Três poemas de Vasco Gato

Aqui o mar é sono perpétuo,
câmara para o mais terrível segredo.
Entro nele de mãos trémulas, certo
das minhas cedências. Recordo o sabor
salino de outras perdas, casas tombadas
das quais sou solitária ruína.

Eu, que tanto tenho dado à insónia,
embebo-me agora nas águas de outro dialecto

– as palavras falham, e essa é a comunicação.

***

O barco impresso na areia.
O sal que,
pelo descuido que tudo infecta,
lhe vai rachando
a madeira.
Lentíssimas machadadas.
Lacónica realidade.

***

A tarde despedaçou-se
e nunca houve outro anseio
senão esta claridade sem sol,
a lenta supressão de uma morada.
Espiamos as naves que se soletram
a ouvido nenhum,
tocando um do outro
os dedos mais
sinceros.

Estamos prontos para singrar
na noite do nosso
desassossego.

[in Napule, Tea for One, 2011]

Sete aforismos de Vasco Gato

Ouvir a minha própria voz. Usar para esse efeito carruagens de comboio. Arrecadações. O interior de uma lanterna.

***

A destruição é uma prerrogativa do desejo.

***

Esta fúria de puxar um corpo e resumi-lo à sua posição. Isto é, abrandá-lo aos repelões. Segurar o bisturi da minha própria sombra e não falhar.

***

Como um veneno, a minha vida começa a actuar. Não é de repente. É ir perdendo os dedos, os braços, cada vértebra – a ortodoxia do corpo.

***

O que eu habito é a minha vulnerabilidade.

***

Em poesia, o sentido é o corpo intacto dentro do veículo sinistrado. Ferro contorcido e carne verbal, guardada em segredo. O poema é desencarcerar-se.

***

Tudo a funcionar. Como surda derrocada. Semáforos, bibliotecas, quiosques, capitéis, colchas, tesouras, máquinas de café: metástases, metástases.

[in Rusga, Trama, 2010]

Lançamento de ‘Cerco Voluntário’, de Vasco Gato

As “Quintas de Leitura” acolhem esta noite, a partir das 22h00, no Café-Teatro do Teatro Carlos Alberto, o poeta Vasco Gato, que lançará o livro Cerco Voluntário, 13.º título da colecção “Cadernos do Campo Alegre”. Catarina Nunes de Almeida falará sobre a obra e lerá, com o actor Pedro Lamares e o autor, alguns poemas. Haverá ainda performance (Rouge, de Sónia Baptista) e música, primeiro com Marta Bernardes, Henrique Fernandes e as Balla Prop, depois com Tó Trips, membro da banda Dead Combo, que dará a conhecer temas do novo disco (Guitarra 66).
A entrada é livre, sujeita a levantamento de bilhete até ao limite da lotação da sala.
Alguns poemas do livro podem ser lidos aqui.

Quatro poemas de Vasco Gato

Os tigres mediterrânicos somos nós,
compassos cravados
no músculo tardio do desejo.
Hausto submerso, patas
numa cicatriz acordada
entre a tua carne
e a minha.
Remendados assim,
tão
lentos.

***

Entre veneno e cura,
eis-nos vassalos do tamborim
para o imemorial castigo da treva.
Os nossos corpos, dois vocábulos
que se estudam. Dancemos, pois,
para que entre nós se acerte a pronúncia,
que o terreiro sempre foi dialecto
do suor, pano estendido que por vezes
nos cinge e reserva, para logo
uma pata descurada
nos apartar com um esgar.
A tarântula rói já a um canto
a sua noite de esperanças,
seu alimento de pó.
Há braços que sobejam e regressam.
Enquanto esta aflição durar, estaremos
a salvo da guilhotina do sol.

***

A rapariga da muleta deixou cair a muleta.
O fogo espalhou-se, abriram-se
as borboletas
num susto evidente,
fizeram fila os táxis.
Os prédios mais altos, tão francos,
tão estruturalmente com varandas,
tão soprados
pelo soluço dos que nascem.
As borboletas cada vez mais altas,
as borboletas sem táxi, a varanda que caiu
com as flores intactas
da tua febre. Tenho agora o desastre
da tua roupa no meu chão,
o sangue feliz.

***

Desertei das falanges do ouro
para vir sitiar a tua sombra.
Movias-te como se jamais te prendesse
outra lealdade
que não a interrogação
de um cais. E, porém,
os teus olhos silenciosos,
somando as imagens.
Qual pano,
desce sobre a cidade o músculo
das coisas prementes.
Das safras de pólvora colhi a tua incerteza
de rapariga. Depois, perdi-te
entre os prodígios.

[in Cerco Voluntário, Cadernos do Campo Alegre/13, 2009]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges