O avião de Beethoven

«HENRY
(…) Não sei se já pensaste nisso, mas é curioso como tantos dos maiores de sempre começavam com B: Beethoven, Buddy Holly…

ANNIE
É só isso que têm em comum.

HENRY
Eu não diria isso. Estão ambos mortos. O Buddy Holly morreu no mesmo acidente de avião que matou o Richie Valens, sabias?

ANNIE
Não, não sabia. Desististe da peça ou quê?

HENRY
O Buddy Holly tinha vinte e dois anos. Pensa no que ele poderia ter feito. Se o Beethoven tivesse morrido num acidente de avião aos vinte e dois, a história da música teria sido muito diferente. E a história da aviação também.

[in Agora a Sério, de Tom Stoppard, versão de Pedro Mexia, Tinta da China, 2010]

A ideia de escritor

«HENRY
Ele está no comboio.
“És um rapaz estranho, Billy. Que idade tens?”
“Vinte. Mas já vivi mais do que alguma vez viverás.”
Queres que leia alto?

ANNIE
Se quiseres.

HENRY
Vou voltar um bocado atrás. À cena em que eles se encontram, está bem?
[ANNIE diz que sim com a cabeça. HENRY imita um comboio. Ela fica na defensiva, sem ter a certeza se ele está a ser sarcástico.
Ele lê.
]
“Este lugar está vago?”
“Sim.”
“Dá-me licença?”
“É um país livre.”
“[Ele senta-se em frente dela, Mary continua a ler o livro.]”
“Vai para longe?”
“Para Londres.”
“Então, estava a dizer, acha que somos um país livre?”
“Você não acha?”
“É assim, somos livres para fazermos o que nos mandam. O meu nome é Bill, já agora. E o seu?”
“Mary.”
“Prazer em conhecê-la, Mary.”
“Prazer, Bill.”
“Sabe a que horas é que o comboio chega a Londres?”
“Por volta da uma e meia, acho, se chegar a horas.”
“Mary, você faz-me lembrar o Mussolini. Sim, é muito parecida com ele. Tem os mesmos olhos verdes.”

ANNIE
Se não vais ler a sério não te incomodes.

HENRY
Desculpa.
“Por volta da uma e meia, acho, se chegar a horas.”
“Mary, você faz-me lembrar o Mussolini. As pessoas diziam do Mussolini: ele pode ser fascista mas ao menos os comboios chegam a horas. Faz-nos pensar porque é que os comboios ingleses não chegam a horas, não é?”
“Como assim?”
“Quer dizer, tem graça, os fascistas estão no poder mas os comboios continuam atrasados.”
“Mas isto não é um país fascista.”
“Tem a certeza, Mary? Olhe o exército.”
Tu não vais fazer isto, pois não?

ANNIE
Porque não?

HENRY
Porque não presta.

ANNIE
Queres dizer que não é literatura.

HENRY
Não é literatura e não presta. Ele não sabe escrever.

ANNIE
És um snob.

HENRY
Eu sou um snob e ele não sabe escrever.

ANNIE
Eu sei que é cru, mas ele tem coisas a dizer.

HENRY
Ele tem coisas a dizer. Acontece que são coisas extremamente patetas e preconceituosas. Mas tirando isso há ainda um problema: ele não sabe escrever. Sabe incendiar coisas, mas não sabe escrever.

ANNIE
Dá cá. Não te devia ter pedido.

HENRY
Por amor de Deus, Annie. Se não fosse pelo Brook nunca farias isto.

ANNIE
Mas é pelo Brook, aí é que está. Há dois anos e meio ele nem conseguia juntar seis palavras.

HENRY
Ainda não consegue.

ANNIE
Idiota.

HENRY
Eu sou um idiota e ele não sabe…

ANNIE
Olha que levas. Tu é que és preconceituoso. És preconceituoso quanto ao que é literatura. Julgas tudo como se toda a gente partisse da mesma posição e tivesse os mesmos objectivos. Shakespeare vai à frente por mais de uma milha e o resto do pelotão tenta com todas as forças alcançá-lo. Vocês escrevem todos para pessoas que gostavam de escrever como vocês, se soubessem escrever. Bem, que se fodam. E que se foda o Shakespeare.

HENRY
Ok.

ANNIE
O Brook não escreve para competir contigo. Escreve para ser ouvido.

HENRY
Ok.

ANNIE
E fez tudo sozinho.

HENRY
Sim, sim. Vê-se que leu muito.

ANNIE
Não podes esperar que seja Shakespeare.

HENRY
Não.

ANNIE
Ele é um prisioneiro que grita através das grades.

HENRY
Pois, sim. Estou a ver.

ANNIE
Cala-te. Não suporto que concordes comigo só para me agradares. Prefiro o sarcasmo.

HENRY
Porquê uma peça? Foste tu que o sugeriste?

ANNIE
Não exactamente.

HENRY
Porque é que fizeste isso?

ANNIE
O comité, o que resta do comité pensou… Quer dizer, as pessoas cansaram-se do Brook. As pessoas cansam-se de tudo, depois de dois ou três anos. A campanha precisa…

HENRY
De uma injecção?

ANNIE
Não, precisa de…

HENRY
De um pontapé?

ANNIE
[Explode.] Que raio. Pára com isso de acabar as minhas frases.

HENRY
Desculpa.

ANNIE
Já não sei o que ia a dizer.

HENRY
A campanha precisa…

ANNIE
É difícil ignorar um escritor. E pensei, as peças de televisão são discutidas, têm algum impacto. Talvez reabra o processo. Achas que é possível? A sério, Henry, o que é que achas?

HENRY
Acho que faz todo o sentido.

ANNIE
Não. O que é que achas mesmo?

HENRY
Ah, o que acho mesmo? Bem, o que acho mesmo é que escrever peças péssimas não é, em si mesmo, uma prova de reabilitação. E, ainda menos, prova de uma condenação injusta. Mas mesmo que fosse, acho que quem se cansou do Brook se vai entediar de morte com esta defesa. Se é que alguém vai aguentar, porque tem metade do tamanho do Das Kapital e o dobro da graça. Acho que devias saber isto.

ANNIE
És um arrogante de merda.

HENRY
Dizes demasiadas asneiras.

ANNIE
O Roger quer fazer o filme, em princípio.

HENRY
Qual Roger? Ah, o Roger. Porque é que o Roger quer fazer isso?

ANNIE
Ele está no comité. Isto só precisa de um pouco de trabalho.

HENRY
Vocês são uns vigaristas.

ANNIE
Estás com ciúmes?

HENRY
Do Brook?

ANNIE
Estás com ciúmes da ideia de escritor. Queres que continue sagrada, especial, e não uma coisa que toda a gente pode fazer. Alguns de nós têm esse dom, outros não têm. Nós escrevemos, vocês são o nosso tema. O que te irrita no Brook é que ele não conhece o seu lugar. Tu dizes que ele não sabe escrever como um porteiro de um restaurante que diz que não se pode entrar sem gravata. Porque ele não sabe juntar palavras. O que é que tem de especial saber juntar palavras?

HENRY
É tradicionalmente considerada uma vantagem para um escritor.

ANNIE
Ele não é um escritor, é um prisioneiro. Tu és um escritor. Escreves porque és um escritor. Quando escreves acerca de uma coisa tens de inventar alguma coisa sobre aquilo que escreves porque tens de continuar a escrever. Mais palavras escolhidas que ficam bem juntas. E depois? Porque é que tem de ser isso? Quem é que disse que é assim?

HENRY
Ninguém disse, mas funciona melhor.

[in Agora a Sério, de Tom Stoppard, versão de Pedro Mexia, Tinta da China, 2010]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges