O caminho que interessa

A primeira vez que soube da existência de Remainder, romance de estreia de Tom McCarthy (n. 1969), foi num ensaio de Zadie Smith, intitulado Two Directions for the Novel (incluído no livro Changing My Mind: occasional essays, Penguin, 2009). Nesse texto, Smith confronta dois romances que ela considera estarem nos antípodas um do outro: Remainder e Netherland, de Joseph O’Neill (Bertrand). Se este é um exemplo perfeito da tendência dominante na ficção anglófona contemporânea – o «realismo lírico» que acredita no «poder encantatório da linguagem» para revelar a «verdade» (numa linha que vem desde Flaubert e Balzac) –, o segundo é uma espécie de recusa militante dessa fé na literatura como instrumento capaz de «descrever o mundo com alguma exactidão» ou sentido de transcendência. Artista conceptual, além de escritor, McCarthy está claramente do lado dos vanguardistas (Robbe-Grillet, Georges Perec, John Barth, Thomas Pynchon, Donald Barthelme, entre outros). Se Remainder não chega ao ponto de assassinar o romance psicológico, mais os seus códigos artificiais, ele representa um forte abanão, que devia ser capaz de arrancar este género literário à sua actual complacência, resume Smith.
Lembro-me de rabiscar mentalmente uma nota: «ler Remainder, com carácter de urgência.» Queria verificar, por mim mesmo, a anunciada «desconstrução construtiva» dos paradigmas gastos. Mas entretanto outras urgências se interpuseram, como é costume, e a nota mental perdeu-se no labirinto caótico das minhas sinapses. Até que há cerca de um ano voltei a tropeçar em Tom McCarthy, então finalista do Man Booker Prize com C (Presença), magnífico romance sobre um homem, Serge Carrefax, que atravessa como um fantasma as grandes convulsões científicas, sociais e políticas do início do séc. XX. É um ser puramente reflexivo, amoral, obstinado em descobrir, no tecido complexo do mundo, padrões e códigos que o aproximem da sua identidade. Não muito diferente do narrador de Remainder, o tal livro adiado que acabei por comprar na versão para Kindle, depois de ter perguntado sem sucesso pela edição portuguesa (Estampa) em três livrarias de Lisboa.

Durante uma semana de férias na costa vicentina, conheci finalmente o improvável protagonista do primeiro romance de McCarthy. No fundo, um homem vulgar a quem acontecem coisas invulgares. Um dia, teve um acidente grave: uma coisa caída do céu deixou-o em coma. Sobreviveu, depois recuperou a custo parte da memória e toda a mecânica dos gestos. Quando os responsáveis pelo acidente lhe pagam uma choruda indemnização (oito milhões e meio de libras), sabe que pode fazer o que lhe der na gana. Então, ao ver uma racha na parede, decide-se. Aquela imagem despertou-lhe a recordação esquiva de um prédio onde em tempos terá vivido, num apartamento onde chegava o cheiro de fígado ao lume e as escalas de um pianista. Pela janela, gatos pretos sobre telhas vermelhas e, no pátio, um homem às voltas com a sua motocicleta. A ideia não é apenas resgatar a memória, mas refazer a realidade desse tempo perdido. O dinheiro permite-lhe contratar quem concretize os seus desejos, sem nunca os pôr em causa. Alguém que organiza tudo: a compra de um prédio semelhante, a sua transformação, a escolha e treino de actores que fritam fígado ou tocam piano. Mas isto não chega. Para se sentir vivo, para se sentir «real», o milionário entra numa escalada de obsessão e delírio, com recriações de outros momentos entretanto vividos ou de cenas-limite (um homicídio, o assalto a um banco). Eis a literatura enquanto simulacro total. Um simulacro que consegue ser surpreendentemente mais verdadeiro, na sua absurda objectividade, do que a fiável verosimilhança dos modelos narrativos clássicos.
Na praia menos concorrida da Zambujeira do Mar, houve um momento em que desejei ter oito milhões e meio de libras. Com essa fortuna, poderia encenar meticulosamente aquele minuto em que deitado na areia, com certo vento, certa luz e a presença difusa de uns 15 banhistas (vultos desfocados na orla da visão periférica), murmurei: «Tinhas razão, Zadie. Este livro é genial. E se o romance tem de ir por algum lado, que vá por aqui.»

[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]

Michael Chabon e Zadie Smith no The New Yorker Festival

As primeiras 20 páginas

Talvez porque venho adiando há demasiado tempo o impulso de começar um romance (mais por receio de ser incapaz de escrever um, admito, do que pela simples tendência para a procrastinação), gosto muito de ler o que os romancistas estabelecidos nos revelam sobre o seu ofício: diários, reflexões ensaísticas, conferências académicas, livros com títulos como Aspects of the Novel ou The Art of Fiction, chamo-lhes um figo. E leio de fio a pavio, tentando perceber não as regras gerais mas os casos particulares, a forma como os vários autores resolveram os seus problemas específicos, consciente de que em muitos casos permanecemos no território da ficção – ou da mitomania. Aliás, de um escritor não espero nunca sinceridade absoluta (se é que isso existe), mas agrada-me que seja generoso.
Encontrei o mais recente exemplo deste tipo de generosidade no número de Janeiro da revista Prospect: um artigo de quatro páginas, assinado por Zadie Smith, sobre a sua experiência de romancista. O texto, incluído no volume Changing my Mind: Occasional Essays (Hamish Hamilton, 2009), é uma versão de uma aula dada a estudantes da Universidade de Columbia, em Março de 2008. Ao longo de dez secções curtas, Smith aborda os vários estádios que o escritor atravessa durante a escrita de um romance. Ou, melhor dito, os vários estádios que ela, Zadie Smith, atravessa durante a escrita dos seus romances. Não há aqui generalizações, só as euforias e desesperos de uma experiência pessoal muito concreta, materializada em livros que têm visto a luz com intervalos consideráveis. A Dentes Brancos (2000), a apoteótica estreia aos 24 anos, seguiram-se apenas O Homem dos Autógrafos (2002) e Uma Questão de Beleza (2005).
Zadie começa por explicar que existem dois tipos de romancistas: os que programam tudo ao milímetro, fixando logo de início cada detalhe da estrutura narrativa e até a evolução do enredo (chama-lhes «Macro Planners»); e os que não prevêem nada à partida, os que começam na primeira frase e acabam na última, só avançando para um novo capítulo quando o anterior ficou definitivamente fechado (os «Micro Managers»). Ela pertence à segunda categoria e reconhece os riscos inerentes. «Quando começo um romance, sinto que ele não existe fora das frases que vou pondo no papel. Por isso tenho de ser muito cautelosa: toda a natureza da coisa pode mudar devido à escolha de umas quantas palavras.» No caso de Smith, esta responsabilidade desperta um estado obsessivo que se manifesta sobretudo nas primeiras 20 páginas, trabalhadas e retrabalhadas até definirem uma certa perspectiva, uma voz, um tom. O arranque é difícil, moroso, uma tortura, mas o esforço compensa porque a energia acumulada (como quando se dá corda a um carrinho de brincar) acaba por fazer o resto do romance. Em Uma Questão de Beleza, as fatídicas primeiras 20 páginas exigiram-lhe quase dois anos; as restantes quatrocentas e tal, uns meros cinco meses.
Há autores que preferem não ler nada enquanto escrevem. Smith, pelo contrário, alimenta-se das palavras alheias. Cola citações de Pynchon na porta do escritório, põe uma frase de Derrida no screen saver do computador, pega em Kafka, Nabokov ou Dostoievski como combustível para o seu próprio estilo. Depois, sem saber bem como, chega ao «meio do romance», esse inexplicável «estado de espírito» próximo do pensamento mágico, alienante, capaz de colapsar o tempo, acelerar a escrita e puxar a realidade do mundo para dentro do livro, resolvendo de repente os seus nós e dilemas. Já perto do fim, impõe-se um regresso às primeiras 20 páginas, para torná-las menos densas, menos explicativas, menos paternalistas em relação ao leitor. Daí para a frente, é só retirar os andaimes narrativos que foram ficando presos ao edifício, preparando a chegada do dia final, a libertação e a sua felicidade «sem adjectivos».
Da última vez que chegou a este ponto, Zadie abriu uma garrafa de Sancerre e deitou-se no quintal, a chorar, no meio das maçãs caídas. Foi há mais de cinco anos. Onde estará ela agora? Ainda às voltas com as 20 primeiras páginas ou já mais perto de tirar a rolha ao próximo vinho do Loire?

[Texto publicado no n.º 89 da revista Ler]

Dois caminhos

Partindo de dois livros recentes (Netherland, de Joseph O’Neill, e Remainder, de Tom McCarthy), Zadie Smith entrevê duas vias a explorar pelo romance contemporâneo. O ensaio longo, com mais de 50 mil caracteres, foi publicado na New York Review of Books e pode ser lido aqui.

Franz Kafka segundo Zadie Smith

Quando entrevistei Zadie Smith em Junho, num hotel de Lisboa, ela apareceu cheia de sono, desculpando-se com o cansaço acumulado e uma noite mal dormida. “Estive até muito tarde a trabalhar num ensaio, um texto longo que vou enviar em breve para um jornal inglês”, disse-me então. Suspeito que o ensaio fosse este, publicado há uns dias pelo Daily Telegraph. Eis um excerto, no qual Zadie põe em causa a forma como Max Brod quis condicionar a nossa leitura de Kafka:

«If few readers of Kafka can be truly sorry for the existence of the works Kafka had consigned to oblivion, many regret the manner in which Brod chose to present them. The problem is not solely Brod’s flat-footed interpretations, it’s his interventions in the texts themselves. For when it came to editing the novels, Brod’s sympathy for the theological would seem to have guided his hand.
Kafka’s system of ordering chapters was often unclear, occasionally non-existent; it was Brod who collated The Trial in the form with which we are familiar. If it feels like a journey towards an absent God – so the argument goes – that’s because Brod placed the God-shaped hole at the end. The penultimate chapter, containing the pseudo-haggadic parable “Before the Law”, might have gone anywhere, and placing it anywhere else skews the trajectory of ascension; no longer a journey towards the supreme incomprehensibility, but a journey without destination, into which a mystery is thrust and then succeeded by the quotidian once more.
Of course, there’s also the possibility that Kafka would have placed this chapter near the end, exactly as Brod did, but lovers of Kafka are not inclined to credit him with Brod’s variety of common sense. The whole point of Kafka is his uncommonness. Whatever Brod explains, we feel sure Kafka would leave unexplained, whichever conventional interpretation he foists on the works, the works themselves repel. We think of Shakespeare this way, too: a writer sullied by our attempts to define him. In this sense the idea of a literary genius is a gift we give ourselves, a space so wide we can play in it forever.»

Zadie Smith: “Dêem-me o Booker quando tiver 70 anos”

De passagem por Lisboa, para promover Uma Questão de Beleza (romance de 2005, editado pela Dom Quixote no final de 2007), Zadie Smith estava exausta. Entrevistas em bares de hotel são um tormento e quando chegou a nossa vez já tinha dado muitas. Talvez por isso, prestes a pegar nas malas de regresso a Roma, onde vive agora, a escritora que entrou de rompante na cena literária inglesa em 1995, aos 20 anos, recebeu-nos com um bocejo. Tememos o pior. Felizmente, a conversa teve o efeito da cafeína.

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O seu último livro de ficção foi publicado há três anos, o que para o vertiginoso mundo editorial de hoje é uma eternidade. Suponho que estejam sempre a dizer-lhe que já vai sendo tempo de voltar a escrever um romance.
Na verdade, acontece o contrário. Eu tenho a sorte de ter tido um certo sucesso, por isso ninguém me pressiona. A minha próxima deadline é só daqui a oito anos.

Tanto tempo?
Sim. Eles insistiram que era preciso ter uma meta qualquer, por isso respondi-lhes: “Ok, então talvez daqui a oito anos.” Aliás, neste momento nem sequer estou a escrever. Não esperem romances nos próximos tempos. Em Janeiro vou para Nova Iorque, ensinar na Universidade durante seis meses. Estou interessada em viver experiências diferentes. Viajo muito. E, além disso, ando a escrever desde os meus 20 anos. Acho que mereço um momento de pausa. Mas não vou abandonar a escrita de ficção. Isto é só um intervalo que aproveito para escrever ensaios. Talvez me decida a ter filhos. Enfim, tenho 32 anos e uma vida para viver.

Vantagens da precocidade.
Sim. Não tenho pressa. Há outras coisas em que tenho de pensar.

O seu processo criativo é lento?
Comparando com outras pessoas, não tenho a certeza. Há dias bons e dias maus. No caso de Uma Questão de Beleza, o começo foi lentíssimo. Levou-me dois anos. Já o resto foi num ápice: a maior parte do livro surgiu em poucos meses. Assim que as coisas começam a rolar, acabo por ser bastante rápida.

Há escritores que se dizem incapazes de viver sem a escrita. Não é, pelos vistos, o seu caso.
Nunca fui assim. Nunca. Não faz parte do meu carácter.

E às ideias ficcionais que lhe vão ocorrendo entretanto, o que é que lhes faz?
Hmmmm, a verdade é que neste momento não tenho ideias.

Nem uma?
Nem uma. Estou sempre a ler. Quando falou em não conseguir viver sem a escrita, se substituir a palavra “escrita” pela palavra “leitura”, então é verdade. Tenho que estar sempre a ler.

Ler é uma outra forma de escrita.
Para mim, é. Se me perguntar o que é que eu tenho andado a fazer, a resposta é: tenho andado a ler.

Considerando o extraordinário sucesso que teve enquanto jovem escritora, este seu silêncio não será uma estratégia para baixar um pouco as expectativas que recaem sobre si?
É muito mais simples do que isso. Sou preguiçosa.

Actualmente, a preguiça é um luxo.
Sim, é um luxo. Mas se está ao nosso alcance, porque não haveremos de o ter?

A sua infância foi passada num bairro pobre do norte de Londres. Como é que a adolescente Zadie decidiu um dia que queria estudar literatura inglesa em Cambridge?
Para ser sincera, até muito tarde eu nem sequer sabia o que era Cambridge. Tive muita sorte ao encontrar uma família no bairro, cuja história de resto está parcialmente contada em Dentes Brancos, que era muitíssimo bem educada. Eu nunca tinha encontrado pessoas assim. Eram pessoas de classe média, liberais, que foram muito corajosos ao mandar os filhos para uma escola que era um completo desastre. A minha escola. Em Inglaterra, há quem diga coisas muito cruéis sobre este tipo de pessoas, mas para mim eles são heróis. Porque miúdos como os deles, em escolas como a minha, ajudam toda a gente. Só com a sua presença, só com o simples facto de estarem ali, no meio de nós. Se não tivesse conhecido aquela família, nunca teria ido para Cambridge. E não faria de certeza o que faço hoje.

Consegue imaginar qual seria a sua profissão se não fosse escritora?
Provavelmente ensinaria numa escola do norte de Londres. Mas o mais estranho em relação à minha família, que já de si é estranha (por exemplo, tenho um meio-irmão e uma meia-irmã com 50 e tal anos, porque o meu pai, que já morreu, era tão velho que conseguiu ter uma família nos anos 60 e outra nos anos 80), o mais estranho em relação à minha família é que todos os filhos do meu pai são artistas: para além de mim, há uma pintora e três músicos… Ou seja, parece que se queres que os teus filhos se tornem artistas, o melhor é eles terem um pai operário e que não fala muito. Se o pai for um professor intelectual, o mais provável é que os filhos se tornem uns angustiados que sonham trabalhar ao balcão de um banco.

Quer dizer que teve sorte.
Sim, muita sorte. Já os meus filhos, coitados, estão condenados a ser bancários. (Risos)

Não cheguei a perceber como é que passou da escola desastrosa para Cambridge.
Eu sempre fui uma miúda esperta, mas o meu problema era a completa ausência de capacidade para a matemática. Se me perguntar quantos são 27 mais 13, vou levar um bom bocado a responder-lhe. Não sei fazer contas e sou um zero à esquerda em Ciências, por isso tinha noção de que a minha única capacidade era ler bem, com muita fluência, e perceber quase tudo o que lia. Usava esta capacidade para esconder as minhas limitações. Aos 15 anos, a tal família sugeriu-me que me candidatasse a Cambridge. Quando falei disso a uma professora, ela disse-me logo: “Quem é que tu pensas que és?” Uma atitude compreensível porque, há 30 anos, muitos daqueles professores também quiseram ir para Cambridge e não conseguiram. Vivem afundados na própria frustração e isso cria na escola uma cultura em que toda a gente é ensinada a não esperar demasiado da vida. Quando fui à entrevista, assumi que ainda não tinha os requisitos necessários, mas que faria tudo para os ter depois de entrar. Tive sorte por me terem deixado entrar.

Nessa altura já tinha mudado o nome, de Sadie para Zadie?
Mudei-o quando tinha 13 anos, mas apenas porque estava apaixonada por um rapaz cujo nome começava por Z. Pareceu-me uma boa ideia. Quando o primeiro livro foi publicado, a minha mãe queria que eu assinasse Sadie, porque é assim que toda a gente me trata, mas no último momento achei que era preferível que o livro não coincidisse exactamente comigo. O nome alterado introduz um minúsculo desfasamento que me agrada e protege. Mais tarde, descobri que há uma escritora inglesa, hoje com uns 75 anos, que se chama Sadie Smith. Tem graça.

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Ao chegar a Cambridge sentiu um grande contraste? Imagino que seja muito diferente do bairro no norte de Londres.
É muito diferente. Na minha faculdade deixavam entrar alguns miúdos das escolas públicas, como eu, mas também conhecia muitos dos outros, que vinham de colégios, porque eram miúdos judeus do norte de Londres. Quer dizer, não os conhecia assim tão bem, mas via-os em Hampstead Heath, aos sábados à noite, quando todos os miúdos e miúdas, independentemente da classe social ou da religião, se juntam para beber e para tentarem beijar-se uns aos outros. Foi engraçado voltar a ver aquela malta toda – dos putos intelectuais judeus aos paquistaneses de lentes grossas, maluquinhos por computadores – em Cambridge. O resto, o mundo dos tipos da classe alta, é que era de loucos. Nunca tinha visto nada assim.

Eram convencidos?
Para lá de convencidos. Eu achava que os putos intelectuais judeus se armavam em bons, mas ao pé daqueles passavam a ser o cúmulo da humildade.

Como é que se dava com essa espécie de casta?
Muito bem. Eu adoro miúdos convencidos. Sou completamente obcecada por eles. Estava sempre à espera que me convidassem para uma das suas casas de campo no Wiltshire. Era um mundo completamente exótico.

Foi nesse mundo que encontrou Nick Laird, o seu marido?
Na altura, era só um amigo numa situação parecida com a minha. Conheci-o, de facto, em Cambridge. E ele odiava tudo aquilo. Também vinha de uma má escola, mas na Irlanda do Norte, o que fazia dele um provinciano aos olhos dos outros. Apesar de tudo, eu crescera na grande cidade e em Cambridge isso era cool. Tinha tomado drogas, circulava por Londres. Nick, pelo contrário, estava perdido. Faziam piadas sobre ele, chamavam-lhe “batata” por ser irlandês. Odiavam-no e ele retribuía esse ódio.

Já falavam das vossas ambições literárias?
Uma das coisas mais misteriosas de Cambridge é que a universidade, embora seja conhecida por ter dado a Inglaterra alguns dos seus melhores escritores (como Wordsworth e outros), não tem uma revista literária nem sessões de leitura. Ninguém fala do assunto, embora toda a gente escreva. Só que essa escrita é secreta.

Isso deve-se a quê? Ao peso do passado?
Sim, ao peso do passado. Quando se anda a estudar os grandes génios, ninguém se atreve a dizer: “Ah, sabem uma coisa, eu também escrevo.” E esse peso é esmagador. Muitos estudantes, que vão para lá com o sonho de se tornarem escritores, desistem por causa disso. Naquele deserto, havia felizmente uma antologia anual, a May Anthology, que era uma iniciativa de estudantes tanto de Cambridge como de Oxford. O Nick foi editor num dos anos e escolheu uma história minha. Foi assim que nos conhecemos.

É verdade que nessa época ele ficou à sua frente num concurso literário?
Sim. Ele ganhou-o só para me chatear. (Risos) De qualquer forma, nós estávamos os dois à margem do que se fazia em Cambridge naquele tempo, que eram quase sempre coisas muito teóricas.

O Nick é um poeta que entretanto escreveu um romance. A Zadie é romancista. Alguma vez sentiu a tentação de escrever poemas?
Para mim, seria o mesmo que me proporem ser química ou física. Nunca acontecerá. Porque para mim a poesia não é só uma pessoa sentar-se e escrever tudo alinhado à esquerda. É outra coisa, é uma espécie de culto. O meu marido conhece Seamus Heaney e outros poetas irlandeses famosos. Quando eles se juntam num pub, se eu estiver lá, é como se estivessem a falar chinês. Sento-me e às vezes tento dizer qualquer coisa, mas não há ali um lugar onde eu caiba. Eles passam o tempo a fazer citações, falam de estruturas poéticas, aquilo para mim é um mistério absoluto.

Como é que lê então os poemas do seu marido?
Com muita dificuldade. Ele lê toda a minha ficção, eu leio toda a ficção dele. Mas não consigo dar-lhe opinião sobre a poesia. Ele diz que é porque me estou nas tintas, porque sou preguiçosa e obcecada por mim mesma. Em parte tem razão. Mas acontece também que não consigo dizer nada sobre os versos dele. No máximo, digo “Gosto” ou “Não percebo”. E geralmente é “Não percebo”.

Ele também escreve poemas de amor. É natural que os leitores a imaginem a si como destinatária.
Sim. Mas a verdade é que as mulheres nos livros dele são figuras ideais: muito femininas, muito doces. Ou seja, o exacto oposto daquilo que eu sou.

Isso não a incomoda?
Não, nada. Até porque acho que é impossível escrever sobre alguém que se conheça muito bem. Nunca me ocorreu transformar o Nick em personagem das minhas histórias.

Ele já aprendeu a lidar com o facto de toda a gente lhe chamar Mr. Zadie Smith?
Já, embora não seja nada fácil. O tempo acabará por diluir isso. Até porque sabemos, tanto eu como ele, que só a poesia é imortal. Pode não acontecer hoje, pode não acontecer amanhã, mas no fim os poemas ganham sempre. Eu consigo ver o Futuro, eu sei que é isso que vai acontecer. (Risos) E não me preocupo demasiado.

Entretanto, a fama e o reconhecimento estão sobretudo do seu lado. Ficou surpreendida quando se criou aquele enorme hype em torno do primeiro romance [Dentes Brancos]?
Fiquei, claro. Sobretudo com a história do leilão dos direitos entre várias editoras. Acontece que o hype não existe, é uma invenção, um exagero mediático para alimentar artigos de jornal. A maioria dos leitores nem sequer se apercebe dessas loucuras. Quanto ao adiantamento que recebi na altura, estou descansada porque retribui com as vendas o que me pagaram. Não devo nada a ninguém, estamos quites. O que me preocupa é saber que muitos jovens escritores também receberam grandes adiantamentos naquela altura, mas depois acabaram por vender pouco. Eles vão ser perseguidos pela ideia de que estão em dívida para com os seus editores.

No início, quando os direitos foram vendidos por uma fortuna, ainda só tinha uma parte do livro escrito. Não sentiu uma espada de Dâmocles a pairar enquanto terminava o romance?
A história do dinheiro nasceu de uma bolha especulativa do mundo editorial. Não voltará a acontecer. É verdade que escrever naquelas condições foi muito stressante, mas eu tenho uma grande força de vontade. Quando estou no processo de escrita, só me concentro em tentar que o livro seja bom. Quanto ao resto, não quero saber. Sinceramente. Não quero saber.

Nunca se sentiu paralisada pelo medo de falhar?
Eu não, mas a minha mãe vivia em pânico com a ideia de que eu não acabaria o livro, de que nos processariam e de que teríamos que devolver o dinheiro. Ela é sempre assim.

Acabou por lhe provar que o pânico era injustificado.
Sim. Mas a questão é que o dinheiro e a literatura não se devem misturar. Quanto é que vale a Ode a um Rouxinol [de John Keats]? Quanto é que vale o Rei Lear [de William Shakespeare]? São perguntas estúpidas. Uma coisa não deve ter nada a ver com a outra.

Com tanta expectativa criada em volta de Dentes Brancos, temeu o olhar dos críticos sobre o livro?
A questão é que eu tenho uma ideia bastante clara sobre a qualidade daquilo que faço. Eu sei o tipo de romance que Dentes Brancos é. Bom numas partes, muito mau noutras. Não me interessa o que os outros possam dizer, porque isso não vai alterar a natureza do livro.

As suas opiniões sobre o que escreve não costumam ser lá muito meigas.
Antes de tudo, sou uma leitora. E acho que consigo olhar para os meus livros como leitora. Por isso percebo imediatamente, numa recensão, o que nasce de uma análise crítica séria e o que nasce do ódio que algumas pessoas me têm.

Como é que olha para Dentes Brancos hoje?
Para ser honesta, não acho que seja um grande livro. Parece-me uma obra perfeitamente razoável para se publicar aos 20 anos, mas não gostaria de voltar a escrever um livro assim. Há muitas coisas ali que já não correspondem ao meu gosto, porque o meu gosto alterou-se. Acho que é um livro para pessoas jovens. As pessoas que mais gostam dele têm 14, 15, 16 anos.

Já o releu?
Nunca. Nunca. Seria como uma sessão de tortura.

Gostou que o seu romance mais recente [Uma Questão de Beleza] fosse nomeado para o Booker Prize?
Nem por isso. Felizmente não ganhei, porque eu quero escrever livros que sejam provocadores. Não estou interessada em ser um “tesouro nacional”. Sou nova demais para ser um “tesouro nacional”. Além disso, depois de ganhar o Booker, é mais difícil incluir no romance seguinte cenas de sodomia com burros, por exemplo, porque essas cenas iriam perturbar as maravilhosas senhoras que compraram o livro anterior. Eu quero é ser livre. Quando tiver 70 anos, se me quiserem dar o Booker, então sim, ficarei muito honrada. Por agora, prescindo. Há outras coisas que para mim são mais importantes.

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Vai votar para o The Best of the Booker [eleição que decorreu na internet, aqui, e que acabou com a vitória de Rushdie]?
Quem são os candidatos?

Salman Rushdie [por Os Filhos da Meia-Noite], Peter Carey [por Oscar e Lucinda], J. M. Coetzee [por Desgraça], Nadine Gordimer [por The Conservationist], J. G. Farrell [por The Siege of Krishnapur] e Pat Barker [por The Ghost Road].
A lista não é nada má. O que é que eu escolheria? Talvez o Coetzee.

Há uns tempos, você disse o seguinte: “Quando leio romances, as suas falhas fazem parte do que me leva a gostar deles.”
É mesmo isso.

Não procura a perfeição?
Porque haveria de procurar? O romance perfeito não existe. Ao ler um livro que considero quase perfeito, como Pnin, de Nabokov, o mais certo é não encontrar lá as convulsões da alma que encontro em Dostoievski. Tal como não encontro em Dostoievski a delicadeza das belíssimas construções verbais de Nabokov. A Literatura é uma frase e cada escritor é uma palavra dentro dessa frase. O escritor total não existe. E ainda bem.

Shakespeare não esteve perto de ser esse escritor total?
Não, não, não. Houve imensa gente que o desprezou. Tolstoi achava que ele era um palhaço.

E você?
Eu adoro Shakespeare. Mas sou inglesa. E mesmo assim tenho consciência de que ele também escreveu algumas peças más.

Um pouco surpreendentemente, E. M. Forster é um escritor que tem tutelado a primeira fase da sua obra. O nome dele está no topo da primeira página de Dentes Brancos e Uma Questão de Beleza está estruturado como uma homenagem explícita a Regresso a Howards End.
Sim. É um escritor de que eu gosto por causa da sua enorme generosidade. Nos livros dele encontrei sempre espaço para mim. Se só tivesse lido Joyce, nunca me atreveria a escrever. Forster não é o meu escritor preferido, mas gostei muito da sua escrita quando era mais nova e sinto que tenho uma dívida para com ele.

Mas gostar de Forster não é um bocado, como hei-de dizer, bota-de-elástico?
Eu nunca fiz da modernidade um fetiche. Eu sou moderna, não preciso de chutar heroína para a veia como elemento de prova.

E a pós-modernidade, interessa-a?
Claro. Formou o tipo de escrita que faço e o tipo de pessoa que sou.

Porque é que existem tantas personagens e linhas narrativas nos seus livros?
Nunca sei muito bem como responder a esse tipo de pergunta. Mas sei que não seria capaz de escrever sobre uma única pessoa e o seu confronto com o mundo, como fazia Camus, por exemplo. Embora me interesse essa tradição francesa do herói metafísico, para mim o mundo é um lugar social. Está cheio de pessoas e não posso ignorar isso.

Como é que um romance se começa a formar na sua cabeça? Surge aos poucos ou de repente?
Aparece tudo de uma vez. Já me aconteceu num táxi, em Nova Iorque. Geralmente começa com uma ideia vaga, a partir de uma coisa qualquer que me aconteceu, e então a estrutura à volta daquela ideia começa a florescer.

No primeiro romance havia referências muito concretas à odontologia das personagens. No último, dois rivais discutem as suas concepções sobre quadros de Rembrandt. Primeiro a boca, depois o olhar. Há uma predominância dos sentidos na sua escrita?
Sim. Os sentidos estão sempre muito presentes. Em O Homem dos Autógrafos, também. Acho que tenho uma resposta muito emocional ao mundo que me rodeia. As pessoas pensam que os livros são conduzidos por ideias, mas para mim não há uma grande diferença entre ideias e sentimentos.

Um dos temas recorrentes nos seus livros é a vida na Inglaterra pós-colonial, onde várias culturas interagem umas com as outras. Curiosamente, a sua abordagem tende a ser bastante optimista.
Isso é porque eu não penso nesta questão em termos de pessimismo ou optimismo. Não reconheço a palavra multiculturalismo como um conceito.

É só um rótulo?
É uma coisa que não existe. A partir do momento em que se inventaram os aviões, as pessoas passaram a viver em países distantes daqueles em que nasceram. É só isso. Nunca ninguém me falou de multiculturalismo nas ruas onde eu cresci, com imigrantes vindos de cem países diferentes.

O facto de viver agora em Itália, longe da cena literária londrina, não a prejudica em termos de carreira?
Não faço ideia. Eu pertenço a uma cena literária maravilhosa. Chama-se “os meus amigos”. Encontramo-nos constantemente. Além disso, conheço escritores do mundo inteiro que não querem saber das Feiras e das festas, acontecimentos que têm muito pouco a ver com literatura.

Desses escritores que conhece, e dos outros que vai descobrindo nas suas leituras, quais é que lhe parecem mais interessantes?
Eu gosto deste tipo: Arnon Grunberg [aponta para um volume espesso e de capa vermelha – The Jewish Messiah – que trouxe para a entrevista]. É holandês. Escreveu nove romances. É pouco mais velho do que eu. Mas há mais: David Foster Wallace, George Saunders, Dennis Cooper, Mary Gaitskill. Tudo escritores muito diferentes uns dos outros. O meu único critério é se são bons ou não. É-me indiferente que falem de prostitutas caídas na sarjeta ou da vida de um padre numa aldeia francesa. Não me interessam os temas, interessa-me a escrita. E neste momento, tanto na Europa como na América, conseguimos encontrar escritas muito boas. Coisas fantásticas.

Com a Internet, é muito mais fácil ter feedback dos leitores. Isso é bom ou mau?
As pessoas comentam mais, sim. Mas eu aconselho os escritores a não lerem esses comentários, porque não ajudam nada. Pode parecer que ajudam, mas não ajudam. E no fim, temos que seguir o nosso caminho, dê por onde der. Houve uma altura em que lia o que as pessoas diziam do meu trabalho, mas depois achei que não valia a pena passar o dia inteiro a chorar. Na Internet há muitos exageros. Não sou a pior escritora do mundo, não preciso que me digam que mais valia estar morta e frases do género. Coisas muito rasteiras, escritas por pessoas que ainda por cima se escondem atrás do anonimato. O mais engraçado é que, depois de muito chorar, decides ir ver os sites dessa gente e então pensas: “Oh meus amigos, isto também não é lá muito bom, pois não? Olha, se calhar estamos todos no mesmo barco.” Estou certa de que eles ficariam muito felizes por saber o quanto chorei. E a verdade é que chorei mesmo muito, mergulhei no desespero, até pensei em deixar de escrever. Felizmente, soube fechar essa porta. Espero que eles tenham ficado satisfeitos com a sua maldade, mas agora tenho que continuar a fazer o meu trabalho.

Há escritores que planeiam meticulosamente as suas carreiras. Também estabelece objectivos a médio e longo prazo?
Para quê? Isso não faz sentido nenhum. A mim, o que me enche de um certo pânico é saber que cada livro exige três ou quatro anos de escrita. E pergunto-me: quantos é que vou conseguir escrever antes de morrer? Sei que não serão trinta; não vou ser como o Graham Greene. Talvez 12, talvez 13. Na verdade, só gostava de fazer tudo o que tenho a fazer antes de chegar o meu fim. Não deixa de ser uma vida estranha: só livros e depois desaparecemos.

[Entrevista publicada no número 71 da revista Ler. As fotografias são de Pedro Loureiro]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges