Quatro poemas de Vítor Nogueira

REFÚGIO

Seja como for, só te podes culpar a ti mesmo.
De algum modo, sempre foste fascinado
pelas estrelas. Mas um céu nebuloso decidiu
juntar-se a ti, sombras opacas num jogo
complicado. Já não é como um vestido,
não podes espreitar por baixo. Setembro
traz consigo os dias curtos. Tens de encontrar
um refúgio, por mais pequeno que seja.

***

PAREDES

De repente não te sentes muito bem.
És a única pessoa numa sala cheia,
uma sala cheia de rostos que não se dissipam.
Estes retratos antigos deixam-te pouco à-vontade.
Ninguém sobe, ninguém desce, ninguém entra,
ninguém sai. E contudo, caro amigo,
todas as regras gerais têm excepções.
Talvez possas destruir o sistema só por gozo,
deixar os pregos sem nada, repartidos como estão
pelas paredes da sala. A memória, no entanto
(dentes grandes, aparelhos de colheita),
é mais forte e corajosa do que tu. Sentir isso
nas entranhas produz um grande vazio.

***

SEMENTES

É claro que me lembro. Havia dois atalhos
pelo meio do pinhal, direcções espantosamente
precisas, animais que não voltei a ver.

Enquanto as colheitas amadureciam nos campos,
havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio
para tratar certas lesões, uma peça vital
do equipamento. Havia girassóis à volta da casa
e as palavras imortais dos espantalhos, uma forma
de evitar que endoidecêssemos. E havia um muro
que era preciso saltar, a manhã gloriosa
da escalada, a ciência das grandes migrações.

Mas não vale a pena entrar em mais detalhes.
Este é o meu corpo. Esta é a minha mente.
Conhecem-se desde a infância e cumpriram pena juntos.

Do futuro nada sei. Apenas que vem aí.

***

FORMOL

A casa por sob o sótão. O sótão por sobre
a casa. A casa por sobre a rua. A rua por sobre
o mundo. À volta desta praça, quis o tempo
conservados em formol os edifícios, esquinas
de onde surgem cada vez mais perguntas
sem aviso. Escondida pela fachada do liceu
há-de estar ainda a velha biblioteca
onde Ulisses veio sentar-se à tua frente,
cotovelo esquerdo alicerçado no tampo
da secretária, braço servindo de coluna,
rematado em capitel pelo punho semicerrado
que lhe amparava o queixo e, acima do queixo,
o olhar e as ideias. Eras demasiado novo
para todos aqueles livros, todos aqueles ossos
arrumados nas estantes. Livros como este,
que se fecha sobre si e só dói a quem o escreve.

[in Segunda Voz, Averno, 2014]

Manual de pintura

Modo Fácil de Copiar uma Cidade
Autor: Vítor Nogueira
Editora: &Etc
N.º de páginas: 46
ISBN: 978-989-8150-34-9
Ano de publicação: 2011

Desde 2006 que Vítor Nogueira vem publicando todos os anos, alternadamente na Averno e na &Etc, livros que nunca são meras acumulações de poemas dispersos, mas antes obras pensadas como um todo, obedecendo a um conceito e a uma estrutura claramente definidos. Em Mar Largo (&Etc, 2009), tudo convergia para a calçada «tristalegre» da praça do Rossio, evocada de múltiplos ângulos e perspectivas, desde a memória dos homens responsáveis pela pavimentação à forma como as pedras negras e brancas assistem aos paradoxos do multiculturalismo – no que é hoje um «coração de Babel». O opus mais recente, Modo Fácil de Copiar uma Cidade, organiza-se à laia de um tratado de pintura antiga, com explícitas referências a teóricos da arte portuguesa dos séculos XVI (Francisco de Holanda), XVII (Filipe Nunes) e XVIII (Cirilo Volkmar Machado). Mas se há nestes poemas uma certa pátina vocabular e sintáctica, ela rapidamente é diluída pela inclusão de elementos do nosso tempo, que vão sabotando a suposta harmonia clássica das instruções e conselhos dados ao «pintor».
Estamos, escusado será dizer, no campo da reflexão sobre a arte e o papel do artista. O «modo fácil» de copiar a cidade resultaria da transferência directa desta para o papel («forçar / a realidade a caber nos seus desenhos»), respeitando as proporções e o rigor das malhas geométricas. Um cavalo, por exemplo, «é feito em quatro / compassos: um ao peito, dois ao ventre e um à anca». Falta depois escolher o que enquadrar e as tintas que se lhe adequam (para um casal de namorados, a «morte-cor», que é a «primeira tinta que se dá nas figuras»; para um par de viúvas, o «vermelhão»). Há sempre, porém, aspectos que a paleta não capta: as «terríveis» lições «sepultadas no passado», a verdadeira sombra da decadência, «os restos de quem aqui viveu». Porque «a parte melhor da pintura / não se pode ver de fora, nem sequer se faz com a mão, / apenas com a fantasia». É por isso que ao pintor se exige recato, sageza, a inteligência de deixar «muitas coisas por pintar». E quem diz pintor, diz poeta.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 110 da revista Ler]

Quatro poemas de Vítor Nogueira

À MANEIRA DE FILIPE NUNES

Para facilmente poderdes copiar uma cidade,
construí um quadrado com uma rede estirada,
de modo que as malhas fiquem todas direitas
na sua proporção. A seguir fazei num papel
a mesma rede com linhas. Depois procurai
o lugar de onde melhor se descubra a cidade,
os olhos e o quadrado num só ponto,
para que não percais a vista correcta do perfil.

Podereis então copiar facilmente. Porque
passareis a torre que fica numa malha da rede
para a malha que lhe responde no papel.
E fareis o mesmo a partir da outra malha
onde aparece a árvore. E assim podereis ir
pelas malhas, copiando a pouco e pouco.

***

À MANEIRA DE FRANCISCO DE HOLANDA

O dia é feito de deslizamentos, fantasmas
que emergem de cenários onde as cores
enlouqueceram. Mas o equilíbrio, quer dizer,
não é bem isto. Pintar é fazer perto o que está longe,
somente com duas linhas, uma recta e outra curva,
de modo que pareça estar numa tábua limpa
e lisa, ou num papel cego e franco, tudo aquilo
que não está. E assim mesmo com a razão
de duas coisas, porque de duas coisas
a pintura é formada, sem as quais é impossível
concluir alguma obra: a primeira é luz ou claro,
a segunda é escuro ou sombra.

***

TERRENO

Muitas vezes o pintor fica sozinho,
com o terreno à sua frente, acentuado,
e os demónios às bicadas na sua cabeça.
É a altura de arriscar, de subir
os degraus da escada óptica, de forçar
a realidade a caber nos seus desenhos.

É também, senhores, a parte mais perigosa
da escalada – seria mau momento
para a corda se partir. Como quem salta
de uma dor física para um amor perdido,
ter as mãos e os braços em farrapos
e poder subir ainda um pouco mais.

***

POMBO

Digam o que disserem, o grande vadio das cidades
é o pombo. Mistura-se com o fumo dos automóveis,
a luz dos cafés. Empoleira-se num busto
de homem célebre, o mesmo atrevimento
com que se mete num enfeite banal de cantaria.
Um dia bate as asas, lá se vai. Qual é o seu destino?
Sabe-se acaso o destino de uma asa que esvoaça?

[in Modo Fácil de Copiar uma Cidade, &Etc, 2011]

Na Ericeira, com o iate Amélia IV no horizonte

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Quem Diremos Nós que Viva?
Autor: Vítor Nogueira
Editora: Averno
N.º de páginas: 56
Depósito Legal: 317370/10
Ano de publicação: 2010

Os livros mais recentes de Vítor Nogueira organizam-se a partir de uma geografia urbana bem definida. Em Comércio Tradicional (Averno, 2008), há uma deambulação por lojas antigas: drogarias, cafés e barbearias melancolicamente à beira da extinção numa cidade do interior nunca nomeada, mas na qual facilmente se reconhece a transmontana Vila Real – cujo teatro é dirigido por Nogueira há vários anos.
Em Mar Largo (&Etc, 2009), a abordagem tornou-se quase toponímica: os poemas têm como cenário a praça do Rossio, em Lisboa, da sua pavimentação no séc. XIX à natureza multicultural («coração de Babel») que revela nos nossos dias.
Saindo novamente da capital, Quem Diremos Nós que Viva? assenta arraiais na Ericeira – «vasta hospedaria a sete léguas de Lisboa» – mantendo a dicotomia entre dois tempos: desta vez o presente e 1910, em particular a fuga de barco para o exílio inglês da família real, logo que a República foi implantada.
Assumindo os seus «recursos ficcionais», Nogueira convoca várias personagens históricas: D. Amélia, D. Sebastião, o profeta Bandarra (e a sua «perigosa profissão clandestina, acanhada / como o túnel que lhe foi dado escavar»), o regicida Buíça, o fotógrafo que captou o embarque, etc. Os poemas são predominantemente inquisitivos, avançando pergunta a pergunta através de um território de fantasmas, com chão «pouco firme, quase sempre a resvalar». Para prevenir mal-entendidos, o sujeito poético esclarece que é republicano: «só não encontra é razões para festejá-lo» quando o país está «caído no tapete», pronto para a «contagem final».
Não sendo fulgurantes, estes versos revelam o habitual rigor estilístico de Nogueira – um poeta nada ingénuo, para quem a poesia «não é coisa / que salve o mundo nem coisa que o comprometa».

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Pedras da calçada tristalegre

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Mar Largo
Autor: Vítor Nogueira
Editora: &Etc
N.º de páginas: 51
ISBN: 978-989-8150-16-5
Ano de publicação: 2009

Depois de ter escrito, em Comércio Tradicional (Averno, 2008), sobre o declínio de certos modos de vida e relacionamento humano nas cidades do interior, vítimas do progresso económico, Vítor Nogueira regressa a Lisboa – cidade que já fora o tema inspirador do seu penúltimo livro de poesia: Bagagem de Mão (& Etc, 2007). Com uma diferença significativa. Enquanto naquele exercício de deambulação baudelairiana o sujeito poético circulava por todo o lado (da Baixa a Alfama, de Monsanto ao Bairro Alto, não esquecendo o Centro Comercial Colombo), em Mar Largo o flâneur instala-se de armas e bagagens num único sítio: o Rossio, cujo padrão da calçada portuguesa dá título à obra.
É justamente este «ziguezague de pedra» branco e negro que estrutura o livro. Na primeira parte, Nogueira toma como motivo a história da pavimentação original (iniciada em Agosto de 1848, a mando de Eusébio Furtado), assumindo as vozes e os sofrimentos dos calceteiros à força, um vasto grupo de condenados que saíam com as suas grilhetas da prisão, no Castelo de São Jorge, para simularem, a golpes de martelo e muita pedra assentada, o movimento das ondas no chão de uma das mais belas praças da capital. É esse esforço, essa «energia fornecida à tempestade», que o poeta resgata do esquecimento: «Ninguém quer saber quem somos, / só do que somos capazes».
Na segunda parte, saltamos sete gerações para verificar que ainda há «destroços / do naufrágio» e que o Rossio continua a ser uma «encruzilhada», com outras misérias (os sem-abrigo aconchegados à fachada do Teatro Nacional, por exemplo) e outros desencantos. Num dos poemas, o «sujeito poético» está sentado na esplanada da pastelaria Suíça, subjugado pelo movimento de «homens e viaturas» e pela «cegueira branca de pálpebras e sol». A nordeste da praça, «grande harmónio crioulo que se contrai / e dilata», fica o «coração de Babel», o centro geométrico da desordem linguística e social. O ruído do mundo é ensurdecedor e o poeta integra-o na sua melancólica tentativa de fixar o inapreensível: «De súbito, um improvável grupo de zés-pereiras. / Não há, convenhamos, elegia que consiga resistir / a tantos bombos. Albo lapillo diem notare. / Marcar de novo certos dias com uma pedra / branca, os mais nefastos com uma pedra negra. / Calçada tristalegre de Lisbuna.» E só podia ser assim. Como fica insinuado umas páginas antes, a poesia, «isso de que às vezes nos acusam», nasce das suas próprias limitações e ignora as questões de escala: «Tanto pode ser um murmúrio / como o desabar de uma montanha.»

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 87 da revista Ler]

Vítor Nogueira nas Quintas de Leitura (e eu com ele)

Esta noite (22h00), no Teatro do Campo Alegre, Porto, as “Quintas de Leitura” acolhem a poesia de Vítor Nogueira, num espectáculo que rouba o título a um dos seus livros: Bagagem de Mão. Cabe-me a honra de apresentar a obra de Vítor Nogueira e de falar com ele sobre os três volumes publicados na Averno e &Etc.
As leituras serão feitas por Maria do Céu Ribeiro, Paulo Campos dos Reis, Pedro Lamares e Susana Menezes. De Berlim, chega a bailarina de sapateado Cristina Delius, acompanhada por Michel (acordeão) e Beatriz Serrão (percussão).
O espectáculo fecha com um concerto de 30 minutos de Shahryar Mazgani, que foi considerado um dos artistas mais promissores da Europa pela revista francesa Les Inrockuptibles.

Vítor Nogueira nas ‘Quintas de Leitura’ (Abril)

No próximo dia 23 de Abril, a sessão das “Quintas de Leitura” do Teatro do Campo Alegre vai ser dedicada a Vítor Nogueira. Os seus poemas vão ser ditos por Pedro Lamares, Susana Menezes, Maria do Céu Ribeiro e Paulo Campos dos Reis. Haverá ainda uma conversa e apresentação da obra, conduzida por mim, além da participação de vários convidados: Paulo Araújo (imagem), Mazgani (música) e Cristina Delius (sapateado, com acompanhamento do acordeonista Michel e da percussionista Beatriz Serrão).

Apolo e Gilgamesh em Vila Real

Comércio Tradicional
Autor: Vítor Nogueira
Editora: Averno
N.º de páginas: 45
Ano de publicação: 2008

Embora nunca seja nomeada, a cidade de província que Vítor Nogueira evoca neste livro é Vila Real (Trás-os-Montes), cujo teatro dirige há vários anos. Quem nunca tenha experimentado os deliciosos covilhetes e cristas de galo da Gomes, mítica pastelaria referida em dois dos poemas, dificilmente identificará o cenário destas deambulações urbanas. Mas isso pouco importa. A Vila Real que o autor descreve é em tudo semelhante a muitas outras povoações do interior do país: lugares onde os hábitos de convivência social se dissolvem à medida que vão fechando as pequenas lojas antigas, esmagadas pela aparição dos centros comerciais contruídos na periferia (junto às auto-estradas e aos IP’s), símbolos de um desenvolvimento económico tantas vezes ilusório.
Na sua «arrastada melancolia», este conjunto de poemas funciona como o canto do cisne de um mundo comercial em vias de extinção. Nogueira vai de porta em porta, da drogaria para o café e do café para a barbearia, etc., aos ziguezagues, encontrando pelo caminho uma galeria de figuras retratatadas a preceito: do emigrante que quer levar couves para a consoada em França aos clientes que entram à procura de um «sabão mais forte» (ou apenas de um golpe do destino que lhes ofereça os milhões da lotaria).
O que se ergue diante de nós, pouco a pouco, é «todo um ecossistema, uma rede infinita / de ligações humanas» que requer um observador sistemático, capaz de enquadrar as fotografias com «atenção aos pormenores». Nalguns casos, o poeta ouve falar da vida «esfregada a pedra-pomes» e do medo do progresso, que gere o mundo com «zeros e uns». Noutros, inventa nomes solenes (Apolo, Aquiles, Gilgamesh) para existências vulgares. Quanto aos versos propriamente ditos, elevam-se quase sempre acima das realidades descritas, oscilando entre a nostalgia e a metafísica, mas sem nunca se levarem demasiado a sério. Não há pathos que resista à urgência de «ir pôr moedas no parquímetro».
No fim, cumprem-se as profecias. Fecha o Excelsior, café dos anos vinte. Fecha a drogaria, «quartel-general» dos sábados. Quem não se resigna, entristece («Feridos abandonados no campo de batalha / despedem-se do chão onde aprenderam a fumar») ou ironiza («Andamos demasiado sensíveis. / Talvez devêssemos cortar na cafeína»). O título do último poema, “Franchising”, é já o sinal de uma derrota previsível, mesmo não sabendo «o que vão ser as cidades amanhã».

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 77 da revista Ler]

Dois poemas de Vítor Nogueira

MUSAS

Apolo, chamemos-lhe assim,
é caixeiro-viajante «por acaso», mas
quer tirar enfermagem. Diz que escreve poesia
– está visto, pode acontecer a qualquer um.
Em cima do escadote, o farol do comércio tradicional
organiza a prateleira das águas-de-colónia.
Tudo lhe parece um pouco excessivo.

Apolo insiste numa espécie de sermão
de Santo António aos desodorizantes:
alexandrinos e decassílabos,
arquitecturas de grande entusiasmo,
a nossa relação com a História,
seres iluminados que alcançam o Nirvana.

Mas, de novo, as leis do «acaso»
desempenham um papel importante:
pede-se ao dono do Fiat branco que o afaste,
ou será rebocado. Aí vai ele, o viajante.
De algum modo, a poesia é difícil para todos.
Basicamente, não fazemos a menor ideia
do que se passa no mundo.


RODA

«Naquele tempo só havia a quarta classe.»
Trabalha desde os doze e está com sessenta
e sete. Já foi trolha, motorista, sapateiro.
Na verdade, só tem medo das alturas.

Certo dia preparou a cabeça para poder
andar à roda. E partiu para o Luxemburgo.
«Há terras que a gente nem imagina que existem.»
Regressava quase sempre pela festa de S. Lázaro,

o presente e o passado a uma estrada de distância.
Com os anos percebeu uma coisa curiosa:
«os rapazes que ficaram queriam ter a minha vida
e eu queria ter a vida dos rapazes que ficaram.»

[in Comércio Tradicional, Averno, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges