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O blogue Poesia & Lda. de vez em quando oferece-nos, sem estarmos à espera, pequenas grandiosas maravilhas. É o caso deste post, com seis poemas de Wisława Szymborska ainda inéditos em português, traduzidos por Teresa Swiatkiewicz. São todos magníficos e de leitura obrigatória, mas eu não resisto a transcrever os que mais me impressionaram:

ADOLESCENTE

Eu – adolescente?
Se, de repente, aparecesse aqui, agora, diante de mim,
saudá-la-ia como pessoa que me é próxima,
embora seja, para mim, estranha e distante?

Verter uma lágrima, beijar-lhe a testa
pela simples razão de termos
a mesma data de nascimento?

Tão poucas semelhanças entre nós,
quiçá, apenas os ossos são os mesmos,
a caixa craniana, as órbitas.

Já que os olhos dela parecem maiores,
as pestanas mais compridas, ela mais alta
e todo o seu corpo revestido
com uma pele lisa, sem mácula.

Na verdade, ligam-nos parentes e conhecidos,
no mundo dela, porém, quase todos estão vivos,
enquanto no meu já não há quase ninguém
deste círculo que tínhamos comum.

Somos tão diferentes uma da outra,
pensamos e falamos sobre coisas tão diferentes.
Ela pouco sabe –
mas com uma teimosia digna de melhores causas.
Eu sei muito mais –
mas sem nada saber ao certo.

Mostra-me uns poemas,
escritos com letra clara e cuidada,
como já há muito eu não escrevo.

Leio esses poemas e leio.
Bem, talvez este daqui,
se o reduzirmos
e corrigirmos aqui e ali.
O resto nada de bom augura.

A conversa está difícil.
No seu pobre relógio,
o tempo ainda é vacilante e barato.
No meu, já é muito mais caro e preciso.

Na despedida nada, um breve sorriso
e nenhuma comoção.

Somente quando se afasta
e, apressada, se esquece do cachecol.

Um cachecol de pura lã,
às riscas coloridas
feito em croché para ela
pela nossa mãe.

Ainda hoje o tenho.

***

VERMEER

Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum,
em quietude pintada e concentração,
dia após dia, não verter o leite
do jarro para a vasilha,
o Mundo não merece
o fim do mundo.

***

A MÃO

Vinte e sete ossos,
trinta e cinco músculos,
cerca de duas mil células nervosas
em cada uma das pontas dos cinco dedos.
É quanto basta
para escrever ‘Mein Kampf’
ou ‘A Casinha do Ursinho Puff’.

Wisława Szymborska (1923-2012)

Prémio Nobel da Literatura em 1996, a poeta polaca Wisława Szymborska morreu ontem, em Cracóvia, de cancro. Como lembra o obituário do The Guardian, o comité da Academia Sueca chamou-lhe o «Mozart da poesia», mas com «alguma coisa da fúria de Beethoven». No discurso de aceitação do Nobel, disse: «Na linguagem da poesia, em que cada palavra é pesada, nada é usual ou normal. Nem a simples pedra, ou a simples nuvem que paira por cima dela. Nem o simples dia ou a noite que vem depois. E sobretudo, nem a simples existência, nem a existência de seja quem for neste mundo.»
A sua poesia era directa, olhava de frente para as coisas, para os gestos quotidianos, para a beleza escondida nas brechas da realidade – nunca esquecendo que a poesia é um «corrimão providencial» a que se agarram muito poucos (uma resoluta minoria), mas que ainda assim vale a pena desenhá-lo no ar, a esse corrimão, com palavras.

ALGUNS GOSTAM DE POESIA

Alguns —
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve,
e os próprios poetas
serão talvez dois em mil.

Gostam —
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia —
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

(Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves para a antologia Alguns gostam de poesia, com poemas de Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, edição Cavalo de Ferro, 2004)

E agora algumas palavrinhas de Wislawa Szymborska

ALGUNS GOSTAM DE POESIA

Alguns —
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam —
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia —
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

[in Alguns gostam de poesia, antologia de Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, Cavalo de Ferro, 2004]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges