Hamlets a Prozac

Infidelidades – Três Peças em Um Acto
Autor: Woody Allen
Título original: Three One-Act Plays
Tradução: Helena Briga Nogueira e José Miguel Silva
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 127
ISBN: 978-989-641-137-4
Ano de publicação: 2009

Estas três peças em um acto – Riverside Drive, Old Saybrook e Central Park West (publicadas em 2003 nos EUA) – assinalaram o regresso de Woody Allen à escrita teatral, após um longo intervalo, e a um dos seus temas preferidos: a traição amorosa como escape ao tédio do casamento burguês, mais o respectivo cortejo de equívocos e tragédias sentimentais risíveis. Com as suas paranóias, inseguranças e excesso de lábia, as personagens destes textos parecem saídas de um dos filmes de Allen: são escritores falhados, dentistas, cirurgiões, psicanalistas, indivíduos mentalmente instáveis (do «psicopata imprevisível» ao bipolar que oscila entre a depressão e a euforia mais extremas), vendedoras de lingerie, contabilistas que no fundo são poetas (e até já escreveram «poemas sobre os riscos do colesterol»); enfim, uma galeria de nova-iorquinos razoavelmente sofisticados e melodramáticos, agindo o tempo todo, ou quase, como «Hamlets que andam a Prozac».
Em cada uma das peças, há como que um descarrilamento da acção que provoca os mais variados – e eficazes – efeitos cómicos. Na primeira, o encontro entre um argumentista adúltero (Jim) que se quer ver livre da amante e um sem-abrigo lunático (Fred) começa com uma discussão em torno dos existencialistas franceses (Sartre, Camus) para depressa se chegar, sem que percebamos muito bem como (o tal descarrilamento é um processo gradual), a mirabolantes conjecturas sobre o crime perfeito. Allen domina quer os tempos dramatúrgicos (com abundância de quiproquós típicos do vaudeville) quer a arte do diálogo e da converseta (small talk), combustível primeiro destas «farsas sexuais».
O grande gozo do leitor/espectador está na vertiginosa sucessão de piadas certeiras. Por exemplo, quando Fred sugere que Jim assassine a amante chantagista, a reacção é a que se esperaria. «Mas ela é um ser humano», diz o adúltero. Ao que o outro responde: «Diz isso como se fosse uma coisa boa.» Já no início de Old Saybrook, uma das personagens desabafa: «Detesto peças russas. Nunca acontece nada, mas pagas o mesmo que num musical.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no número 88 da revista Ler]

Boris & Melody

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O casal mais encantador e hilariante do ano: um pessimista radical com tendências suicidas, mas capaz de descobrir mais mundo para lá da misantropia, e uma rapariga do Mississipi, com QI de lampreia, que até aprende umas coisitas sobre Física Quântica.
Dito de outro modo, é Woody Allen de regresso, em boa forma, ao seu habitat natural (Nova Iorque, claro). Há muito tempo que não me ria tanto, às gargalhadas, numa sala de cinema.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges