Ler para dentro

Uma biblioteca é, por definição, um espaço de silêncio. Silêncio absoluto, para que as pessoas curvadas sobre os livros possam concentrar-se. Mas se entrarmos na sala de leitura e nos sentarmos numa das mesas (atentos, quietos, com os sentidos alerta), compreendemos que talvez não seja bem assim. À nossa volta, os ruídos multiplicam-se: tosses, passos, espirros, respirações, dedos matraqueando em teclados de computador, zumbidos, objectos que caem, coisas a rasparem noutras coisas, ecos de maquinarias distantes, o troar de um avião que segue a sua rota sobre o telhado, já em descida para o aeroporto. «Não será antes a biblioteca um lugar dedicado à “recolha de sons”?», pergunta uma voz aos nossos ouvidos.
Essa voz sussurrada – prestes a dar-nos todo o tipo de indicações e ordens – é a que guia os espectadores/participantes durante os 50 minutos de The Quiet Volume/O Volume Sossegado, peça de «autoteatro» criada por Ant Hampton (fundador da companhia Rotozaza) e Tim Etchells (director artístico dos Forced Entertainment) para o festival ‘Ciudades Paralelas‘, em Berlim (2010), tendo já passado por Buenos Aires, Varsóvia, Zurique e Londres, antes de chegar à Biblioteca Nacional de Lisboa, onde pode ser vista (ou melhor, ouvida) até 9 de Junho, integrada na programação do alkantara festival.

Munido de um iPod com auscultadores, cada participante senta-se numa mesa, a um canto da sala de leitura da BN, lado a lado com outro participante nas mesmíssimas condições, que servirá de «duplo» e cúmplice durante o espectáculo. À frente, um caderno escrito e quatro livros numa pilha: Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago; Trilogia da Cidade de K., de Agóta Kristóf; Quando Éramos Órfãos, de Kazuo Ishiguro; e um volume com fotografias panorâmicas de grandes cidades. A voz narrativa (Pedro Penim) conduz-nos em todas as acções: ler, parar de ler, mudar de página, mudar de livro, seguir certas frases com o dedo, interagir com o companheiro, contemplar o espaço em volta e as pessoas que o ocupam, etc. Aos poucos, da observação de uma circunstância (estar sentado numa sala silenciosa que não é assim tão silenciosa), passamos para movimentos de apropriação física (as páginas em branco, a textura do papel) e depois para os próprios mecanismos da leitura. Na sua maioria, estes são processos inconscientes. Quando lemos, não pensamos na forma como os símbolos inscritos se transformam em ideias no nosso cérebro. O acto da leitura é, em si mesmo, um instrumento transparente. The Quiet Volume torna-o visível. Ao decompô-lo nas suas partes, assistimos ao modo como funciona, como se articula no espaço mental e até como por vezes se dissocia do que está efectivamente inscrito no papel.
Através do condicionamento imposto pela voz, que tem a autoridade de um encenador a fazer marcações num palco, o livro à nossa frente converte-se numa espécie de teatro – um «teatro portátil». Nas palavras de Hampton, entramos «nesse mundo plano e permitimos que se dê a estranha dança triangulada entre o dedo, o olho e a imaginação». O espaço plano ganha então volume e expande-se: «A velocidade lenta de um dedo que acompanha uma linha de texto começa a torcer o tempo; retardando-o, duplicando-o, alongando-o.» Deste modo, a leitura transforma-se numa acção performativa com potencial dramatúrgico, precisamente o que atraiu Etchells para o projecto: «O agora da página é o que me prende – o momento presente, aqui convocado com este arranjo de marcas/códigos, tinta/pixéis, letras e palavras.»
Saltando entre o caderno com frases que nos interpelam (ou se dissolvem) e os livros propriamente ditos – a descoberta da cegueira nas primeiras páginas de Saramago, os dois irmãos que inventam mentiras para não ir à escola (Kristóf) e imagens da destruição numa Beirute bombardeada (Ishiguro) –, construímos dentro da cabeça um mundo, sem que o resto da biblioteca se aperceba. «Há sempre um certo atrito entre a esfera privada e a pública», lembra Hampton. «E desse atrito pode nascer uma emoção.»

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges