‘Pessoal e… Transmissível’ com vhm

Amanhã, a partir das 19h00, o convidado de Carlos Vaz Marques para a sua habitual conversa ao fim da tarde na TSF é valter hugo mãe, “o escritor… e o cantor”. Eis um excerto da entrevista, em que valter canta uma canção dos Madredeus:

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O ficcionista cantor

Imaginem um Antony menos agudo, menos desamparado, menos à beira de se desfazer em poeira (ou em lágrimas). Um Antony mais nervoso, mais inseguro, mais em bruto, ainda assim ameaçando levantar voo atrás dos versos. Eis uma inesperada faceta de valter hugo mãe: a de vocalista. Ontem à tarde, deixou o forum da FNAC Colombo num estado que um anglo-saxónico descreveria como mesmerized. O projecto que ele integra, os cabesssa lacrau, vai explodir por aí um dia destes (embora talvez com outro nome menos sibilante).

Um país rafeiro e com pulgas

o apocalipse dos trabalhadores
Autor: valter hugo mãe
Editora: QuidNovi
N.º de páginas: 182
ISBN: 978-989-628-065-9
Ano de publicação: 2008

O cão surge a páginas 29. Vindo do nada, põe-se a seguir Maria da Graça rua fora (”afeiçoara-se aos tornozelos dela”) e logo o baptizam “portugal”, talvez por ser 5 de Outubro ou porque não passa de um “ridículo rectângulo castanho” (como o país). Sem forçar a metáfora, valter hugo mãe mantém o canídeo perto do centro da acção, cheio de pulgas, focinho caído, fazendo com que a sua melancolia atravesse e contamine toda a narrativa, até às linhas finais em que se cala, “apenas a ver” o culminar da tragédia, “tão fugazmente inteligente, intensamente ternurento e absolutamente imprestável”.
Assim são, também, as personagens que se movem na claustrofóbica cidade de Bragança: a dita Maria da Graça, mulher-a-dias que sonha com as portas do Céu e vai despejando lixívia na sopa do marido (um marinheiro bronco que anda por fora meses a fio); Quitéria, a amiga com quem partilha confidências sexuais nas traseiras do prédio, carpideira profissional a 50 euros o velório (”salário de médico”); o senhor Ferreira, patrão de Maria da Graça, fascinado pelos grandes artistas (Mozart, Rilke, Goya) por serem “o que de mais perto existe da humanidade”, mas nem por isso menos capaz de exercer o seu poder, abusando da mulher que tanto lhe trata da casa como da libido; e um ucraniano com nome de futebolista (Andriy Shevshenko), amante de Quitéria, convicto de que “para abrir caminho na ferocidade de um país alheio” é preciso alcançar a “felicidade das máquinas”, a fazer pizzas ou carregando pedras nas obras, qualquer coisa que permita fugir da grande fome que ainda paira sobre Korosten, cidade natal perdida na neve, onde uma mãe derrotada e um pai paranóico deixaram de lhe escrever cartas.
À sua maneira, cada uma destas personagens aspira a uma espécie de paraíso (o amor impossível, a felicidade carnal, a aniquilação dos fantasmas pessoais, o dinheiro poupado a custo no “país das flores”), mas há uma violência maior que os desmobiliza, empurrando-os para o vazio, “aflitos de tristeza como se viessem à tona para respirar, afundando-se de seguida em pesadelos e sobressaltos contínuos”.
Pela articulação subtil das várias vozes e linhas narrativas, a prosa de valter hugo mãe vai registando cada um desses sobressaltos, com um fulgor poético raro na literatura portuguesa contemporânea: “caramba, um rio ave, como se um rio pudesse voar com peixes e barcos e tudo lá dentro e passar-nos por cima da cabeça sem se entornar.”
Mesmo escrito só com letras minúsculas, que aceleram e precipitam a leitura (como explicou valter em entrevista ao Público), este é um texto todo ele maiúsculo.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 72 da revista Ler]

Apresentação de ‘o apocalipse dos trabalhadores’

Amanhã, na FNAC do Colombo, pelas 18h00, vou ter o prazer de apresentar o romance o apocalipse dos trabalhadores (QuidNovi), de valter hugo mãe. Apareçam, nem que seja para assistir à segunda parte do lançamento: a revelação do projecto musical cabessa lacrau, constituído por Miguel Pedro (Mão Morta/Mundo Cão), António Rafael (Mão Morta/Um Zero Amarelo), Henrique Fernandes (Mecanosphere) e o próprio valter hugo mãe, na qualidade de vocalista/letrista que em teenager teve uma flauta.

A entrevista do valter (excertos)

valter hugo mãe
(fotografia de Nelson d’Aires)

Na última edição do suplemento ípsilon, do Público, Isabel Coutinho publicou uma notável entrevista com valter hugo mãe, a propósito do romance o apocalipse dos trabalhadores (QuidNovi). Transcrevo, de seguida, algumas das melhores passagens:

«Enterneço-me mais com a perdição das mulheres do que com a dos homens. As mulheres sobrevivem muito mais, lutam muito mais, resistem muito mais. Mas se tiverem de morrer fazem-no sem tanta hesitação. Isso fascina-me, seduz-me e enternece-me.»

«Vivo na parte piscatória de Vila do Conde, nas Caxinas, o espaço mais agreste. Vivo lá desde os nove anos e ali as pessoas são endurecidas. Quem não os entende acha que são más pessoas, mal-educados ou brutos. Há quem tenha medo. Vistos de perto são pessoas impressionantes porque são rochedos humanos. Perdem familiares no mar. Há gente que perde marido e filhos num ano. Ficam sozinhas e sobrevivem com um mutismo, uma dignidade impressionantes. Continuam a sair à rua, a lavar-se, a pentear-se. Vestem um preto integral, não se vê outra cor no corpo, assistem às missas, compram o pão, param cinco minutos a conversar seja com quem for, existe uma profundidade na imagem dessas mulheres que me impressionou. (…) Se eu fosse uma mulher de 50 anos a quem quatro filhos e um marido morressem num mês no alto mar, tombava de uma ponte abaixo. Mas elas sobrevivem. Sabem qualquer coisa que nós não sabemos.»

«Tenho uma concepção estranha da morte; acho que é a nossa grande oportunidade. Se não for a morte que nos leva a algum lugar absolutamente incrível, não vai ser rigorosamente mais nada.»

«Cresci em Paços de Ferreira como uma coisa selvagem. O perigo era zero, vinha todo da nossa cabeça. Perigoso era se houvesse um buraco que não se visse e nos atirássemos lá para dentro. Às vezes sabia-se que os miúdos rachavam a cabeça e partiam as pernas, mas os perigos eram estes. Eram nossos, ninguém nos faria mal.»

«Em vez de perguntar o significado das palavras [à minha mãe], aprendia a escrever, guardava tudo e a folha de papel era como uma caixinha. Era como se a minha cabeça entornasse coisas e eu depois podia entorná-las para dentro de uma caixinha. Quis ir à escola aprender aquela magia. Ali comecei a coleccionar as minhas primeiras palavras. A ter com a escrita e com o texto uma relação fantasista em que a realidade era composta por coisas que nem toda a gente vê. Cada um tem que procurar as suas invisibilidades.»

«A dada altura percebi que as minúsculas ligam o texto, aceleram-no, precipitam o leitor. As vírgulas ficam menos virguladas e os pontos menos pontuados. Então as pausas tendem a ser mais breves. Há uma aceleração que se junta a uma certa urgência da história. O leitor fica sem travões. (…) Ao que sei, no início, a primeira reacção é um choque. As pessoas ficam aflitas, não sabem onde parar, não percebem onde a frase acabou. Mas o leitor menos preguiçoso habitua-se ao fim de quatro páginas e consegue deslizar. Consegue seguir naquela leitura com menos travões com alguma destreza. Fico contente quando percebem que este tipo de pontuação os leva mais rápido ao fim da história.»

Aqui pode ler-se a entrevista na íntegra, incluindo as linhas que desapareceram na versão em papel.

portugal

«não é meu, respondeu ela ao maldito. e ele sorriu e disse, entra, portugal. o animal saltou o degrau e pôs-se dentro de casa como se soubesse tudo sobre estar ali e lhe pertencesse cada coisa. a maria da graça não reagiu. correu para a cozinha e sentou-se para não desmaiar. o bicho foi ao encontro dela em alguns segundos. quer quisesse, quer não, o cão era como seu, afinado pelos seus passos para as quatro patas que mexia. ela viu-o bem visto pela primeira vez e gritou para o senhor ferreira que, afinal, a espreitava já na porta da cozinha, temos de lhe pôr um nome, há que saber como chamar pelo traste, para se habituar a ter-nos medo quando nos ouvir gritar-lhe. e o senhor ferreira respondeu, mas já lhe dei o nome, não ouviu, chama-se portugal. é como se tivesse nascido hoje ou, melhor, como se hoje fosse festa, digna de baptizado e tudo. e ela respondeu, então devia ser república ou implantação, qualquer coisa assim. mas seriam mais nomes para menina, e muito feia. nada disso, retorquiu ele, é portugal. e ela aceitou, respondeu, é nome de menino, embora feio. apaziguou-se muito pouco, de início, depois mais, e vendo o animal tão comportado disse, é um rectângulo castanho, um ridículo rectângulo castanho, deve estar cheio de pulgas e chama-se portugal. tem razão, é um bom nome. vamos dar-lhe banho.»

[in o apocalipse dos trabalhadores, de valter hugo mãe, QuidNovi, 2008]

‘o apocalipse dos trabalhadores’

Estou muito curioso em relação ao novo romance do valter hugo mãe, que chegará aos escaparates das livrarias em Julho, com chancela da QuidNovi.
Depois da sórdida Idade Média, o presente precário. Ou seja, este tempo duro que é o nosso, com desemprego e imigrantes mal integrados (se bem percebi a ideia do trailer).

valter hugo mãe em Braga

o_remorso_de_naltazar_serapiao_-_valter_hugo_mae.jpg

Poucas semanas após a atribuição do Prémio Saramago 2007, o romance o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe (QuidNovi), chega às livrarias com nova capa e nova paginação. Hoje à noite, pelas 22h00, o valter estará na Fnac de Braga (que abriu há cerca de um mês) para uma conversa sobre o livro e “tudo o que o envolve”.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges