Coisas próprias do escuro

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O da Joana
Autor: Valério Romão
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 156
ISBN: 978-989-98019-8-1
Ano de publicação: 2013

No seu romance anterior (Autismo), Valério Romão colocava, durante muitas dezenas de páginas, um casal consumido pelo desespero à porta de uma urgência hospitalar, ansiando por notícias que nunca chegavam sobre o filho de seis anos, atropelado horas antes. A espera kafkiana face ao muro da intransigência burocrática era a metáfora perfeita da incomunicabilidade que ferira de morte a família – o autismo do filho a desencadear ondas de choque, como uma «bomba com retardador» que de repente explode. Em O da Joana, segundo volume da trilogia «Paternidades falhadas», reaparece a figura opressiva do hospital, mas desta vez tudo (ou quase tudo) decorre lá dentro, um espaço claustrofóbico, asfixiante, espécie de inferno onde uma mulher grávida é condenada a dar à luz um nado-morto.
A narrativa não se fecha logo nas salas e corredores da maternidade, começa antes numa animada festa, sobre a qual paira, no travo melancólico da alegria suburbana, uma espécie de aviso ou prenúncio do que nos aguarda. Valério descreve tudo com minúcia, numa prosa rápida, elástica, abrangente, feita de panorâmicas e zooms, como num documentário que a National Geographic fizesse sobre nós, humanos, esses primatas no fundo tão semelhantes nas suas «pulsões mais profundas e genuínas». Fala-se, por exemplo, do «magnetismo» primário que faz com que as mães sejam atraídas pelo choro dos filhos, seguindo o instinto de «um coração feminino devidamente calibrado». E é aqui que a história inicia o seu deslize para um «alto-mar existencial no qual tudo quanto há se desnuda na inexistência de terra firme». No meio da confusão, Joana procura um bebé que chora algures num quarto, encontra-o, identifica uma fome que se apressa a saciar com um mamilo «de onde despontavam já (…) bolsas microscópicas de leite», para logo dissolver este momento íntimo em algo mais perturbante, à medida que as carícias no bebé se transformam numa «apneia» de «prazer dúbio dos sentidos que se confundem», concluída num orgasmo.
Quando o leitor descobre que o filho não é dela e a mãe verdadeira se prepara para um confronto de pura energia animal, instala-se uma «arritmia da normalidade». Saber que tudo não passou de um pesadelo gera talvez um sentimento de alívio, até porque sinaliza o rompimento das águas e o início da corrida para a maternidade, onde Joana espera cumprir o sonho alimentado durante oito anos de obsessão, durante os quais preparou a sua vida, ao milímetro, em função do filho que um dia haveria de chegar. O problema é que a «arritmia da normalidade» é transposta do mundo onírico para o mundo real. Se, no sonho, ela fazia coisas «próprias do escuro», embaraçosas «porque não são próprias de mim», essas coisas perseguem-na na vigília, uma vez que o corpo continua a perder-se, «assim que eu viro as costas à lucidez e abro mão da consciência».
A perdição do corpo, neste caso, assume a forma de um silêncio: dentro da mãe, o coração do Francisco deixou de bater. É esta tragédia que acompanhamos momento a momento, sem elipses nem pausas para respirar, até ao paroxismo do arrepiante desenlace, numa vertigem de realismo cru e visceral sem paralelo na literatura portuguesa. Entre o corpo e a dor, «desabam as fronteiras que permitem que o primeiro localize e contenha a última». E nós assistimos a esse desabamento que, numa Joana transformada em «barco sem tripulação, abandonado à sua sorte», corresponde ao desabamento da própria realidade. Terrível, duríssimo, admirável, este é um romance que traz à luz feridas e angústias, sem anestesia, a frio, mas com a delicadeza de quem respeita infinitamente o lado mais brutal da vida.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Uma bomba com retardador

Autismo
Autor: Valério Romão
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 353
ISBN: 978-989-97448-6-8
Ano de publicação: 2012

À porta das urgências, os pais de Henrique, menino de seis anos que foi atropelado, desesperam para saber notícias do filho. Estará vivo? Em coma? Muito ferido? À beira da morte? Rogério e Marta manifestam a sua aflição, revoltam-se, resignam-se, revoltam-se outra vez, mas não conseguem saber o que se passa. Por muito que mendiguem o acesso ao interior do hospital (ou, no mínimo, a esmola de um boletim clínico sumário), deparam sempre com uma barreira invisível, um muro de burocracia e indiferença. Eles estão de fora e há uma força qualquer que os impede de entrar, de se aproximarem da verdade. É uma situação puramente kafkiana, ao mesmo tempo absurda e verosímil, um pesadelo durante o qual nada acontece a não ser um crescendo de angústia e inquietação, partilhado pelos pais de Marta – quatro adultos impotentes face a um intercomunicador mudo, à intransigência dos seguranças e a uma lógica administrativa que os ultrapassa.
Esta situação-limite constitui o eixo central de Autismo (editado com o habitual esmero gráfico da Abysmo e belas ilustrações de Alex Gozblau), romance fulgurante que junta desde já o nome de Valério Romão (n. 1974) ao dos melhores valores da literatura portuguesa sub-40. O que torna o livro devastador não é apenas a descrição da insuportável agonia da espera, um estado de sofrimento sem saída, suspenso, mantido com mestria pelo narrador durante dezenas de páginas. O que o torna devastador é a forma como esse limbo se transforma na metáfora do autismo de Henrique, a verdadeira tragédia que atingiu a família uns anos antes. Em capítulos intercalados na narrativa principal, vai sendo contada essa outra história, feita de sucessivas etapas de surpresa, negação, falsas esperanças e desilusões. A partir do momento em que assumem a natureza «especial» do filho, atribuindo finalmente um nome ao problema, os pais lutam com as armas ao seu alcance, empenham-se nos programas de estimulação sugeridos pelos médicos (pouco mais eficazes, na prática, do que as metodologias estapafúrdias dos charlatães), criam novas rotinas e até abdicam do trabalho (Marta), mas os resultados depressa se esfumam.
De início, o romance tem um foco mais alargado, recuando aos momentos de felicidade do casal, logo após o nascimento de Henrique, quando tudo ainda parecia «normal», e arriscando mesmo o retrato lúcido de uma geração consciente dos seus impasses (embora se veja como «o reduto e o enclave derradeiros no qual uma longa linhagem chamada civilização ocidental acabava o seu demorado processo de decantação», sabe que é formada por «aqueles que ninguém coroaria», meras «borras da história», uma «escória que brilha»). À medida que a doença progride, fechando sobre si mesma esta «família de dois e meio», o próprio romance afunila, ficando cada vez mais cru, mais duro, no osso (reduzido a diálogos de enorme violência emocional), cada vez mais claustrofóbico, quase irrespirável. «O Henrique e o autismo ocupam a totalidade da vida», queixa-se Rogério. «Foi o autismo que acabou connosco (…), que nos destroçou como casal até este ponto de aparente não-retorno. (…) É uma bomba com retardador. E agora explodiu.» Se Marta parece conformada com a dimensão dos estragos e a necessidade de seguir em frente, tendo o bem-estar possível de Henrique como única meta, Rogério não se resigna diante de tamanhas perdas. Das ambíguas páginas finais (em que se sugere uma ignomínia) emana então a luz negra que dá um sentido terrível à espera no hospital e assombrará o leitor muito depois de terminada a leitura.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 115 da revista Ler]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges