Primeiros parágrafos

«Era uma vez um homem chamado Albinus que vivia em Berlim, na Alemanha. Era rico, respeitável, feliz; certo dia abandonou a mulher por causa de uma amante jovem; amava; não era amado; e a sua vida acabou em desastre.
Isto é a história toda e podíamos tê-la deixado por aqui se não fosse o proveito e o prazer no contar; e embora haja numa pedra tumular espaço de sobra para conter, encadernada em musgo, a versão resumida da vida de um homem, os pormenores são sempre bem-vindos.»

[in Riso na Escuridão, de Vladimir Nabokov, trad. de Telma Costa, Relógio d’Água, 2013]

Convite para uma aniquilação

O Original de Laura
Autor: Vladimir Nabokov
Tradução: Telma Costa
Editora: Teorema
N.º de páginas: 161
ISBN: 978-972-695-907-6
Ano de publicação: 2010

Há muito tempo que um livro não era tão comentado e questionado como este O Original de Laura, manuscrito inédito de Vladimir Nabokov que o filho, Dmitri, decidiu publicar no final de 2009, contrariando ostensivamente a vontade do autor de Fogo Pálido. Antes de morrer em Montreux, aos 78 anos, Nabokov exigiu a destruição do livro em que estava a trabalhar, caso este ficasse incompleto. Há mesmo uma folha, deixada junto às 138 fichas escritas a lápis que compõem o texto (felizmente também fac-similadas na edição portuguesa), com uma lista de sete verbos bastante explícitos: «apagar, erradicar, suprimir, anular, delir, limpar, obliterar». Em inglês, soa ainda mais forte: «efface, expurge, erase, delete, rub out, wipe out, obliterate».
Acontece que os testamentos dos escritores, como assinalou Milan Kundera, estão condenados a ser traídos. A viúva de Nabokov, Vera, que já salvara Lolita do incinerador umas décadas antes, recusou-se a queimar o trabalho do marido. Em vez disso, fechou-o no cofre de um banco suíço e deixou a decisão para o filho. Alguns anos após a morte da mãe, Dmitri parecia inclinar-se para o cumprimento da vontade paterna, mas acabou por autorizar a publicação do texto tal e qual, mesmo sabendo que este se encontrava num estado muitíssimo embrionário. A verdade é esta: se Nabokov e Kafka quisessem mesmo destruir as suas obras, tê-lo-iam feito por si mesmos. Ao delegar em Vera e Max Brod, a traição de que fala Kundera estava como que implícita.
Curiosamente, no esboço de narrativa que podemos encontrar em O Original de Laura, o tema central é a aniquilação. Não do próprio livro inacabado, como Nabokov desejava, mas do protagonista: Philip Wild, um professor de Psicologia Experimental, gordíssimo, incapaz de lidar com a promiscuidade sexual da mulher e atraído pela ideia do «suicídio feito prazer». Numa longa sequência de transes hipnóticos auto-induzidos, ele vai apagando partes do corpo (a começar pelos dedos dos seus pés «ridiculamente pequenos»; depois por aí acima, até ao umbigo) e descobrindo o maior dos êxtases nessa dissolução virtual, um êxtase que aos poucos vai sendo contaminado pela «ansiedade» e pelo «pânico». Segundo o narrador, esta forma de «cortejar» a morte pode ser «atípica», mas impunha-se ser contada «em honra da sua estranha lógica».
Como se depreende da introdução escrita por Dmitri, as tribulações físicas imaginárias de Wild reflectem o sofrimento real de Nabokov nos últimos anos de vida, o que confere a estas passagens uma carga quase metafísica, na desesperada tentativa de dar um sentido à consciência do fim próximo. Quanto a Flora, mulher de Wild e seu «objecto de terror e ternura», é uma beldade que aos 12 anos já despertava os instintos carnais do amante da mãe (chamado Hubert H. Hubert, piscadela de olho ao Humbert Humbert de Lolita). Aparentemente, o seu desígnio é humilhar Wild, que a vê transformada em Laura, a heroína adúltera do romance escrito por um dos muitos namorados ocasionais, «homem de letras neurótico e hesitante».
Pulsão de morte, ninfetas, sexo, livros dentro do livro, eis um território tipicamente nabokoviano. O problema é a escrita: sem brilho, quase sinóptica, muito em bruto. Há alguns bons fragmentos (por exemplo, a descrição da anatomia de Flora, com os seus «mamilos pálidos e estrábicos»), ocasionais rasgos de génio e pelo menos uma cena memorável (em que Philip dificulta o trabalho ao criado que o veste todas as manhãs), mas o tom geral é cinzento e a escrita desconjuntada, amorfa, quase banal. Nabokov era um perfeccionista que burilava estilisticamente os seus textos até à perfeição. Lê-lo assim, num estádio tão precoce do seu elaborado processo criativo e tão distante do que seria a obra final, não deixa de constituir uma violência.

PS – O fac-símile das 138 fichas manuscritas é o que salva esta edição e a torna algo mais do que uma curiosidade para fãs absolutos do escritor russo. À Teorema, agradece-se a qualidade do papel e das reproduções, que permitem apreciar a caligrafia cuidadosa e muito legível de Nabokov, bem como os seus erros ortográficos, as suas emendas e rasuras, os acrescentos e rectificações, enfim, o texto enquanto work in progress. Por outro lado, o facto de ser tão fácil cotejar o original com a versão portuguesa deixa Telma Costa em maus lençóis, porque rapidamente percebemos que a tradutora compromete (se não sempre, quase sempre) a musicalidade e elegância das poucas frases deste livro que são dignas do seu autor.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«O marido, respondeu ela, também era escritor – pelo menos, por capricho. Os homens gordos batem nas mulheres, diz-se, e ele tinha sem dúvida um ar feroz quando deu com ela a vasculhar os seus papéis. Fingiu que deixava cair um pisa-papéis de mármore e esmagava aquela débil mãozinha (mostrando a mãozinha em movimento febril). Na verdade, ela procurava uma estúpida carta comercial, nem por sombras tentava decifrar o seu misterioso manuscrito. Oh, não, não era uma obra de ficção, coisa para alinhavar à pressa, sabe, para fazer dinheiro; era o testamento de um neurologista louco, uma espécie de Opus Venéfico, como naquele filme. Tinha-lhe custado, e custar-lhe-ia ainda, anos de trabalho, mas a coisa era, evidentemente, absoluto segredo. Se falava sequer nisso, acrescentou ela, era só por estar bêbeda. Queria que a levasse a casa ou, de preferência, a um sítio simpático e sossegado com uma cama limpa e serviço de quartos. Vestia um vestido sem alças e sandálias de veludo preto. O peito do pé nu era tão alvo como os ombros jovens. A festa parecia ter degenerado numa porção de olhos sóbrios que a fitavam com malévola compaixão de todos os cantos, de cada almofada e cinzeiro, até das colinas da noite primaveril enquadrada pelas portas abertas da varanda. Mrs. Carr, a anfitriã, ia dizendo que pena Philip não ter podido vir ou Flora não o ter convencido a vir! Para a próxima, posso drogá-lo, disse Flora enquanto remexia o seu assento à procura da pequena bolsinha de soirée sem forma, um cãozinho preto cego. Está aqui, exclamou uma rapariga anónima, agachando-se de repente.»

[in O Original de Laura, de Vladimir Nabokov, tradução de Telma Costa, Teorema, 2010]

As capas de ‘Lolita’

Analisadas pelo próprio Nabokov (num filmezinho delicioso) e por Pedro Marques, do excelente blogue Montag, aqui.

Professor Nabokov

E se de repente me colocassem à frente uma máquina do tempo sofisticadíssima, capaz de transportar num ápice o viajante, eu, para o centro de um qualquer acontecimento histórico à escolha? Que indicações dar ao taxista da quarta dimensão? Eis um exercício especulativo dos mais inúteis, tendo em conta que a probabilidade de uma tal geringonça vir um dia a existir, assim disponível para o cidadão comum, é dez elevado a muitos zeros inferior à probabilidade de ganhar cinco vezes seguidas o totoloto.
De qualquer das formas, não vá o diabo tecê-las, ando com uma listinha no bolso. Por questões de feitio, exclui à partida as grandes batalhas (Aljubarrota, Lepanto, Waterloo, o Dia D) e aqueles outros momentos que mudaram de facto o rumo da História (tratados, concílios, armistícios, revoluções). O que me interessa é a escala humana, o feito individual. Seguir Sócrates pelas ruas de Atenas, entrar no atelier de Piranesi, ver a maçã de Newton a cair (se é que houve maçã) e Beethoven às voltas com o opus 132. Ou então, coisas mais simples e públicas: assistir à escandalosa estreia da Sagração da Primavera, de Stravinsky, em Paris, 1913. Ou ainda mais modestas: partilhar, num anfiteatro repleto de alunos, as lições de um grande professor. A Física explicada por Richard Feynman. Ou a grande literatura sob a lupa de Vladimir Nabokov.

Neste último caso, à falta de tecnologia que me transporte meio século para trás, para o passado, posso sempre valer-me das Aulas de Literatura (Relógio d’Água, 2004), um volume que reúne as palestras sobre Ficção Europeia dadas pelo autor de Pnin na Universidade de Cornell, entre 1953 e 1958 (o ano de Lolita, cujo enorme sucesso lhe deu estabilidade económica, permitindo que se afastasse definitivamente do ensino académico). Na sua cadeira, Nabokov propunha-se «analisar com amor, em pormenor dedicado e vagaroso, algumas obras-primas europeias». A saber: Mansfield Park, de Jane Austen; Bleak House, de Charles Dickens; Madame Bovary, de Gustave Flaubert; O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson; Do Lado de Swann, de Marcel Proust; A Metamorfose, de Franz Kafka; e Ulisses, de James Joyce.
Os textos que Fredson Bowers editou, a partir das intrincadas notas de Nabokov (quase todas manuscritas), não correspondem a um trabalho literário final, devidamente polido. Ao contrário das aulas sobre Almas Mortas e O Capote, que foram integradas no ensaio dedicado ao «mais estranho poeta prosador que jamais produziu a Rússia» (Nikolai Gógol, Assírio & Alvim, 2007), estas «prosas faladas» aparecem-nos em estado bruto, tal como eram transmitidas oralmente aos seus alunos, mas nem por isso deixam de ser um testemunho da inteligência analítica e subtileza argumentativa de Nabokov. Fiel às suas premissas enquanto autor, não lhe interessa discutir o que está «à volta» dos livros (generalizações e enquadramentos sociopolíticos) mas apenas o «coração vivo do assunto», a «essência» de uma obra, que para ele se resume a dois aspectos: o estilo e a estrutura. Recorrendo ao close reading, Nabokov ilumina os alicerces da escrita romanesca alheia com a sabedoria e intuição de quem conhece os segredos do ofício, procurando a «tessitura interior», a verdade última que se esconde nos pequenos detalhes. Para compreender Jane Austen, diz-nos, é preciso visualizar as mobílias do quarto de Fanny Price, protagonista de Mansfield Park. Em Ulisses, convém traçar no mapa de Dublin as deambulações de Leopold Bloom e Stephen Dedalus. O estudo do texto de Kafka passa por diagramas (a planta do apartamento dos Samsa) e por desenhos entomologicamente correctos do protagonista transformado em insecto.
Nabokov começava cada semestre com um aviso: «Não falem, não fumem, não façam tricot, não leiam o jornal, não durmam e, por amor de Deus, tirem apontamentos.» A julgar pelas evocações de antigos alunos que John Updike cita no prefácio, ninguém dormia nas aulas (muito pelo contrário). A própria mulher de Updike, que chegou a assistir às palestras a arder de febre, recorda: «Sentia que ele me podia ensinar a ler. Acreditava que ele me poderia dar algo que duraria toda uma vida – e deu.»

[Texto publicado no n.º 88 da revista Ler]

Teorema vai editar romance inédito de Nabokov

The Original of Laura, um romance que Vladimir Nabokov deixou inacabado, foi há uns meses o foco de uma das mais acesas controvérsias literárias dos últimos tempos, centrada em saber se Dmitri Nabokov, filho único e herdeiro do grande escritor russo, devia respeitar a vontade do pai e queimar o manuscrito ou, pelo contrário, salvar da destruição uma potencial obra-prima (ver pormenores da história aqui e aqui).
Após muitas indecisões e uma estranha conversa imaginária com o progenitor, Dmitri optou pela via Max Brod: ignorou o pedido feito por Vladimir às portas da morte e autorizou a publicação do livro. Esta publicação acontecerá no Outono de 2009, tanto nos EUA e Reino Unido (o que já se sabia) como em Portugal.
Carlos da Veiga Ferreira, editor da Teorema, garantiu ao Bibliotecário de Babel que teremos acesso à obra ao mesmo tempo que os leitores americanos e ingleses, numa versão traduzida por Telma Costa, que ganhou o Grande Prémio de Tradução do P. E. N. Clube Português, em 1996, com um outro romance de Nabokov: Fogo Pálido.

Nabokov on Kafka

Ou de como Christopher Plummer um dia acordou transformado em Vladimir.
O filme continua assim:

«(…) but here Gregor’s sight begin to fail…» e ficamos em suspenso, o ecrã vai a negro, também a nossa vista falha. Se alguém souber onde se pode encontrar o resto desta metamorfose (do actor a meter-se no corpo, na voz, nos modos do romancista russo; e de uma aula transformada em notável documento audiovisual), por favor avise-me.

Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta.

Alexandre Soares Silva é um cara legal (o itálico aqui, para o caso de estarem distraídos, significa pronúncia-do-outro-lado-do-Atlântico). Então não é que hoje, dia de folia total para os brasileiros, ele se lembrou de mostrar o caminho para quatro ficheiros de mp3 através dos quais podemos ouvir a primeira parte de Lolita, numa leitura em voz alta de Jeremy Irons?
Obrigado, Lord ASS.
E por falar em Nabokov, será que o filho já decidiu o que fazer do tal manuscrito que está fechado num cofre suíço?

Anatomia de um génio

gogol.jpg

Nikolai Gogol
Autor: Vladimir Nabokov
Tradução: Carlos Leite
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 223
ISBN: 978-972-37-1227-8
Ano de publicação: 2007

A maioria das biografias começam pelo princípio. Vladimir Nabokov, na sua abordagem à vida e obra de Nikolai Gogol, começa pelo fim. Isto é, pela crua descrição dos últimos momentos do escritor, que morreu aos 42 anos, meio enlouquecido e massacrado pelos médicos que lhe aplicaram horrendas sanguessugas no nariz (o herói de várias das suas histórias).
Se o mundo de Gogol estava sempre às avessas, faz sentido que Nabokov, ele próprio um heterodoxo, vire tudo de pernas para o ar neste livro fragmentário e sem fio condutor. Mais do que um retrato de Gogol, este é um espelho partido em mil pedaços, um feixe de “notas” em busca do sentido profundo da escrita, uma aproximação feita de sageza e respeito, um exemplo de inteligência literária.
Embora siga vagamente o percurso biográfico de Gogol, saltando por cima de uma infância sem interesse e concentrando-se na forma como o escritor lidou quer com a mãe quer com os seus demónios (expressos na tardia deriva religiosa e no pavor de não concluir a obra-prima que todos esperavam dele), o foco de Nabokov incide quase exclusivamente nas principais obras que o escritor deixou: a peça O Inspector-Geral, o primeiro volume das Almas Mortas e O Capote.
“Antes de Gogol e Puchkin, a literatura russa era cega”, afirma-se. Em oito décimos deste livro magnífico, o que o autor de Lolita faz é uma exegese brilhante do modo como Gogol conseguiu abrir os olhos (ou, se quisermos, os horizontes) de uma língua que parecia conservada no formol do classicismo.
Mais do que nas intrigas, o verdadeiro interesse dos seus livros está nas “curvas da sintaxe” e na forma como vai criando “personagens periféricos” em “passagens que rebentam literalmente de gente miúda que irrompe aos trambolhões e se espalha por toda a página (ou que cavalga a pena de Gogol como uma bruxa a vassoura)”.
O que Nabokov nos dá a ver, através de um meticuloso close reading, é o génio em acção, a abrir caminhos novos e a inverter a lógica racional que nos limita e escraviza. Mudanças de foco, saltos para a frente, deslizamentos, toda esta vertigem pode ser resumida numa frase: “Imagine-se um alçapão que se abre sob os nossos pés com um repente absurdo, e uma rabanada lírica de vento que nos ergue no ar e nos deixa cair com um baque no alçapão seguinte.”
É assim a escrita de Gogol: um “fenómeno de linguagem e não de ideias”. Razão para Nabokov se insurgir contra todas as apropriações, seja de quem o dizia “realista”, seja de quem reduziu a complexidade desta ficção ao mero veículo de uma denúncia de cariz social.
Diante do “mais estranho poeta prosador que jamais produziu a Rússia”, é inútil tentar resolver enigmas. Mas vale a pena aprender a dizer “Gó-gol” em vez de “Go-gól”. Porque “não se pode esperar compreender um autor se nem sequer se for capaz de pronunciar o seu nome”.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista Time Out Lisboa]

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O dilema

Max Brod passou pelo mesmo: queimar ou não queimar, that is the question.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges