Resgate
Na caixa de comentários do post em que traduzi um poema sobre tradução, um leitor respondeu colocando a sua versão portuguesa de um poema polaco sobre a tradução de poesia.
Uma vez que esse leitor/tradutor (e poeta) se chama Jorge Sousa Braga, não resisto a resgatar o seu contributo das catacumbas do blogue, a que nem sempre toda a gente desce:
SOBRE A TRADUÇÃO DE POESIA
Zbigniew Herbert
Como um abelhão desajeitado
pousa numa flor
vergando o frágil caule
abre caminho com os cotovelos
através duma fileira de pétalas
através das folhas de um dicionário
quer chegar
onde se concentram a fragrância e a doçura
e embora esteja constipado
e sem gosto
continua a tentar
até que a cabeça choca
contra o pistilo amareloe não consegue ir mais longe
é tão duro
forçar a coroa
até chegar à raiz
por isso levanta voo
emerge pavoneando-se
zumbindo:
eu estive lá
e aqueles
que não acreditam nisso
olhem para o seu nariz
amarelo de pólen
Traduzir um poema sobre tradução
No último número da Harvard Review (#33, Inverno 2007), deparei-me com um poema de John Mateer (sul-africano de nascimento, a viver na Austrália) intitulado Translators Are Angels.
Transcrevo-o aqui:
Translators are angels, I whispered
into the ear of my guardian angel in King João Library.
They stand beside us, hearing out thoughts,
only muttering what’s necessary. Smiling slightly,
listening carefully to the speaker who’d mentioned my name,
she said: We are perfect nobodies; nameless,
voiceless, winged incandescence, except when we’re bad.
Then she turned to me: Like now, if I don’t tell you what he said —
Mal acabei de ler o poema, senti logo vontade de o traduzir. Em primeiro lugar, porque é um poema sobre a tradução e os seus equilíbrios precários, escrito em inglês, logo sujeitável à tradução que tão etereamente evoca. Depois, porque tudo indica que a língua incompreensível para o poeta seja o português, como se depreende pela referência à biblioteca do “King João”, que só pode ser a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra (mandada construir em 1717 por D. João V).
Traduzir para português o poema equivale de certo modo a fechar o círculo. E foi isso que fiz, embora sem asas nas costas:
Os tradutores são anjos, segredei
ao meu anjo da guarda na Biblioteca Joanina.
Ficam junto a nós, ouvindo o que pensamos,
apenas murmurando o essencial. Com um pequeno sorriso,
enquanto escutava atentamente o orador que referiu o meu nome,
ela disse: Somos perfeitos desconhecidos; anónimos,
sem voz, uma incandescência alada, excepto quando somos maus.
Virou-se para mim: Como agora, se não revelar o que ele disse —


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