A voz de Virginia

Bela voz, grande mulher, enorme escritora. «Words do not live in dictionaries; they live in the mind.»

O estagiário de Virginia Woolf

hogarth

Mão amiga – adoro esta expressão com o seu quê de metonímia – fez-me chegar certo volume fininho, de páginas amarelecidas mas em bom estado, obtido ao preço da chuva (um dólar, creio) num qualquer leilão de pechinchas na Internet: A Boy at the Hogarth Press, de Richard Kennedy, «illustrated by the author» (Penguin Books, 104 páginas, 1978; editado pela primeira vez em 1972, na Whittington Press). Richard Kennedy (1910-1989) tornou-se conhecido como ilustrador de livros infantis, mas o seu momento de glória chegou cedo, aos 16 anos, quando teve a oportunidade de trabalhar perto de Virginia Woolf e do seu marido, Leonard Woolf, durante os anos de ouro da mítica Hogarth Press. É esse contacto próximo com o célebre casal que este livro evoca, para deleite de todos os leitores que gostam, como eu, de conhecer os meandros mais secretos do mundo literário.
Uma nota inicial esclarece que «estas reminiscências, organizadas na forma de um diário, foram escritas cerca de quarenta anos após os acontecimentos descritos». A ressalva é importante. O texto que lemos não resulta da transcrição de notas redigidas, entre 1926 e 1931, por um rapazito ingénuo, mais interessado em catrapiscar miúdas do que em aprender a arte de fazer e vender livros, mas sim do esforço de memória de um sexagenário que recorda, com impressionante exactidão (extensiva aos seus etéreos desenhos), os longínquos tempos da juventude – sem que a distância arredonde as arestas das histórias vividas, ou esconda os defeitos próprios e alheios.
A principal qualidade deste livrinho está no facto de Kennedy se colocar, enquanto narrador, na pele do rapaz que foi. Ele escreve como se tivesse outra vez 16 anos e repetisse, um a um, cada um dos seus passos na cave de Tavistock Square, em Londres, onde funcionava a editora dos Woolf. Aceite como estagiário à experiência, por via de um tio que conhecia Leonard do Cranium Club, ele encara o novo trabalho como uma «segunda oportunidade», depois de ter falhado completamente os seus estudos em Marlborough. Embrulhar remessas de livros, fazer entregas aos distribuidores e dactilografar cartas de recusa são algumas das tarefas que lhe atribuem, mas a falta de jeito nunca lhe permite completá-las com o esmero desejado. Um dia, monta com afinco uma estante e aparafusa-a à parede, só para vê-la desabar no preciso momento em que Leonard recebia uma visita importante (Lord Oliver).
Além das incidências próprias de uma aprendizagem nunca muito convicta, contadas com leveza e humor, o relato de Kennedy oferece-nos uma descrição bastante minuciosa da atmosfera laboral da Hogarth Press. O corrupio dos autores que aparecem para saber como vão as coisas; Virginia Woolf a compor livros à mão; a ira de Leonard quando descobre erros nas contas do fundo de maneio; Virginia Woolf com a máquina de escrever pousada nos joelhos, junto a uma braseira, fumando cigarros que ela própria enrola; os serões com membros do Bloomsbury Group; as discussões em torno do grafismo das capas ou de um anúncio no Observer; o enorme sucesso de Orlando, romance de Mrs. Woolf que Kennedy é encarregado de vender, livraria a livraria, pelas cidades de província (de Nottingham a Edimburgo), etc.
De início, o estagiário acumula gaffes. Confunde D. H. Lawrence com T. E. Lawrence e é gozado pela patroa quando pronuncia mal o nome de Proust. Mas aos poucos vai-se aclimatando. Lê Turgenev, o À la Recherche…, as críticas literárias nos jornais, e ganha um pouco do verniz necessário para enfrentar a superioridade intelectual dos seus mestres. A admiração que sente pelos Woolf, porém, nunca lhe tolhe o sentido crítico. Leonard grita muito, tem ataques de fúria, é por vezes mesquinho e arrogante. Virginia ridiculariza uma das secretárias. E Richard comenta: «Rir dos próprios empregados é de muito mau gosto.» Sobre Virginia, diz ainda: «Acho que ela é bastante cruel, por trás do ar sonhador com que nos olha.»
Sobre os Woolf e o Bloomsbury Group escreveram-se já milhares de páginas (só a autobiografia de Leonard tem cinco volumes), mas duvido que existam muitas com o grau de inocência e verdade desarmante que estas revelam.

[Texto publicado no n.º 86 da revista Ler]

A voz de Virginia Woolf

Get this widget | Track details | eSnips Social DNA

Segundo o Carlos Vaz Marques, este é o único registo sonoro da voz de Virginia Woolf que sobreviveu até aos nossos dias. E sim, é um tesouro.

Uma Primavera irregular

«Era uma Primavera irregular. O tempo, em constante mudança, punha nuvens azuis e purpúreas a voar sobre a terra. No interior, os agricultores olhavam, apreensivos, para os campos; em Londres, os guarda-chuvas eram abertos e depois fechados por pessoas que olhavam para o céu. Mas em Abril era de esperar um tempo assim. Milhares de empregados repetiam esse comentário enquanto entregavam embrulhos feitos com esmero a senhoras com vestidos de folhos, paradas do outro lado do balcão, no Whiteley’s e nos Armazéns da Marinha. Filas intermináveis de clientes no West End e de homens de negócios no East End desfilavam pelos passeios, como caravanas em marcha perpétua – assim parecia aos que tinham qualquer motivo para parar, a fim de, por exemplo, meter uma carta no correio ou ver a montra de um clube em Piccadilly. A torrente de landaus, vitórias e caleches era incessante, pois a estação estava no início. Nas ruas mais tranquilas, músicos davam o contributo da sua débil e, na maioria das vezes, melancólica música que ecoava, ou era parodiada, aqui, nas árvores de Hyde Park, ou ali, em St. James, pelo trinar dos pardais e pelas súbitas explosões do intermitente tordo. Nos largos, os pombos sacudiam as penas nas copas das árvores, fazendo cair um ou dois pequenos galhos, e repetiam e tornavam a repetir a canção de embalar sempre interrompida. À tarde, os portões de Marble Arch e de Apsley House eram bloqueados por senhoras de vestidos multicoloridos com anquinhas e por cavalheiros de sobrecasaca, bengala e cravos na botoeira. Vinha aí a princesa e, à sua passagem, os chapéus levantavam-se. Nas caves das longas avenidas dos bairros residenciais, jovens criadas, de crista e avental, preparavam o chá. Trazido sorrateiramente da cave, o bule de prata era posto na mesa e solteironas virgens, cujas mãos tinham estancado as chagas de Bermonsdey e Hoxton, mediam cuidadosamente uma, duas, três, quatro colheres de chá. Quando o Sol descia, um milhão de pequenas luzes a gás, com forma de ocelos das penas de pavão, acendiam-se nas suas gaiolas de vidro, mas mesmo assim persistiam no passeio largas extensões de negrume. A mistura da luz dos candeeiros e do Sol no poente reflectia-se por igual nas plácidas águas da Round Pound e da Serpentine. Pessoas que saíam para jantar fora, trotando na Ponte em cabriolés, olhavam por momentos a encantadora paisagem. Por fim, a Lua nascia e a sua moeda reluzente, apesar de obscurecida, de quando em quando, por fiapos de nuvens, brilhava com serenidade, com severidade ou, porventura, com total indiferença. Girando lentamente, como os raios de um holofote, os dias, as semanas e os anos iam passando, um após o outro, de extremo a extremo do céu.»

[Primeiro parágrafo do romance Os Anos, de Virginia Woolf, trad. de Fernanda Pinto Rodrigues, Presença, 2008]

Virginia Woolf em Nova Iorque

A exposição intitula-se This Perpetual Fight: Love and Loss in Virginia Woolf’s Intimate Circle e pode ser vista no The Grolier Club, em Nova Iorque. Abre no próximo dia 16, fecha a 22 de Novembro.
Se neste intervalo alguém quiser financiar a viagem de avião, o Bibliotecário de Babel terá todo o gosto em fazer uma reportagem e até uma entrevista in loco aos curadores (William Beekman e Sarah Funke).
Ouviram, ó mecenas escondidos?

PS – Eu sei que os mecenas escondidos, pela sua própria natureza (os esconderijos são insonorizados), nunca conseguem ouvir nada, mas não custa tentar.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges