.
Ver a Claire a sair — o walkman ligado, as pautas enfiadas num saco. Cinco minutos a pé para a lição.

HIPNOTIZADOR O meu percurso era este. Uma festa de alguém que fazia 50 anos num pavilhão desportivo. Tive de telefonar a desmarcar. Disse que tinha havido um acidente, não dei pormenores.

PAI Aquela noite. Aquela noite tem uma cor, uma sensação ao tacto e um som. A Dawn tinha voltado. Esperámos pela Claire para jantar. A Marcy estava a ver os Simpsons.
Azul. Esperámos para jantar em azul. Tocámo-nos ao de leve em cinzento-ardósia. Olhámos para os relógios em amarelo.

HIPNOTIZADOR Eu estava a conduzir um Renault Laguna Estate. 1,6 Litros. Bom carro. Bons travões. ABS. Airbags. Lá atrás, colunas, mesa de som, microfones, figurinos. Tinha os faróis ligados. Novembro.

PAI Roxo. As nossas pulsações aceleraram em roxo. Telefonámos à professora de piano em castanho. Ficámos com um nó no estômago em verde. O polícia avançou pelo carreiro em cinzento. Vimo-lo da janela em cor-de-laranja. Tirou o chapéu em dourado. Branco. Os joelhos da Dawn cederam em branco.

HIPNOTIZADOR Este é o ponto no mapa. Esta é a referência na grelha do Instituto Geográfico. Esta é a curva na estrada. Estas são as folhas junto ao passeio.

PAI A morte. A morte entrou para o hall. Pôs o capacete no banco do piano, falou connosco em prateado. Proferiu depois dois blocos de cimento em preto e deixou-os pendurados na minha caixa torácica, a fazerem-me pressão nos pulmões. Ainda hoje lá estão. Há pouco tempo perguntei à Dawn se ela achava que eu devia ir ao médico e marcar uma operação para os tirar. “Onde é que está o meu homem?” gritou ela. “Para onde é que foi o meu marido, foda-se?”

HIPNOTIZADOR Estas são as linhas amarelas, as linhas brancas. Esta é a qualidade da luz. Esta é a árvore junto à berma. Esta é a vista do Norte. Esta é a vista do Sul. Esta é a minha mão, que vai buscar um cigarro. Por um segundo. Um segundo a 57, 58, 59, 60. Vinte metros. Ao crepúsculo. Esta é a rapariga. O walkman ligado. Música de piano. A caminho da lição.

Ouve-se o Bach, depois pára.

Ouve-se o Bach. O HIPNOTIZADOR fornece as seguintes instruções ao PAI:

“Fantástico. Excelente. Vem para aqui. Vamos voltar àquele momento em que eu estava de joelhos e continuamos a partir daí. Vou buscar mais um bocadinho de texto.”

O HIPNOTIZADOR vai buscar o texto apropriado.

“Agora trabalhamos juntos. Representamos juntos. Começamos quando a música parar.”

Continua a ouvir-se o Bach.

[Terceira cena de Um Carvalho, de Tim Crouch, editada juntamente com INGLATERRA, uma peça para galerias, do mesmo autor, na colecção Livrinhos de Teatro (Cotovia/Artistas Unidos). Textos traduzidos por Francisco Frazão.]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges