O bater de asas de uma borboleta no espelho retrovisor de um automóvel pode provocar a queda de um barco de recreio no telhado de um vizinho

São mesmo infinitas, as aplicações do Efeito.

O cartão mais do que perfeito

‘o apocalipse dos trabalhadores’

Estou muito curioso em relação ao novo romance do valter hugo mãe, que chegará aos escaparates das livrarias em Julho, com chancela da QuidNovi.
Depois da sórdida Idade Média, o presente precário. Ou seja, este tempo duro que é o nosso, com desemprego e imigrantes mal integrados (se bem percebi a ideia do trailer).

Let’s choose a trailer

Depois dos BiblioFilmes, é tempo de distinguir os melhores trailers de livros. O concurso já está aberto e as editoras, autores, leitores, agências de publicidade e escolas que queiram participar podem fazê-lo até ao fim deste ano.
Em jeito de incentivo e fonte de inspiração, o blogue organizador deixa alguns exemplos brilhantes. Como estes:


Dois casos de autores a fazer pela vida dos seus livros, com estratégias e destinatários radicalmente opostos.

Debate no Chiado

Os Booktailors estiveram lá e filmaram. Ver aqui e aqui.

Relâmpagos em busca de uma tempestade

cafe_muller.jpg

A primeira vez que assisti a Café Müller foi em 1994, quando Pina Bausch trouxe a Lisboa, então Capital Europeia da Cultura, uma retrospectiva dos seus principais trabalhos (A Sagração da Primavera, Kontakthof, Viktor), momentos para mim de pura descoberta e deslumbramento.
Uns anos mais tarde, em 1999 ou 2000 (já não sei precisar), escrevi um poema que viria a incluir no livro Nuvens & Labirintos, publicado pela Gótica em 2001. Era um exercício sobre o modo como as imagens de Café Müller permaneciam, já um pouco vagas nos contornos, mas ainda incandescentes, dentro do espectador que fui e sou. Imagens no fio da navalha, lutando contra o esquecimento, fixando na sua incerteza a beleza que um dia me comoveu.
Eis esse poema cuja precariedade ficava assumida logo no título:

MEMÓRIA, TALVEZ IMPRECISA, DE «CAFÉ MÜLLER»

O palco era uma desordem de cadeiras.
Havia corpos (seriam apenas dois?), corpos
lentos e desesperados – como náufragos.
Dido, sem Eneias, repetia a tragédia,
uma e outra vez. Os corpos rodavam,
indiferentes à sua própria magia, breves
relâmpagos em busca de uma tempestade.
Aquele não era, percebia-se, um lugar de
oráculos, certezas, declarações de amor.
Era um palco de cadeiras vazias.
Um deserto à espera de redenção.

No domingo passado, assisti de novo a Café Müller. Os seis bailarinos (sim, afinal são seis) reavivaram as imagens uma a uma, com os mesmos gestos, apenas feitos por corpos mais velhos. Pina Bausch lá ao fundo, como que desligada da acção, antecipando-a, foi mais do que nunca um fantasma ardendo na noite, com uma fragilidade sempre à beira do colapso. E os outros corpos desesperados (mas nem sempre lentos), agitando-se como náufragos; sim, como náufragos. Confirmei o que suspeitava: as duas figuras que melhor recordava, como que acima das outras, eram a rapariga sonâmbula e a personagem masculina (Dominique Mercy). Ela atirando-se para os braços dele, incapaz de a agarrar. Os dois atirando-se com estrondo contra uma parede. E a música de Purcell, a sua tristeza infinita: «Remember me but forget my fate.»
Quando cheguei a casa, procurei no YouTube e encontrei isto:

Escusado será dizer que em 1999 (ou 2000, tanto faz) ainda não existia YouTube.

[A última récita de Café Müller é hoje, pelas 18h00, no Teatro São Luiz; a lotação está esgotada]

Capítulo 7 (agora dito pelo autor)

E que voz, meus amigos, que voz.

Um francês à procura de Salinger

Frédéric Beigbeder, escritor, cronista e figura mediática (aparece muito na TV), viajou em 2007 para os EUA à procura de J. D. Salinger, o mais invisível e inalcançável dos escritores americanos. Registada por Jean-Marie Périer, a aventura deu um documentário. Eis o trailer:

Apesar da pose ostensivamente cool de Beigbeder, uma espécie de versão light de Bernard-Henry Lévy, o filme deve ter alguma piada. Pode ser que o DocLisboa o seleccione para a sua próxima edição.

Trailer do novo romance de Pepetela

O investimento na promoção online das novidades editoriais é cada vez maior em Portugal. Depois dos notáveis e precursores clips da Livros de Areia, é a vez de uma grande editora como a Dom Quixote apostar em pequenos filmes sobre os seus livros, colocados no YouTube. Será isto um vislumbre da futura estratégia de marketing das chancelas da LeYa?
Deixo-vos, como exemplo, o trailer do novo romance de Pepetela, O quase fim do mundo, neste momento a chegar às livrarias e com lançamento marcado para amanhã, na Fnac do Colombo (18h30):

Correntes d’Escritas por quem as faz (participantes - 2)

Carlos da Veiga Ferreira, editor da Teorema

Maria do Rosário Pedreira, editora da QuidNovi e poeta

Luís Filipe Cristóvão, gestor editorial, livreiro, poeta e blogger

Correntes d’Escritas por quem as faz (participantes - 1)

Ruy Duarte de Carvalho, vencedor do Prémio Casino da Póvoa (com o livro Desmedida, publicado pela Cotovia)

Manuel Rui, veterano entre os escritores veteranos (participa no encontro desde a primeira edição, em 2000)

Pepetela (Prémio Camões 1997)

Correntes d’Escritas por quem as faz (organização)

Luís Diamantino, vereador da Cultura da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim

Manuela Ribeiro, coordenadora do encontro e faz-tudo

Flor do Leblon

O boteco de João Ubaldo Ribeiro.

[Sugestão do leitor António Gregório]

Nabokov on Kafka

Ou de como Christopher Plummer um dia acordou transformado em Vladimir.
O filme continua assim:

«(…) but here Gregor’s sight begin to fail…» e ficamos em suspenso, o ecrã vai a negro, também a nossa vista falha. Se alguém souber onde se pode encontrar o resto desta metamorfose (do actor a meter-se no corpo, na voz, nos modos do romancista russo; e de uma aula transformada em notável documento audiovisual), por favor avise-me.

Ainda Dylan Moran

Ao constatar o meu notório entusiasmo com o humorista Dylan Moran, o leitor Luis Rodrigues pisca-me o olho e “recomenda vivamente” isto:

capa DVD Dylan Moran

Pois. Tendo em conta que falta menos de um mês para o meu aniversário (2 de Março), digamos que, enfim, não sei, pensem nisso. E entretanto deliciem-se com os primeiros minutos da coisa:

Rejeição

Eis o que pode acontecer quando o ego de um escritor é devastado por uma carta de recusa: 1) queda livre no desespero melodramático; 2) vingança contra o pérfido editor (respondendo-lhe na mesma moeda); 3) ressentimento a funcionar como impulso criativo (e regresso à escrita, que é como quem diz à estaca zero).
O sketch é mais um exemplo do brilhantismo de Dylan Moran, o Bernard da série Black Books.

Uma série que eu gostava de ver em horário nobre

Já passou na SIC Radical, meio escondida, na altura em que os Gato Fedorento por lá andavam. Chama-se Black Books, foi produzida pela Channel 4 e não tem rigorosamente nada a ver com os romances que o Gonçalo M. Tavares publica na Caminho. É uma sitcom à inglesa, desbragada e sempre a cair em espirais de nonsense, um mimo televisivo sobre uma livraria em que o livreiro faz tudo para afastar os clientes.
Veja-se, neste excerto, o fabuloso diálogo entre Bernard, o dito livreiro niilista, e um homem que quer comprar a obra completa de Charles Dickens com encadernação em couro, para condizer com o sofá.
Se eu fosse programador, exibia Black Books na RTP1, todos os dias, logo a seguir ao telejornal. É claro que me despediriam logo ao fim de uma semana (ou nem isso) mas seria uma semana (ou nem isso) absolutamente memorável.

Soundbyte (ou quase)

Simon Sebag Montefiore a falar, durante menos de um minuto, sobre o “jovem Stalin” e o livro em que analisa pormenorizadamente a forma como o “Pai dos Povos” ascendeu ao poder absoluto, deixando atrás de si um rasto de terror e morte.

Save our books. Buy them

Os livros não se limitam a falar uns com os outros. Quando as livrarias fecham, também encenam as suas “mortes literárias” preferidas.

[via O Melhor Anjo]

Alberto Manguel e as bibliotecas

Nem sei bem como, descobri este programa curto intitulado Café con Libros (creio que espanhol, mas não tenho a certeza). O episódio aborda de forma bastante engenhosa o livro La Biblioteca de Noche, de Alberto Manguel, cruzando depoimentos de várias pessoas que leram o livro, o descrevem e comparam as suas experiências pessoais com as do autor. O fascínio de Manguel com as bibliotecas (em pequeno queria ser bibliotecário, o que não surpreende quem conheça as suas obras) leva cada um dos colaboradores do programa a falar daquela que preferem ou na qual viveram melhores experiências. Todas as evocações são interessantes mas atentem, por favor, nos BiblioBurros da Colômbia, espécie de biblioteca itinerante da Gulbenkian em que as carrinhas Citröen foram substituídas por heróicos exemplos da persistência asinina. Uma delícia.

Hombre de Biblioteca

Uma aproximação visual ao conto A Biblioteca de Babel, de Borges, encontrada num recanto obscuro dessa outra estrutura quase infinita que é o YouTube.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges