A árvore generosa e o duo maravilha

Daqui a nada (16h00), na livraria Trama, é apresentado o livro A Árvore Generosa, de Shel Silverstein, por Miguel Gouveia, o editora da Bruaá. Eis o convite com a informação toda:

convite árvore
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Ide, caros leitores, ide e disfrutai. Depois espreitem os livros, surpreendam-se com algumas raridades bibliográficas, saiam para comer qualquer coisa ao fim da tarde e regressem por volta das nove da noite, porque a essa hora o Pedro e a Diana estarão decerto a montar o PA no andar de cima. Sobre o Pedro e a Diana haveria muito a dizer mas não digo (ou talvez diga noutra altura). Por agora, basta lembrar que em torno deste fenómeno de cultura urbana desalinhada já cresce um culto que não sei bem onde vai parar. Confiram com os vossos olhos e ouvidos a partir das 21h30, na mesmíssima livraria Trema, como se explica aqui em baixo:

poster Pedro/Diana
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Depois não digam que eu não avisei.

Livraria Trama

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A mais ou menos 500 metros contados em linha recta, fica a Byblos, com os seus milhares de volumes com RFID (sensores de radiofrequência), mais os ecrãs tácteis, os plasmas, as pilhas de bestsellers, as escadas rolantes, a estante robotizada made in Italy e dezenas de funcionários. A única coisa que a Trama, junto ao Rato, e a Byblos, nas Amoreiras, têm em comum é o facto de venderem livros e ocuparem dois pisos. Tudo o resto as separa, a começar no conceito e a terminar nas respectivas áreas: 140 metros quadrados versus 3300.

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Sentada numa das cadeiras do andar de cima, junto ao janelão que enche de luz a parte nobre da Trama (o rés-do-chão fica para as novidades, os jornais e a caixa), Catarina Barros, 23 anos, encolhe os ombros e diz que a sombra do gigante não a incomoda: “Eles são um monstro, nós somos uma livraria de bairro.” A seu lado, Ricardo Ribeiro, 28 anos, sócio de Catarina nesta aventura, faz que sim com a cabeça: “Trabalhamos para públicos diferentes, o sucesso deles não nos afecta.”
Os dois amigos conheceram-se atrás do balcão da livraria Clepsidra, em Massamá, onde começaram a alimentar o sonho de qualquer livreiro: ter o seu próprio espaço e a liberdade de “seleccionar o que sugerimos aos clientes”.
Após um frustrante estágio numa empresa farmacêutica, Catarina, que deixou o curso de Literatura Portuguesa a meio e andava à procura de um rumo, foi beber um café com o antigo colega. “Gostava de abrir uma livraria”, disse-lhe em tom de desafio. E Ricardo aceitou o repto, ou não tivesse há uns tempos a mesma ideia na cabeça.
Aconteceu isto há seis meses e o objectivo da dupla era abrir a Trama — “um nome com muitos significados diferentes e que soa bem” — lá para Outubro de 2008. Só que certas coisas, quando se põem em marcha, ninguém as pára. Depois de umas semanas “a comprar o Ocasião às quintas”, descobriram o sítio ideal e criaram “tudo de raiz”, da organização do espaço ao desenho, construção e montagem dos móveis (o pai de Ricardo tem uma marcenaria). Resultado: a 30 de Novembro de 2007, quase um ano antes do previsto, a Trama abriu as portas.

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“Isto é para clientes parecidos connosco”, diz Catarina. Leitores amantes de raridades e edições esgotadas, que discutem os livros “e puxam por nós”. Bibliófilos que choram ao encontrar uma primeira edição de O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil (Livros do Brasil), ou que obrigam os livreiros a um verdadeiro trabalho de book hunting. “Por exemplo, houve um cliente que apareceu aqui à procura de um livro sobre a arqueologia dos bunkers, porque não o encontrava em lado nenhum, e eu vou tentar descobrir-lhe um exemplar”, diz Ricardo.
Apesar de inaugurada há pouco mais de um mês, a Trama já tem os seus fiéis. “Há caras que se repetem nos concertos de quinta à noite”, garante Catarina. E o mesmo deverá acontecer nos futuros leilões mensais de livros, com primeiras edições de Herberto Helder, Ramos Rosa e outros, prevê Ricardo.

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O alfarrábio e os fundos de catálogo prometem ser, de resto, um dos principais atractivos desta livraria que tem um canto (foto acima) só com volumes de páginas amarelecidas e grafismo dos anos 70, muita coisa dos beatnicks e plaquetes de poetas hoje famosos, editadas no tempo em que eram apenas obscuros.
Aos dois fundadores juntou-se um terceiro elemento, a Joana, depois de um processo épico de candidaturas e entrevistas de emprego (amplamente documentado no blogue), durante o qual Catarina desempenhou o mais ingrato dos papéis: o de recusar pessoas que demonstravam enorme vontade e excelentes currículos. “Uma delas, que ficou tristíssima por não ter sido escolhida, ofereceu-se ainda assim para nos ajudar a arrumar as coisas no dia da abertura.”
Para Ricardo, a Trama é muito mais do que o lugar onde trabalha 10 a 12 horas por dia. “É a nossa casa, um sítio onde fazemos aquilo de que mais gostamos e recebemos os amigos.” Para Catarina, “mãe babada”, à livraria só falta uma coisa: a pátina que vem com o tempo. “Espero um dia ver as paredes cheias de cartazes e memórias do que se for fazendo aqui.”

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Joana, Ricardo e Catarina

Além dos concertos de quinta, haverá performances, dança e conversas com autores nas noites de sexta e actividades destinadas ao público infantil nas tardes de sábado. Tudo no piso de cima, junto a um pequeno bar que serve os vários tipos de café Nespresso, mas com outros nomes: “A cápsula amarela vai chamar-se Calvino, o lote mais forte será o Nietzsche, ao Roma vamos chamar-lhe Pascal Quignard e aos descafeinados…, bom, aos descafeinados é melhor não dizer o que lhes vamos chamar, para não ferir susceptibilidades.”

A Trama fica na Rua de São Filipe Nery, 25 B (ao Rato). Está aberta segundas, terças, quartas e sábados, das 10h00 às 19h30; quintas e sextas, das 10h00 à meia-noite. Programação de Janeiro aqui.

[Versão ampliada de um texto publicado no último número da revista Time Out]

Nem todas as livrarias têm 3300 metros quadrados

Felizmente.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges