Teia de desencontros

Uma História de Amor no Casal da Eira Branca
Autor: Tomás Vasques
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 31
ISBN: 978-989-97448-4-4
Ano de publicação: 2011

Talvez se trate de mera coincidência, mas não deixa de ser curioso que dois dos primeiros livros lançados pela nova editora Abysmo comecem no mesmo lugar: o lisboeta Pavilhão Chinês, ali para os lados do Príncipe Real. Tal como em O Branco das Sombras Chinesas, «folhetim» escrito a «meelas» por João Paulo Cotrim e António Cabrita no início do século (e agora recuperado às «traças da memória»), o protagonista de Uma História de Amor no Casal da Eira Branca, de Tomás Vasques, também inicia a sua jornada à mesa do referido bar. A diferença é que a «noveleta» de Cotrim/Cabrita logo nos lança numa vertigem sem freio, espiral que nasce de uma orelha cortada e de uma história sombria cheia de derivas, enquanto a brevíssima narrativa de Vasques avança com a placidez serena de quem não tem muito para contar.
Na verdade, o enredo é quase inexistente, limitando-se a mais uma variação sobre a fatídica crise da meia-idade. Após 20 anos de casamento com Joana (uma «ortodoxa comunista»), António farta-se das rotinas, da erosão conjugal e da «labiríntica teia de desencontros», apaixonando-se por Maria, uma mulher muito mais nova. Diante do dilema clássico, reage com aquela cobardia tipicamente masculina («Não estava preparado para abandonar a Joana e os seus dois filhos»), para logo depois receber irónico tiro de ricochete, que precipita um pequeno drama existencial, seguido de happy end em apogeu amoroso.
Resumindo, a história nada tem de novo. O problema é que a escrita – muito seca e explicativa – também não. Falta-lhe rasgo. Salvam-se as belas ilustrações de Susa Monteiro e um apuro gráfico que já se vai tornando a imagem de marca da Abysmo.

Avaliação: 4,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«O meu amigo António – aquele que, em miúdo, com dez ou doze anos, ficava horas a fio, num descampado, de saco na mão, à espera dos gambozinos: um homem bom, incapaz de matar uma mosca ou de maltratar um gato – quarenta e quatro anos, figura esguia, uma farta cabeleira a esbranquiçar, uns óculos de aros redondos, o que lhe dava um ar de “intelectual de esquerda”, imagem que cultivava com requintado deleite, estava sentado a uma mesa, no Pavilhão Chinês, numa madrugada de sábado para domingo, a matutar à volta de uma cerveja, enquanto ia coçando a barba crescida mas bem aparada.
António tinha a cabeça num rodopio. O cansaço dilatava a vertigem em que se afundara na última meia hora, o que lhe dava um ar esgazeado. Refugiara-se ali para pensar, mas ainda não conseguira sair do vazio que o esfarrapava. Fixou o olhar na pintura do tecto: observou o soldado soviético, no seu uniforme cinzento, a espingarda a tiracolo, a subir a escadaria do Palácio de Inverno, numa tarde de Outubro. O soldado soviético e o Palácio de Inverno avivaram-lhe a memória dos muitos anos passados com a Joana, com quem viveu até há trinta minutos, talvez por ela continuar uma ortodoxa comunista.»

[in Uma História de Amor no Casal da Eira Branca, de Tomás Vasques, Abysmo, 2011]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges