O vento que se levanta

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Sala VIP
Autor: Jorge Silva Melo
Editora: Livrinhos de Teatro (Cotovia/Artistas Unidos)
N.º de páginas: 57
ISBN: 978-989-20-3972-5
Ano de publicação: 2013

Na Sala VIP de um aeroporto internacional, quatro cantores líricos (soprano, mezzo, barítono, tenor), acompanhados pelo seu empresário, esperam noite dentro por uma ligação aérea, a caminho de uma récita que está em risco de ser cancelada. É neste não-lugar – um espaço de transição, neutro, anódino e despojado (até a máquina distribuidora de snacks está vazia) – que Jorge Silva Melo instala as personagens da peça que escreveu a convite do encenador Pedro Gil, mas atravessada, como o dramaturgo admitiu nas notas de produção do espectáculo (estreado na Culturgest, em Julho), por «aquilo que me interessa, aquilo que me inquieta, este meu mundo que termina em breve».
Nas falas sobrepostas dos cantores decadentes e do empresário embrutecido pelo álcool, vemos de facto desfilar muitos dos temas caros a Silva Melo: o poder do dinheiro, a desconstrução da memória, os jogos sexuais, os vasos comunicantes com outras obras (através de um labirinto verbal de referências e citações), a nostalgia política, a amargura das ilusões que se esfumam, tudo numa atmosfera de desencanto crepuscular. “Já não há tiradas, árias, apartes, solilóquios, já não sabem o que é esquerda baixa nem projectar a voz, alexandrinos, já não há lustres, nem caixa do ponto, nem rosas nos camarins…»
O teatro acaba – mas não só o teatro. Na sala de espera do aeroporto, no SPA de um hotel de luxo ou numa clínica privada (quando a tragédia se instala), estas figuras perdidas de si mesmas dançam a melancólica valsa do fim da esperança, tentando resistir ao vento que se levanta, agreste, numa paisagem tão desolada como o deserto em que morre a Manon Lescaut de Puccini, o alicerce oculto desta peça subtil.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges