Uma tragédia em surdina

Vieram como Andorinhas
Autor: William Maxwell
Título original: They Came like Swallows
Tradução: Rita Almeida Simões
Editora: Sextante
N.º de páginas: 128
ISBN: 978-972-25-2271-7
Ano de publicação: 2011

No ano passado, a Sextante colmatou uma estranha lacuna editorial, ao publicar pela primeira vez no nosso país um livro de William Maxwell (1908-2000), extraordinário escritor que ficou essencialmente conhecido por ter editado a ficção da revista New Yorker durante quatro décadas, embora hoje muitos lhe reconheçam um lugar de destaque na história da literatura norte-americana do séc. XX. Depois do último romance (Adeus, Até Amanhã), sobre os erros do passado que podem perseguir-nos uma vida inteira, chega agora o segundo, Vieram como Andorinhas (bem traduzido por Rita Almeida Simões), um prodígio de delicadeza estilística e precisão narrativa, escrito quando Maxwell ainda não chegara aos 30 anos.
A acção do livro decorre numa pequena cidade do Illinois, durante a grande epidemia de gripe espanhola (1918). Maxwell começa por nos mostrar a vida dos Morison pelos olhos de Bunny, oito anos, o benjamim da família. Para a criança, a casa é um universo que se submete aos caprichos da sua imaginação. Os sons, as sombras, os reflexos nas janelas, os padrões dos tapetes, tudo ganha uma dimensão mágica. Mas depois há a realidade propriamente dita, esse nebuloso mundo dos adultos que Bunny, mesmo quando finge dormir e fica a ouvir as conversas dos crescidos, não consegue discernir. Porque eles comunicam através de «acenos e silêncios», dizendo as coisas por meias palavras ou nem isso (para o rapazinho, a gravidez da mãe só se torna evidente quando ela se põe a coser o que pareciam panos de cozinha e afinal são fraldas).
Mesmo quando transfere o ponto de vista para Robert, o filho mais velho (marcado pelo acidente em que perdeu uma perna), e para James, o pai austero, Maxwell nunca abandona este registo de absoluta contenção expressiva, em que as verdades são intuídas, mais do que reveladas. A doença e morte da mãe, pilar da família, é por isso uma tragédia narrada em surdina, com uma subtileza e um recato que só tornam mais comovente o desamparo e a dor de quem não sabe como sobreviver a tamanha perda.
Parafraseando o que escreveu Jorge Luis Borges no prólogo a um livro de Adolfo Bioy Casares (A Invenção de Morel), classificar Vieram como Andorinhas como um livro perfeito não me parece uma imprecisão ou uma hipérbole.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]

Primeiros parágrafos

«Bunny não acordou de uma só vez. Um som (de quê, não sabia) atingiu a superfície do seu sono e afundou-se como uma pedra. O sonho esvaeceu, deixando-o desperto, preso, na cama. Virou-se, impotente, e enfrentou o tecto. Tinha rebentado um cano durante o Inverno anterior, e agora via-se o contorno de um lago amarelo. Enquanto Bunny o observava, o lago transformou-se numa ave de cabeça emplumada e penas dispersas na cauda. Quando as mudanças cessaram, os olhos de Bunny vaguearam pelo papel de parede azul e branco até à outra cama, onde Robert ainda dormia. Demoraram-se por momentos nos lábios apartados de Robert, no seu rosto esgotado e vazio do sono.»

[in Vieram Como Andorinhas, de William Maxwell, trad. de Rita Almeida Simões, Sextante, 2011]

O carrossel da memória

Adeus, Até Amanhã
Autor: William Maxwell
Título original: So long, see you tomorrow
Tradução: Miguel Castro Caldas
Editora: Sextante
N.º de páginas: 140
ISBN: 978-989-676-028-1
Ano de publicação: 2010

Mais vale tarde do que nunca. Inexplicavelmente inédito no nosso país, William Maxwell (1908-2000) chega agora aos leitores portugueses com a edição do último – e talvez o melhor – dos seus seis romances: Adeus, Até Amanhã. Maxwell foi o editor de ficção da The New Yorker durante quatro décadas, o que lhe permitiu trabalhar com Vladimir Nabokov, J. D. Salinger, John Updike, Frank O’Connor, Isaac Bashevis Singer, entre outros. Profundo conhecedor dos mecanismos da ficção alheia, ele usou o crivo qualitativo da revista nova-iorquina para a sua própria prosa, cuja beleza, contenção e rigor estilístico saltam à vista desde as primeiras páginas.
Adeus, Até Amanhã parte de um crime de sangue cometido em Lincoln (Illinois) no início dos anos 20. Clarence Smith, rendeiro nos arredores da cidade, mata um vizinho, Lloyd Wilson, que se envolvera amorosamente com a sua mulher. O narrador começa por alternar esta história, cujos detalhes desenterra em recortes dos jornais da época, com a evocação da sua vida na altura, marcada pela morte da mãe – ainda um trauma por resolver no momento em que escreve, meio século mais tarde – e pela relação difícil com o pai, que volta a casar. Mas a razão para pôr o «carrossel» da memória em movimento é outra: a tentativa de emendar um acto errado. Filho do assassino, o melhor amigo, Cletus, abandona a cidade sob o peso do opróbrio que lhe caiu em cima e o narrador, ao reencontrá-lo numa escola de Chicago, anos depois de terem sido «separados por aquele tiro», não o cumprimenta.
Esta cobardia causa-lhe remorsos que só são mitigados com a tentativa de reconstituir o «testemunho que ele [Cletus] nunca foi chamado a fazer». Regressamos então à história do triângulo amoroso fatal, mas contada com os instrumentos da ficção. O narrador imagina-se na pele dos vários intervenientes, incluindo a cadela da família Smith. E traz à luz o que a suposta objectividade dos factos por vezes omite. Isto é, o facto de «as pessoas muitas vezes não terem escolha».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 97 da revista Ler]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges