João Tordo na Alfaguara

Da editora Alfaguara, acabei de receber o seguinte comunicado:

«No ano em que comemora o seu 5.º aniversário em Portugal, e o seu 50.º aniversário a nível internacional, a Alfaguara anuncia com orgulho a contratação de mais um excelente autor português para o seu catálogo.
João Tordo, vencedor do Prémio José Saramago e um dos mais relevantes nomes da literatura portuguesa contemporânea, junta-se a um jovem mas cuidado catálogo de ficção literária, em que se destacam autores portugueses como Afonso Cruz, Ricardo Adolfo e Valter Hugo Mãe.
O próximo romance de João Tordo – Biografia involuntária dos amantes – sairá já em Abril com a chancela Alfaguara.»

Convém lembrar que embora a Alfaguara ainda detenha os direitos sobre alguns dos romances de Valter Hugo Mãe, o autor de A Desumanização transferiu-se recentemente para a Porto Editora.

Valter Hugo Mãe finalista do Prémio PT de Literatura

Em 2012, Valter Hugo Mãe foi o vencedor absoluto do Prémio PT de Literatura, com o livro que ganhou a categoria de romance (A Máquina de Fazer Espanhóis). Este ano volta a ser finalista, com a edição brasileira de O Filho de Mil Homens. Eis a lista completa dos finalistas nas três categorias do prémio:

Romance
O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe (Cosac Naify)
A máquina de madeira, de Miguel Sanches Neto (Companhia das Letras)
Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera (Companhia das Letras)
O sonâmbulo amador, de José Luiz Passos (Alfaguara)

Poesia
Formas do nada, de Paulo Henriques Britto (Companhia das Letras)
Porventura, de Antonio Cícero (Record)
Sentimental, de Eucanaã Ferraz (Companhia das Letras)
Um útero é do tamanho de um pulso, de Angélica Freitas (Cosac Naify)

Conto
A verdadeira história do alfabeto, de Noemi Jaffe (Companhia das Letras)
Essa coisa brilhante que é a chuva, de Cíntia Moscovich (Record)
O tempo em estado sólido, de Tércia Montenegro (Grua Editora)
Páginas sem glória, de Sérgio Sant’Anna (Companhia das Letras)

Os vencedores serão anunciados em Novembro.
Sobre O Filho de Mil Homens, conversei com o autor aqui.
O novo romance de Valter Hugo Mãe, A Desumanização (Porto Editora), chega às livrarias no próximo dia 20.

Valter Hugo Mãe: “Eu só sei escrever coisas arriscadas”

Na génese de O Filho de Mil Homens (Alfaguara), quinto romance de Valter Hugo Mãe, houve uma frase: «Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho.» Com esta frase inicial, escrita de repente num aeroporto, surgiu do nada a figura de Crisóstomo. «Fiquei agarrado pela frase, pela ideia, pela possibilidade daquela personagem. E o primeiro capítulo surgiu durante aquelas três horas à espera do voo. O texto funciona como um conto, uma história fechada. Podia ser perfeitamente um livro para miúdos, na esteira de outros que fiz.» Já no avião, enquanto aguardava pela descolagem para ligar de novo o computador, percebeu que tinha de continuar a escrever sobre o Crisóstomo e a sua estranha energia. «Não estava preparado para o facto de as personagens me deixarem fora do livro, sozinho, enquanto elas continuavam lá dentro, juntas e felizes.»
Com sucessivos recomeços, as histórias esboçadas naquelas primeiras páginas desenvolveram-se e ganharam o corpo de um romance. «Escrevi como sempre escrevo, mas com o desafio de simplificar as coisas, tornar as ideias mais cristalinas e o livro mais sucinto.» Se o capítulo de abertura se assemelha a um conto de fadas, completamente fora da realidade, essa atmosfera contamina o resto do romance. Valter assume que estabeleceu um pacto com o protagonista, talvez a mais cândida de todas as suas personagens. «Prometi-lhe: Crisóstomo, tu vais ser feliz, custe o que custar.» E a promessa foi cumprida. «Nos livros anteriores, por mais que tivesse compaixão pelos meus heróis ou anti-heróis, por mais que quisesse dotá-los de esperança, nunca pude salvá-los da grande desgraça. Desta vez, consegui.»
Por sistema, Valter avança na narrativa sem um plano, sem uma direcção definida. «É a força das personagens e a necessidade de saber mais acerca delas que me empurra.» Em relação a Crisóstomo, porém, sentiu uma espécie de pudor. «Ele esmagou-me. É quase intocável. É o arquétipo de uma certa ideia de beleza humana, a dos seres que procuram e exercem a perfeição.» O livro defende a ideia de felicidade no seio de uma família não biológica, impossível, utópica. Não se arriscará a ser trucidado pelo cinismo dominante? «Arrisca-se, sim. Mas eu só sei escrever coisas arriscadas. Ando sempre à procura, mas nunca percebo muito bem aquilo que encontro. No fim de cada livro, tenho um impulso muito destrutivo enquanto criador. Apetece-me afogar os livros no lago. A verdade é que não sei fazer as coisas de outro modo. Quanto ao tal discurso dominante, é com gosto que me alinho na contra-corrente. Posso ser muito ingénuo, mas acho mesmo que a arte pode mudar a vida das pessoas para melhor.»
Se O Filho de Mil Homens abre uma nova fase na obra de Valter Hugo Mãe – depois da tetralogia romanesca composta por o nosso reino, de 2004; o remorso de baltazar serapião, 2006 (ao qual foi atribuído o Prémio José Saramago); o apocalipse dos trabalhadores, 2008; e a máquina de fazer espanhóis, 2010 –, esta nova fase é drasticamente assinalada por uma mudança de paradigma estilístico. A regra de escrever só em minúsculas foi abolida, tanto nos textos como no nome do escritor. «Não deixei de acreditar no que acreditava», explica Valter, «mas ficaria muito frustrado se ao fim de alguns anos, ou eventualmente no fim da minha vida, as pessoas me reduzissem ao indivíduo das minúsculas». Houve também um certo cansaço: «Em cada país onde sou publicado, obrigam-me a justificar outra vez esta minha opção, como se eu tivesse inventado a pólvora. Não inventei. Antes de mim, já outros faziam isto, do cummings ao Almeida Faria. E eu ‘roubei’ a ideia ao Al Berto. Quando sonhei ser poeta, sonhei ser como o Al Berto.»


Fotografia de Nelson d’Aires

Apesar de tudo, a decisão foi relativamente fácil. Levá-la à prática, nem por isso. «Ao princípio, pareceu-me uma coisa contra-natura. O que me sai naturalmente é escrever em caixa baixa. Aliás, ainda escrevi os primeiros três capítulos sem maiúsculas. Acrescentei-as depois, retroactivamente.» Valter está satisfeito com o caminho tomado mas não garante que seja definitivo. A poesia, por exemplo, continuará a aparecer em minúsculas: «Quando publicar, vou ser o mesmo poeta de sempre e assinarei o meu nome em caixa baixa.» Ou seja, um dia veremos livros de um Valter Hugo Mãe ficcionista ao lado dos livros do poeta valter hugo mãe. Não será isto demasiado confuso? «Pois, se calhar é. Mas eu sou mesmo assim. Um ser humano todo atrapalhado e sempre cheio de angústias quanto às minhas opções.» Com maiúsculas ou sem maiúsculas, interessa-lhe sublinhar que a escrita em si não muda. «Os primeiros leitores disseram-me até que as coisas ficam mais límpidas, mais inequívocas, mais explícitas.»
No momento em que a primeira frase de O Filho de Mil Homens se impôs a tudo o resto, Valter estava a escrever outro livro, construído em torno de uma personagem transsexual. «Hei-de voltar a essa história, mas entretanto já escangalhei aquilo tudo.» Do texto existente, com cerca de cem páginas, duas personagens foram transplantadas para o actual projecto em curso: «É uma coisa muito diferente de tudo o que já fiz. Passa-se num cenário islandês. Vai ser o meu primeiro livro a fugir manifestamente da realidade portuguesa.» Em comum com O Filho de Mil Homens, apenas a constituição de uma família improvável, «a partir da ideia ou da imagem de um filho à deriva».
Em Agosto, Valter esteve na Islândia. Precisava de se sentir «imerso naquela natureza». Tenciona voltar em Janeiro, para «perceber a violência do frio». Neste momento, vive a fase da expectativa perante as «surpresas que o livro gera» e sente-se à mercê de Atla, uma menina com quem ainda não foi capaz de estabelecer um pacto. «Não consigo dizer se ela está destinada a ser feliz, à imagem do Crisóstomo.» E o mais provável é que não esteja, já que o romance promete ser o reverso de O Filho de Mil Homens. Isto é, vai «tender para a escuridão como este tendia para a luz».

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Lançamento de ‘a máquina de fazer espanhóis’ no MNAA

O mais recente romance de valter hugo mãe vai ser apresentado por António Lobo Antunes, dia 10, quarta-feira, no Museu Nacional de Arte Antiga (a partir das 21h30). Durante o lançamento, serão postos à venda 150 exemplares de uma edição limitada de 300, de capa dura, numerados, com assinatura e desenho do autor.

Mais vhm em discurso directo

Na Visão (excelente entrevista de Sílvia Souto Cunha), no Jornal de Letras (perfil do escritor, por Maria Leonor Nunes) e no suplemento ípsilon (aproximação ao novo romance, por Raquel Ribeiro).

valter hugo mãe: “Na cabeça dos velhos pode haver turbilhões”

Em a máquina de fazer espanhóis, romance que marca a passagem da editora QuidNovi para a Objectiva (chancela Alfaguara), valter hugo mãe criou um grupo de idosos para compreender, enquanto escritor, que «violência é essa de pensar a morte mesmo ao pé dela», ali no extremo da vida, quando o corpo se torna um inimigo e um traidor. Paradoxalmente, embora esteja muito distante de uma tal realidade crepuscular (tem 38 anos), o autor de o remorso de baltazar serapião considera ser este o seu livro mais autobiográfico: «É o mais pessoal, o que mais me magoou, aquele em que chorei mais; e é também o que mais se aproxima da minha intimidade, ou do meu medo de estar vivo.»
Ao moldar o protagonista, valter teve presente a figura do pai, desaparecido há precisamente dez anos, sobre quem até hoje nunca conseguira escrever. «A última palavra do livro [e da personagem principal] coincide com a última palavra que o meu pai disse: “angústia”. Em três anos e meio de cancro, foi a única vez que verbalizou o seu estado de doença, como se antes não nos quisesse passar o ónus de um qualquer sofrimento.» Na nota final do romance, o escritor abre o jogo: «lamento muito que o meu pai não esteja a viver a terceira idade, por isso decidi inventar[-lhe] uma».
A terceira idade inventada por valter, porém, não é a mera réplica do cenário triste dos lares reais, onde os idosos vegetam em frente à televisão, esperando comida e medicamentos a horas certas. Ao visitar uma dessas casas, não aguentou mais do que vinte minutos de tamanha claustrofobia. «Foi muito intenso, não quis repetir.» Depois, no processo de escrita, se por um lado tentou «prender o leitor dentro daquelas paredes, obrigá-lo a viver um pouco aquela clausura», por outro foi libertando os idosos do seu torpor existencial. «Quis atribuir-lhes uma perigosidade que já não lhes reconhecemos, mostrar que nas suas cabeças ainda pode haver turbilhões, por mais que os seus corpos se tenham transformado nuns sacos imprestáveis, à beira da ruína final.»
O primeiro capítulo de a máquina de fazer espanhóis foi escrito no próprio dia em que valter terminou o apocalipse dos trabalhadores. Talvez por isso, existem vários pontos de contacto entre os dois romances: «São ambos sobre morrer de amor. E os dois abordam a questão da portugalidade, embora de modo muito diferente.» No primeiro, Portugal era nome de cão, um «ridículo rectângulo castanho» cheio de pulgas, melancólico e metafórico. Agora a reflexão identitária é mais concreta, há vários capítulos sobre o Estado Novo e sobre esse fascismo (o escritor não tem medo da palavra) que perdura dentro de muitas cabeças, imune aos já muitos anos de democracia.
No dia 25 de Abril de 1974, valter não tinha ainda sequer três anos. Lembra-se de estar em Lisboa, vindo de Paços de Ferreira, onde vivia. Brincava num parque, «com um menino muito louro, de olhos azuis, demasiado branco para quem, como eu, chegara recentemente de Angola», quando ouviu o pai, sem saber ao certo o que se passava, gritar para a mãe: «Foge, Antónia, é a guerra, é a guerra». Entre as pessoas da sua geração, habituou-se a ser o único que se lembrava desse dia, o único cuja primeira memória coincide com a data em que a ditadura caiu. Talvez assim se explique que seja dos poucos autores com menos de quarenta anos a olhar de frente o período salazarista. «Sempre me interessou perceber do que é que fugiram as pessoas, ao conquistarem aquela liberdade toda.»
Quanto à transformação do Esteves sem metafísica, do poema A Tabacaria, em personagem do livro, correspondeu a uma vontade de convocar Pessoa, de o homenagear. «Fascina-me a capacidade da literatura transformar o quotidiano em mitologia. É aquele toque de Midas dos escritores, capazes de passar tão rente e tão pequeninamente ao pé de alguma coisa e mesmo assim elevarem-na a algo de fundamental para o nosso imaginário.»

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

A vulnerável metafísica da terceira idade

maquina

a máquina de fazer espanhóis
Autor: valter hugo mãe
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 307
ISBN: 978-989-672-016-2
Ano de publicação: 2010

Em o apocalipse dos trabalhadores (QuidNovi, 2008), o anterior romance de valter hugo mãe, um ucraniano com nome de craque do Dínamo de Kiev (Andriy Shevshenko) explica a dada altura que «para abrir caminho na ferocidade de um país alheio» é preciso alcançar a «felicidade das máquinas». No novo livro do escritor de Vila do Conde, há uma extrapolação desta metáfora, se entendermos a ideia de máquina como uma entidade abstracta, composta por peças muitas vezes à mercê de uma lógica e de uma energia cinética que as ultrapassa.
A primeira máquina com que nos deparamos no livro é um lar de idosos, com o habitual nome eufemístico – Lar da Feliz Idade – e uma espécie de funcionamento para a morte. O número de residentes é fixo (93), as camas só vagam quando alguém morre, e por isso impera uma rotatividade que começa com a entrada para um dos melhores quartos (em frente ao jardim onde passam crianças) e termina na ala esquerda (com vista para o cemitério, em mórbida antecipação do fim).
É a este mundo opressivo que chega, ainda atropelado de dor pela morte da mulher (Laura), o protagonista do romance: António Silva, 84 anos, antigo barbeiro com problemas de consciência que nem o tempo foi capaz de sarar. Ele de início recusa a vida colectiva da casa, mas depois integra-se num grupo de homens palradores, quase todos partilhando o seu apelido, portugueses de gema que passam os dias a discutir justamente o que é isto de ser português, sobretudo quando todos levaram com quase meio século de fascismo em cima. Um fascismo que deixou a raiz podre dentro das cabeças, dentro dos «bons homens» que não mexeram um dedo contra Salazar, que aceitaram uma «cidadania de abstenção», por medo ou apego à família, e ainda hoje são habitados pelo fantasma do que não tiveram coragem de fazer; ou que cobardemente permitiram que se fizesse.
A segunda máquina, a que dá título ao livro, é então Portugal, esse eterno problema que temos connosco mesmos e que valter hugo mãe aborda com raro desassombro. Há ainda uma terceira máquina: a «máquina que tira a metafísica». Sem metafísica, os velhos deixam de ter algo a que se agarrar e resvalam de vez para a morte. Um tal engenho, entrevisto em delírios por alguns dos residentes, pode ser uma mera fantasia senil ou um inesperado objecto real, posto ao serviço de uma rentabilidade económica de contornos criminosos.
No seu projecto de huis clos, valter hugo mãe deparou-se com um problema. A tremenda intensidade dramática com que descreve o sofrimento das personagens (o colapso dos corpos, a solidão, a loucura, as arestas cruéis da memória) depressa se torna insustentável, demasiado violenta, irrespirável. Para escapar a isto, valter criou então pontos de fuga, mudanças de ritmo narrativo, jogos metaliterários (como o de incorporar à história Jaime Ramos e Isaltino de Jesus, agentes da PJ saídos dos livros de Francisco José Viegas, em dois capítulos que quebram a regra de só escrever com minúsculas). Acontece que estas soluções criam por sua vez novos problemas de equilíbrio e consistência narrativa, nalguns casos resolvidos de forma pouco satisfatória. O forte deste autor, diga-se, não é a estrutura. É o estilo. Como perceberá o leitor, ao deparar neste livro com algumas das páginas mais devastadoramente belas da ficção portuguesa recente.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Pré-publicação: ‘a máquina de fazer espanhóis’ (valter hugo mãe)

«com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante. caí sobre a cama e julguei que fui caindo por horas, rostos e mais rostos colocando-se diante de mim, e eu por ali abaixo, caindo, sem saber de nada. quando, por fim, me levantei, estava a anos-luz do homem que reconheceria, e aprender a sobreviver aos dias foi como aceitar morrer devagar, violentamente devagar, à revelia de tudo quanto me parecia menos cruel. e a natureza, se do meu coração não se esvaziou o amor pela laura, estaria numa aniquilação imediata para mim também, poupando-me à miséria de ver o sol que arde sem respeito por qualquer tragédia.
fica-se muito zangado como pessoa. não se criem dúvidas acerca disso. fica-se zangado e deseja-se aos outros pouco bem, e o mal que lhes pode acontecer é-nos indiferente ou, mais sinceramente, até nos reconforta, isso sim, como um abraço de embalo, para que não se ponham por aí a arder como o sol e, sobretudo, não nos falem com uma alegriazinha ingénua, de tempo contado, e nos façam perceber o quanto éramos também ingénuos e nunca nos preparáramos para a derrocada de todas as coisas. nunca nos preparamos para a realidade. passamos a ser cidadãos terrivelmente antipáticos, mesmo que façamos uma gestão inteligente desse desprezo que alimentamos crescendo. e só não nos tornamos perigosos porque envelhecer é tornarmo-nos vulneráveis e nada valentes, pelo que enlouquecemos um bocado e somos só como feras muito grandes sem ossos, metidas dentro de sacos de pele imprestáveis que já não servem para nos impor verticalidade nem nas mais pequenas batalhas.»

[O novo romance de valter hugo mãe (editado pela chancela Alfaguara, da editora Objectiva) começa a chegar às livrarias no final desta semana.]

Novo romance de valter hugo mãe já no fim do mês

Ainda em Janeiro, valter hugo mãe concretizará a sua transferência da QuidNovi para a Objectiva, publicando o seu novo romance na Alfaguara, chancela literária da editora que representa o Grupo Santillana em Portugal. Título: a máquina de fazer espanhóis. Segundo a sinopse que me chegou, trata-se de uma «reflexão sobre a terceira idade, sobre a amplitude da felicidade e o modo como esta surge nas pequenas coisas, mesmo depois das fracturas mais insuportáveis».

Governo Sombra

Os Governo são um novo projecto musical, composto por António Rafael e Miguel Pedro (ambos dos Mão Morta), Henrique Fernandes (Mécanosphère) e valter hugo mãe, que canta e escreve as letras das canções.
Para amostra do que os rapazes valem, deixo-vos o tema meio bicho e fogo, incluído na colectânea «Novos Talentos Fnac 2009». O videoclip foi realizado por Esgar Acelerado (a partir de desenhos seus e de Sara Macedo):

Este Governo tem uma grande vantagem sobre o outro, o que exerce o poder executivo: não ter que pedinchar, de joelhos e com fabricada humildade, uma maioria absoluta em Outubro.

valter hugo mãe vai ser blogger convidado do ‘Público’

A partir de agora, o casa de osso passa a constar deste rol.
Parabéns, valter.

‘Pessoal e… Transmissível’ com vhm

Amanhã, a partir das 19h00, o convidado de Carlos Vaz Marques para a sua habitual conversa ao fim da tarde na TSF é valter hugo mãe, “o escritor… e o cantor”. Eis um excerto da entrevista, em que valter canta uma canção dos Madredeus:

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O ficcionista cantor

Imaginem um Antony menos agudo, menos desamparado, menos à beira de se desfazer em poeira (ou em lágrimas). Um Antony mais nervoso, mais inseguro, mais em bruto, ainda assim ameaçando levantar voo atrás dos versos. Eis uma inesperada faceta de valter hugo mãe: a de vocalista. Ontem à tarde, deixou o forum da FNAC Colombo num estado que um anglo-saxónico descreveria como mesmerized. O projecto que ele integra, os cabesssa lacrau, vai explodir por aí um dia destes (embora talvez com outro nome menos sibilante).

Um país rafeiro e com pulgas

o apocalipse dos trabalhadores
Autor: valter hugo mãe
Editora: QuidNovi
N.º de páginas: 182
ISBN: 978-989-628-065-9
Ano de publicação: 2008

O cão surge a páginas 29. Vindo do nada, põe-se a seguir Maria da Graça rua fora (“afeiçoara-se aos tornozelos dela”) e logo o baptizam “portugal”, talvez por ser 5 de Outubro ou porque não passa de um “ridículo rectângulo castanho” (como o país). Sem forçar a metáfora, valter hugo mãe mantém o canídeo perto do centro da acção, cheio de pulgas, focinho caído, fazendo com que a sua melancolia atravesse e contamine toda a narrativa, até às linhas finais em que se cala, “apenas a ver” o culminar da tragédia, “tão fugazmente inteligente, intensamente ternurento e absolutamente imprestável”.
Assim são, também, as personagens que se movem na claustrofóbica cidade de Bragança: a dita Maria da Graça, mulher-a-dias que sonha com as portas do Céu e vai despejando lixívia na sopa do marido (um marinheiro bronco que anda por fora meses a fio); Quitéria, a amiga com quem partilha confidências sexuais nas traseiras do prédio, carpideira profissional a 50 euros o velório (“salário de médico”); o senhor Ferreira, patrão de Maria da Graça, fascinado pelos grandes artistas (Mozart, Rilke, Goya) por serem “o que de mais perto existe da humanidade”, mas nem por isso menos capaz de exercer o seu poder, abusando da mulher que tanto lhe trata da casa como da libido; e um ucraniano com nome de futebolista (Andriy Shevshenko), amante de Quitéria, convicto de que “para abrir caminho na ferocidade de um país alheio” é preciso alcançar a “felicidade das máquinas”, a fazer pizzas ou carregando pedras nas obras, qualquer coisa que permita fugir da grande fome que ainda paira sobre Korosten, cidade natal perdida na neve, onde uma mãe derrotada e um pai paranóico deixaram de lhe escrever cartas.
À sua maneira, cada uma destas personagens aspira a uma espécie de paraíso (o amor impossível, a felicidade carnal, a aniquilação dos fantasmas pessoais, o dinheiro poupado a custo no “país das flores”), mas há uma violência maior que os desmobiliza, empurrando-os para o vazio, “aflitos de tristeza como se viessem à tona para respirar, afundando-se de seguida em pesadelos e sobressaltos contínuos”.
Pela articulação subtil das várias vozes e linhas narrativas, a prosa de valter hugo mãe vai registando cada um desses sobressaltos, com um fulgor poético raro na literatura portuguesa contemporânea: “caramba, um rio ave, como se um rio pudesse voar com peixes e barcos e tudo lá dentro e passar-nos por cima da cabeça sem se entornar.”
Mesmo escrito só com letras minúsculas, que aceleram e precipitam a leitura (como explicou valter em entrevista ao Público), este é um texto todo ele maiúsculo.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 72 da revista Ler]

Apresentação de ‘o apocalipse dos trabalhadores’

Amanhã, na FNAC do Colombo, pelas 18h00, vou ter o prazer de apresentar o romance o apocalipse dos trabalhadores (QuidNovi), de valter hugo mãe. Apareçam, nem que seja para assistir à segunda parte do lançamento: a revelação do projecto musical cabessa lacrau, constituído por Miguel Pedro (Mão Morta/Mundo Cão), António Rafael (Mão Morta/Um Zero Amarelo), Henrique Fernandes (Mecanosphere) e o próprio valter hugo mãe, na qualidade de vocalista/letrista que em teenager teve uma flauta.

A entrevista do valter (excertos)

valter hugo mãe
(fotografia de Nelson d’Aires)

Na última edição do suplemento ípsilon, do Público, Isabel Coutinho publicou uma notável entrevista com valter hugo mãe, a propósito do romance o apocalipse dos trabalhadores (QuidNovi). Transcrevo, de seguida, algumas das melhores passagens:

«Enterneço-me mais com a perdição das mulheres do que com a dos homens. As mulheres sobrevivem muito mais, lutam muito mais, resistem muito mais. Mas se tiverem de morrer fazem-no sem tanta hesitação. Isso fascina-me, seduz-me e enternece-me.»

«Vivo na parte piscatória de Vila do Conde, nas Caxinas, o espaço mais agreste. Vivo lá desde os nove anos e ali as pessoas são endurecidas. Quem não os entende acha que são más pessoas, mal-educados ou brutos. Há quem tenha medo. Vistos de perto são pessoas impressionantes porque são rochedos humanos. Perdem familiares no mar. Há gente que perde marido e filhos num ano. Ficam sozinhas e sobrevivem com um mutismo, uma dignidade impressionantes. Continuam a sair à rua, a lavar-se, a pentear-se. Vestem um preto integral, não se vê outra cor no corpo, assistem às missas, compram o pão, param cinco minutos a conversar seja com quem for, existe uma profundidade na imagem dessas mulheres que me impressionou. (…) Se eu fosse uma mulher de 50 anos a quem quatro filhos e um marido morressem num mês no alto mar, tombava de uma ponte abaixo. Mas elas sobrevivem. Sabem qualquer coisa que nós não sabemos.»

«Tenho uma concepção estranha da morte; acho que é a nossa grande oportunidade. Se não for a morte que nos leva a algum lugar absolutamente incrível, não vai ser rigorosamente mais nada.»

«Cresci em Paços de Ferreira como uma coisa selvagem. O perigo era zero, vinha todo da nossa cabeça. Perigoso era se houvesse um buraco que não se visse e nos atirássemos lá para dentro. Às vezes sabia-se que os miúdos rachavam a cabeça e partiam as pernas, mas os perigos eram estes. Eram nossos, ninguém nos faria mal.»

«Em vez de perguntar o significado das palavras [à minha mãe], aprendia a escrever, guardava tudo e a folha de papel era como uma caixinha. Era como se a minha cabeça entornasse coisas e eu depois podia entorná-las para dentro de uma caixinha. Quis ir à escola aprender aquela magia. Ali comecei a coleccionar as minhas primeiras palavras. A ter com a escrita e com o texto uma relação fantasista em que a realidade era composta por coisas que nem toda a gente vê. Cada um tem que procurar as suas invisibilidades.»

«A dada altura percebi que as minúsculas ligam o texto, aceleram-no, precipitam o leitor. As vírgulas ficam menos virguladas e os pontos menos pontuados. Então as pausas tendem a ser mais breves. Há uma aceleração que se junta a uma certa urgência da história. O leitor fica sem travões. (…) Ao que sei, no início, a primeira reacção é um choque. As pessoas ficam aflitas, não sabem onde parar, não percebem onde a frase acabou. Mas o leitor menos preguiçoso habitua-se ao fim de quatro páginas e consegue deslizar. Consegue seguir naquela leitura com menos travões com alguma destreza. Fico contente quando percebem que este tipo de pontuação os leva mais rápido ao fim da história.»

Aqui pode ler-se a entrevista na íntegra, incluindo as linhas que desapareceram na versão em papel.

portugal

«não é meu, respondeu ela ao maldito. e ele sorriu e disse, entra, portugal. o animal saltou o degrau e pôs-se dentro de casa como se soubesse tudo sobre estar ali e lhe pertencesse cada coisa. a maria da graça não reagiu. correu para a cozinha e sentou-se para não desmaiar. o bicho foi ao encontro dela em alguns segundos. quer quisesse, quer não, o cão era como seu, afinado pelos seus passos para as quatro patas que mexia. ela viu-o bem visto pela primeira vez e gritou para o senhor ferreira que, afinal, a espreitava já na porta da cozinha, temos de lhe pôr um nome, há que saber como chamar pelo traste, para se habituar a ter-nos medo quando nos ouvir gritar-lhe. e o senhor ferreira respondeu, mas já lhe dei o nome, não ouviu, chama-se portugal. é como se tivesse nascido hoje ou, melhor, como se hoje fosse festa, digna de baptizado e tudo. e ela respondeu, então devia ser república ou implantação, qualquer coisa assim. mas seriam mais nomes para menina, e muito feia. nada disso, retorquiu ele, é portugal. e ela aceitou, respondeu, é nome de menino, embora feio. apaziguou-se muito pouco, de início, depois mais, e vendo o animal tão comportado disse, é um rectângulo castanho, um ridículo rectângulo castanho, deve estar cheio de pulgas e chama-se portugal. tem razão, é um bom nome. vamos dar-lhe banho.»

[in o apocalipse dos trabalhadores, de valter hugo mãe, QuidNovi, 2008]

‘o apocalipse dos trabalhadores’

Estou muito curioso em relação ao novo romance do valter hugo mãe, que chegará aos escaparates das livrarias em Julho, com chancela da QuidNovi.
Depois da sórdida Idade Média, o presente precário. Ou seja, este tempo duro que é o nosso, com desemprego e imigrantes mal integrados (se bem percebi a ideia do trailer).

valter hugo mãe em Braga

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Poucas semanas após a atribuição do Prémio Saramago 2007, o romance o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe (QuidNovi), chega às livrarias com nova capa e nova paginação. Hoje à noite, pelas 22h00, o valter estará na Fnac de Braga (que abriu há cerca de um mês) para uma conversa sobre o livro e “tudo o que o envolve”.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges