Força, força, companheiro Vasco

Nisto, pelo menos, estamos completamente de acordo.

CCB: sai António Mega Ferreira, entra Vasco Graça Moura

Eis uma notícia que me deixa perplexo. A Secretaria de Estado da Cultura acaba de anunciar a substituição de António Mega Ferreira por Vasco Graça Moura, na presidência da Fundação Centro Cultural de Belém. Se Mega Ferreira, nos dois mandatos à frente da instituição, deu «provas de brilho, criatividade e responsabilidade no cumprimento da missão que lhe foi incumbida», porque razão sai agora, quando por lei ainda podia ficar à frente do CCB durante mais três anos? Não se entende. Ou melhor, percebe-se uma coisa muito simples: sem pôr em causa as qualidades de Graça Moura e a sua grande experiência em cargos desta magnitude, há aqui claramente uma mudança de azimute político. Onde estava um intelectual mais ou menos alinhado com o PS, passa a estar um intelectual ostensivamente alinhado com o PSD. Numa altura em que assistimos ao verdadeiro assalto da EDP e outras empresas de forte participação estatal, por parte dos boys e girls laranjinhas (mais uns quantos centristas), a nomeação de Vasco Graça Moura para o CCB vai parecer mais do mesmo.
Perante o facto consumado, resta enaltecer o excelente trabalho feito por Mega Ferreira no CCB, nomeadamente as muitas iniciativas de cariz literário (as participadíssimas comemorações do Dia Mundial da Poesia, os ciclos de colóquios sobre escritores, as homenagens, as maratonas de leitura, os Dias dedicados a certos autores: Tolstoi, Kafka, Vitorino Nemésio, Tabucchi, etc.) Esperemos agora que Vasco Graça Moura consiga prosseguir este movimento de abertura do CCB aos temas literários.
Cá estaremos para ver.

Um poema novo de Vasco Graça Moura

ELEGIA BREVE À POESIA

fugitivo passar pela retina,
no virar de uma esquina ou de um silêncio,
a tua ausência é este ensombramento,

porém que a despedida seja breve
e que voltes com um relâmpago, um
desvendar-se do mundo entrecortando

dobras desamparadas do real.
e eu pergunto: que vozes do crepúsculo
se apagavam então? talvez o vento

agitasse tristezas na folhagem,
e esse fosse o frémito dos seus
melancólicos sinais rumurejando,

ou talvez fosse a cama de um hospital
e o branco desolado das paredes
e a mudez de estranhos aparelhos,

ou talvez fosse o próprio esquecimento
de que irias voltar, ou resvalar
numa lenta passagem de tercetos.

[in Revista Relâmpago n.º 27, com data de Outubro de 2010, mas distribuída agora]

VGM na Poesia Incompleta

A Poesia Incompleta não é apenas uma livraria de poesia. É sobretudo uma livraria de poetas, que por lá vão passando para falar com o Changuito, espreitar as novidades, dizer mal ou bem deste ou daquele e encontrar outros poetas que também por lá passam para falar com o Changuito, espreitar as novidades e dizer mal ou bem deste e daquele (como dantes se passava pelas mesas do café Gelo ou do Monte-Carlo, quando ainda havia em Lisboa tertúlias literárias dignas desse nome). Entre os muitos poetas que rumam à Rua Cecílio de Sousa, sabêmo-lo agora, conta-se igualmente Vasco Graça Moura, que celebra o facto em crónica no Diário de Notícias, a merecer leitura completa (ao contrário dos seus textos políticos), mas de que destaco aqui os três parágrafos finais, pelo que têm de justo reconhecimento do trabalho de um «jovem livreiro» competente e irónico:

«Acontece que em Lisboa acabo de descobrir uma livraria integralmente dedicada à poesia. Fica na Rua Cecílio de Sousa e chama-se Poesia Incompleta, o que envolve um princípio de paradoxo: nunca encontrei livraria mais completa para a poesia do que esta Poesia Incompleta…
Dispõe de um catálogo impressionante de livros de poesia, não apenas em português, cobrindo praticamente todas as épocas, desde os primórdios da literatura até anteontem (só porque os livros que terão saído ontem ainda não foram distribuídos…). Tem à frente um jovem livreiro que profissionalmente conhece tudo: sabe dos autores, sabe das edições, sabe das antologias, sabe das revistas, aborda as matérias com a necessária precisão e um quam satis de ironia.
Vale a pena visitá-la, recomendação que faço a quem, para férias, queira levar leituras dessa área, apenas com a prevenção de que acabamos sempre por comprar mais um ror de coisas além daquelas que lá fomos procurar… Poesia Incompleta, se o género aguentar no mundo em que vivemos, acabará sem dúvida por se tornar um lugar de culto.»

Vasco Graça Moura vai ser editor consultivo da ‘International Literary Quarterly’

A notícia é dada no blogue da revista:

«The Editors of The International Literary Quarterly are delighted to announce that Vasco Graça Moura, the Portuguese poet who has authored many collections including Uma carta no inverno, Testamento de VGM and Laocoonte, Rimas Várias, Andamentos Graves, who has translated Dante’s La Divina Commedia, and the complete sonnets of Shakespeare into English, in addition to translations of work by writers such as Gottfried Benn, Seamus Heaney, Petrarch, Rilke, and who was a Member of the European Parliament for the Social Democratic Party-People’s Party Coalition, has kindly agreed to act as a Consulting Editor of the review with effect from Issue 8.»

[via blogue da Ler, que por sua vez soube disto via twitter de José Afonso Furtado]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges