Os reflexos do mal

Gare do Oriente
Autor: Vasco Luís Curado
Editora:
Dom Quixote
N.º de páginas: 207
ISBN: 978-972-20-4893-4
Ano de publicação: 2012

Em Gare do Oriente, Vasco Luís Curado apresenta-nos sucessivamente cinco personagens que convergem ao fim do dia para um mesmo comboio suburbano. Os respectivos monólogos interiores esmiuçam infâncias traumáticas, casamentos desfeitos e toda a sorte de relações mal resolvidas com pais tiranos, mães dominadoras ou sogras piores do que cobras. Na verdade, o romance decorre todo na cabeça destas pessoas banais, incapazes de se encaixarem no mundo e sujeitas a uma espécie de desligamento emocional, cujo corolário é uma solidão cheia de fantasmas.
Uma a uma, elas chegam-se à frente e contam a sua história. Há a professora de inglês assombrada pelo vazio que a morte do pai criou na sua vida; o esquizofrénico paranóico que inventou uma religião filantrópica aos oito anos e se gaba de poderes telepáticos; o vigilante de um parque de estacionamento, solipsista e incapaz de se orientar na vida; a funcionária pública furiosa com tudo e todos (até com o marido que morreu de cancro depois de a deixar, porque «os mortos também têm deveres»); e o advogado imerso no inferno de um divórcio litigioso. Todos eles estão focados nos tormentos individuais mas deixam-se tocar pela tragédia do dia: o ataque terrorista numa estação de comboios estrangeira, cujos reflexos são ao mesmo tempo um catalisador das angústias e uma hipótese de catarse – na medida em que acordam a «turbamulta» afundada no seu «tédio ruminativo e estéril», pondo em causa «o consenso decadente com que nos anestesiam e amansam, com que nos debilitam e controlam».
Vasco Luís Curado domina bem os ritmos da escrita e a sua linguagem chega a ser brilhante (sobretudo nas primeiras 50 páginas), mas o esquema narrativo é muito rígido e previsível, além de desequilibrado na importância e complexidade que atribui às várias personagens. Se as femininas são cruciais (Lígia, a professora perdida em si mesma; e Natália, a funcionária que se entusiasma com os terroristas que «insuflam ar nos nossos pulmões intoxicados pelo unanimismo cobarde»), as masculinas são quase irrelevantes, para não dizer dispensáveis.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no n.º 111 da revista Ler]

Primeiros parágrafos

«Sempre me assustaram e fascinaram as figuras da maternidade, as noivas, as mulheres que rodearam a minha infância. Era algo como um terror arcaico. Quando era criança levaram-me ao casamento da minha tia e eu chorei sem parar, durante horas, porque estava assustada com o seu vestido de noiva. Aquela brancura, aquele vulto, o que quer que fosse, tinha esse efeito em mim. Mais tarde, eram aqueles silos brancos que se vêem da linha do comboio, já próximos de Lisboa, e que eu vejo todos os dias quando venho trabalhar e quando volto para casa. Esses silos enormes e brancos assombram a paisagem. Causavam-me medo. Costumava pensar que eram como as noivas, mulheres gigantes vestidas de branco. Ainda hoje, se me deixo levar, sinto um calafrio quando os vejo do comboio.»

[in Gare do Oriente, de Vasco Luís Curado, Dom Quixote, 2012; nas livrarias a partir de 25 de Fevereiro]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges